«Fervedouro dos desacertos e desconcórdias» [por Mário de Carvalho, “Facebook”, 16.02.14]

autografoO ACORDO ORTOGRÁFICO foi uma aventura – em parte bem-intencionada — que se deixou levar demasiado longe. Na discussão têm fervilhado as proclamações e os equívocos. Ninguém está livre deles. Não tenho a pretensão de exprimir verdades absolutas. Mas agora que o assunto vai à Assembleia da República, talvez consiga ser útil com algumas modestas observações à margem, fora de argumentários, gesticulações e vozearias. De notar que, seja quais forem as posições tomadas, há, de um e do outro lado, PESSOAS que merecem respeito e cujo apreço pela Língua Portuguesa não pode ser posto em causa.

1 –. Nem tudo o que muda é progresso. Uma amputação é uma mudança. O apodrecimento também é um processo de transformação. Mas mudar para pior não é progresso, é regresso. Parece-me equivocado colocar as «simplificações» e as «uniformizações» do lado das aspirações sociais. Diminuir o alcance de um texto (cerceando-lhe a memória histórica, por exemplo) é empobrecer quem o lê. E isso não é «moderno», muito ao contrário, é uma limitação à liberdade.

2 – O chocalhar de quinas, sabres e castelos, com gritos de «sus! A mim!», como se a Pátria imemorial estivesse ameaçada e as cinzas dos nossos maiores estremecessem nos seus túmulos, parece-me que vem em má ocasião. Não é isso que está em causa. Ninguém pretende desacatar D. Afonso Henriques.

3 – Alguns escritores e outros práticos da Língua pensam (como Saramago disse a propósito de uma tentativa de acordo ainda pior) que «isso é coisa para revisores». Eu tenho uma enorme estima por revisores, com quem venho aprendendo muito. Têm-me poupado alguns deslizes e até dispensado – o que muito agradeço – de me exasperar com minudências e ambiguidades não raro antipáticas. Ao contrário do que pensa a sabedoria popular (com a sua atávica propensão para o erróneo), os escritores não têm que papaguear a gramática de cor. Mas a gramática não serve apenas «para dar o pitoresco» como ironizava Mark Twain. Valerá a pena, pelo menos, dar notícia de um desconforto.

4 – O que não vale a pena é bramir, vociferar, pôr-se aos encontrões e transformar a questão em matéria de claque clubística, na disputa pelo alarido mais ruidoso.

5 – A língua é uma realidade entranhada, que evolui e se transforma em interacção com as transformações sociais e históricas, e de acordo com as suas próprias leis (às vezes misteriosas). Não me parece adequado usá-la para experimentações. «Pesquisas fazem-se em casa, já dizia a minha avozinha que era escritora» escreveu algures Alexandre O’Neill. Impõe-se a máxima cautela quando se toca em aspectos relacionados com um uso quase milenar e com um corpus literário apreciável. A ortografia não é tão neutra como se pensa. Os matizes, as deslocações de sentidos são de uma extrema sensibilidade.

6 – Tremendo e custoso equívoco tem sido considerar-se que as questões da língua são com os linguistas. A derivação «língua>linguista» leva muitas pessoas, com bom ânimo, a fiar-se nas aparências e a pensar que os linguistas estão na primeira linha da discussão sobre a Língua. O engano ainda cresce com a invocação de alguns nomes prestigiadíssimos (e com razão) naquela especialidade. Não é o caso, como parece evidente, do Doutor Casteleiro. Trata-se, no meu entender, de um erro completo. Talvez eu consiga explicar isto melhor com exemplos: Um osteopata que saiba tudo sobre o esqueleto humano está preparado para dar consultas de psiquiatria? Um engenheiro naval, hábil em desenho, está apto a comandar um navio? Enfim, confiariam um batalhão a um historiador militar? Note-se que eu não tenho nenhum rancor a linguistas. Muito ao contrário. Por alguns – que até poderia nomear – tenho uma afectuosa admiração. Mas chega a ser injusta para eles a responsabilidade que lhes tem sido atribuída nesta questão ortográfica.

7 – Infelizmente, não é pela ortografia que o Português de Portugal e do Brasil divergem. Esta talvez seja, até, a disparidade mais insignificante. Não vale a pena estar a trazer para aqui exemplos que são do domínio público e só não os vê quem não quer É um problema sério para que eu não tenho soluções e que merecia ser ponderado, calmamente, cautelosamente, por quem tivesse os necessários saber, experiência e perícia. Um ou outro linguista, creio, seria até bem vindo a esse trabalho.

