Sobre “Artigos e Acordo Ortográfico” (Luso Jornal)

meuselonAO1—– Original Message —–

From: Fernando
To: carlos.pereira@lusojornal.com
Cc: ilcao@cedilha.net ; belgica@lusojornal.com
Sent: Thursday, February 19, 2015 1:19 PM
Subject: Carta ao Dr Jorge Tavares

 

Prezado senhor,

Li o texto da carta endereçada ao Dr. Jorge na página https://ilcao.com/. Sou tradutor free-lance e, como também eu não respeito nem estou de acordo com o famigerado AO – em que país já se viu um governo impor como se escreve? – senti desejo de fazer vários comentários. Se sente que me intrometo, desde já peço desculpa. Com que direito alguém corrija um texto escrito por mim, a não ser que se trate de uma gralha ou um erro crasso – quem é que não erra?

O inglês lê-se e entende-se em todo o mundo, apesar de existir o inglês (inglês, australiano, americano, etc), sem que tivesse sido necessário um acordo ortográfico.

Todos os textos publicados no LusoJornal são-no com o novo acordo ortográfico.

Ninguém obrigou ou obriga o “LusoJornal” a adoptar o AO. Assim sendo foi uma opção tomada pelo LusoJornal. Muitos jornais e editoras não seguem o AO.

Estamos num contexto em que o português nem sempre é a língua mais utilizada pelos leitores.

Se nem sempre é a língua mais utilizada pelos leitores, então tanto faz que seja de acordo com o Acordo, ou sem ele – de qualquer das formas, eles não irão compreender o que lá está escrito.

Por isso decidimos que o LusoJornal utilizaria apenas uma norma.

Uma norma para os que não utilizam a língua portuguesa?

Imagine uma criança que aprende na escola a língua portuguesa segundo o novo Acordo Ortográfico e depois vai ler no LusoJornal um texto com a norma antiga. Não vai compreender nada.

E então os milhões de adultos que têm, como eu, certa dificuldade em ler de maneira fluente e de compreender o que está escrito? O AO veio confundir tudo e todos ao ponto de já quase não nos entendermos, concorrendo para uma total iliteracia. A confusão é agora tanta que até se inventam palavras, como por exemplo otogonal em vez de octogonal, egício em vez de egípcio, disseção em vez de dissecção, netarina em vez de nectarina, etc.

É por esta razão que todos os nossos textos são escritos na norma europeia (e não utilizamos nunca a norma brasileira), e segundo o novo Acordo Ortográfico.

Se há norma brasileira e norma europeia, então, pergunto: para quê então um acordo ortográfico se, mesmo com ele, existem formas diferentes de escrever? Não, não compreendo a vossa escolha.

Que norma/acordo é este em que os brasileiros escrevem segundo o português anterior ao Acordo e em Portugal se escreve como nunca se escreveu?

No Brasil escreve-se: recepcionista, sumptuoso, infecção, conectar

Em Portugal, agora, escreve-se: rececionista, suntuoso, infeção, conetar

E muitos mais.

Melhores cumprimentos

Fernando C. Kvistgaard

[Reprodução autorizada pelo remetente. “Links” adicionados por nós.]

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1 comentário

    • José on 20 Fevereiro, 2015 at 17:16
    • Responder

    Mais um pertinente texto de Fernando Kvistgaard, desta vez sobre a posição do LusoJornal. Com um certo humor pelo meio, F. K. desmonta alguns dos argumentos utilizados pelos acordistas (em jornais e outras publicações) e pelos políticos para imporem as suas normas ortográficas. Destaco as seguintes passagens/perguntas:

    “Se há norma brasileira e norma europeia, então, pergunto: para quê então um acordo ortográfico se, mesmo com ele, existem formas diferentes de escrever?”

    “Que norma/acordo é este em que os brasileiros escrevem segundo o português anterior ao Acordo e em Portugal se escreve como nunca se escreveu?”

    Como nunca se escreveu e como nunca se falou, acrescento eu, o que deita por terra outro dos argumentos dos acordistas. Ninguém, em Portugal, diz ‘suntuoso’, ‘espetativa’, ‘interrutor’, ‘contato’, ‘tumefato’, ‘Netuno’, ‘netarina’, ‘anistia’, ‘indenização’, ‘carateres’… etc. Nem o mais iletrado dos nubentes diz que vai casar… em segundas ‘núcias’. Se assim é, porquê impor esta escrita idiota (e altamente lesiva para o futuro da língua) a todos os portugueses?

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