8 – Tem aparecido com alguma frequência o fantasma do «conformismo». Que as pessoas estariam acostumadas a escrever de certa forma e existiria um lastro de inércia, inimigo das melhorias e transformações, sempre a puxar à retaguarda… Esse argumento é utilizado precisamente pelas pessoas que já se acomodaram à prática do acordo ortográfico (nas escolas, nos jornais, etc.) e têm medo de que as façam estudar de novo. Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Bastam, de facto, umas noções elementares daquela etimologia que fizeram desaparecer das escolas, não se sabe a que propósito. Porventura certo desprezo subliminar pelo ensino de massas, pois, em algumas almas, tratando-se de educação para pobres, «para quem é, bacalhau basta».

Acho que se vai a tempo de reconsiderar. Desmobilizar a aventura. Acredito que os custos da manutenção do acordo viriam a ser mais graves que os da suspensão. Não há pressa. E não gostaria de ver os defensores do acordo na posição de vencidos que grande parte deles, pela sua boa-fé, não merece.

E aqui ficam estes pontos que espero contribuam um pouco para a discussão serena do Acordo Ortográfico. O meu propósito, não sei se conseguido, é evitar as toadas agressivas que por aí têm chegado quase ao destempero.

Vamos com calma.

MdC

[Transcrição integral de texto da autoria do escritor Mário de Carvalho, publicado em 16.02.14 na sua página na rede social Facebook. Imagem importada do “site” do autor.]

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6 comentários

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  1. «E não gostaria de ver os defensores do acordo na posição de vencidos que grande parte deles, pela sua boa-fé, não merece.»

    Mário de Carvalho é demasiado generoso. Eles «merecem» isso, e até pior.

    • Otto Solano on 19 Fevereiro, 2014 at 11:21
    • Responder

    Na verdade Mário de Carvalho é demasiado generoso. Se existem alguns ingénuos que pela sua boa-fé nao merecem ser considerados de “vencidos”, a grande maioria, “Casteleiros & Cia” e os políticos que viabilizaram esta “bu/o/rrada” chamada AO, actuaram de forma criminosa e devem ser punidos nao só moralmente como também com avultadas coimas que possam cobrir parte dos danos premeditadamente causados.

    • Maria José Abranches on 19 Fevereiro, 2014 at 16:44
    • Responder

    “Noblesse oblige!” Seria expectável, além de salutar e necessário, que escritores portugueses consagrados se manifestassem publicamente contra o AO90. E que não aceitassem que as editoras os publicassem com a ortografia “estropiada”. Oxalá as palavras de Mário de Carvalho sejam mobilizadoras, embora eu também não partilhe da sua condescendência, já aqui salientada noutros comentários.

    Aproveito para repetir que, como cidadã portuguesa e europeia, me recuso e recusarei sempre a ler o Português cacográfico que o AO90 nos impõe. Não compro, não leio, não me interessa o que possam pensar os adeptos do mesmo! Falham no essencial, à partida: nem sabem o valor da nossa língua, como a de qualquer povo, nem são democratas, porque são cúmplices da imposição autoritária do AO90, “negociado” na sombra, sem ter em conta o sentir nem a vontade dos cidadãos nacionais.

    E faço aqui um apelo a todos os que se opõem ao AO90: não comprem, não leiam, não subscrevam nada que esteja mal escrito! E leiam bem as “Petições”, “Manifestos” e outros textos públicos que por aí andem, antes de assinar, para não se tornarem também cúmplices desta “vandalização” do Português de Portugal.

    Mas quem sou eu, afinal? Apenas uma eleitora portuguesa, isto é, “um” voto, mas talvez haja mais eleitores, à direita, à esquerda ou ao centro que, como eu, considerem prioritário ter provas, antes de votar, de que o AO90 desaparecerá do nosso horizonte, para sempre!

    • Luís Ferreira on 19 Fevereiro, 2014 at 20:35
    • Responder

    Eu, garantidamente, não compro livros escritos dessa forma.
    Se não os compro, menos os leio.

    Quem se dobra ao ponto de deixar a sua língua ser estropiada da forma como está a ser, não merece ser lido. É um tipo menor. Lamento se não me entenderem, mas é a vida…

  2. Cara Maria José Abranches, já me aconteceu, precisamente, não assinar uma petição – com cujo teor concordava – por estar «escrita» segundo o AO90.

    • Jorge Teixeira on 20 Fevereiro, 2014 at 16:38
    • Responder

    Os escritores têm sido os grandes omissos ao permitirem às editores imprimirem os livros em AO90.

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