«Eça com Z, se faz favor» [Nuno Pacheco, “Revista 2”, 15.09.13]

letter-zAnda muita gente por aí preocupada com os contratos swap e seus malefícios, coisa que se compreende, mas não se vê assim tanta gente interessada em saber dos contratos Smuop. E estes trouxeram, e trazem ainda, malefícios e dos grandes. O que são? São uma invenção bem nossa e podemos traduzi-los por Sugestões Mirabolantes para Unificar a Ortografia Portuguesa. Começaram com um acordo, gongoricamente anunciado, que iria (ó supremo benefício!) permitir edições únicas de livros que iriam circular alegremente por Portugal, Brasil e Áfricas. Pois bem: a Leya, que seria uma das beneficiadas com tal novidade, veio há dias queixar-se da falência desse pressuposto. Thais Marques, directora de marketing da editora, citada numa entrevista que supostamente foi dada à agência Lusa e que em Portugal foi estranhamente publicada com tiques abrasileirados (“desde sua entrada no mercado”, por exemplo, repetido duas vezes, quando em Portugal se escreveria e escreve ainda “desde a sua entrada no mercado”), é clara quanto a isto.

Cite-se a entrevista: “A facilidade do idioma comum, segundo a diretora [‘sic’], não pode ser apontada como um facilitador, já que muitas obras seguem passando [‘sic’] por um processo de “abrasileiramento” ou, ao contrário, quando se trata de obras brasileiras levadas a Portugal.” Não pode ser apontada como um facilitador? Mas o acordo não garantia que podia, senhores? Não garantia e assegurava, sem a mínima dúvida? Que se passou? Foi alguma coisa do tempo? Das nuvens? Dos temperos na cozinha? Houve aqui alguém que nos enganou…

Enquanto se espera que investiguem porque é que em Portugal e no Brasil se continua e continuará a escrever de maneiras diferentes (em Portugal a escrever mal, e cada vez pior, graças à misérrima sopa de letras inventada pelo iluminados da unificação) e, em consequência, a mandar abrir inquérito aos prejuízos dos contratos ‘Smuop’ (façam as contas, façam, e irão tremer com as conclusões), observemos algo do que nos rodeia nessa matéria.

Por exemplo: vai-se à extraordinária exposição ‘A Encomenda Prodigiosa‘ e lá está, nos folhetos da dita, a “Capela Real de São João ‘Batista'”, em vez de Baptista. Isto nos folhetos azuis, os “oficiais”, porque nos folhetos do Museu de São Roque está, obviamente, São João Baptista. O acordo ortográfico, já se sabia (embora não esteja em vigor aqui, como nunca é demais repetir), obriga a mudar baptismo para “batismo” ou baptizado para “batizado”, seguindo, aqui, a norma vigente no Brasil. Mas Baptista é um nome, não devia ser mudado.

Não devia mas foi. Portugal, aliás, adora mudar nomes sem justificação. O caso mais gritante é o de Eça de Queiroz, passado a “Queirós” não se sabe por mor de quem. Ora Eça é Queiroz no registo de nascimento, nos documentos de época, na Fundação com o seu nome, nos dicionários a ele dedicados, na fotobiografia, na assinatura da célebre estátua (“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diaphano da phantasia”), mas passou a “Queirós” em vários estudos e reedições da sua obra. Inexplicável. O pintor Amadeo de Souza-Cardoso também começa a aparecer por aí como “Amadeo de Sousa Cardoso” (esqueceram-se de “actualizar” o primeiro nome para “Amadeu”). Mário de Sá-Carneiro também perde, de vez em quando, o hífen (há um ódio inexplicável aos hífenes em Portugal, e já não é de agora) e Herberto Helder “ganha” o acento que não tem.

Isto em Portugal, claro. Porque no Brasil, apesar de alguns imbecis já terem começado a tratar por “Raquel” a celebrada escritora Rachel de Queiroz (com Z, claro), há um respeito maior pelo nome de baptismo (com P, se faz favor). Drummond não perdeu o duplo M, Clarice Lispector não passou a “Lispetor” e Lygia Fagundes Telles não ficou “Lígia Teles”. Tal como Vinicius de Moraes não passou a “Vinício de Morais”. Por cá, ainda veremos Ruy Belo perder o Y e Sophia de Mello Breyner passar a… “Sofia de Melo”. Por este caminho…

Eh! Mas sabem quais os nomes que nunca, mas nunca, são trocados? Os dos futebolistas. Percebe-se muito bem: o futebol é um assunto de elite, reservado a um pequeno grupo de entendedores, por isso é natural que aqui não haja falhas. Carlos Queiroz, o treinador, não perdeu nem perderá o Z; e Falcao, jogador, jamais terá em cima da segunda vogal o ameaçador til, passando a Falcão. Já os pobres Eça ou São João Baptista lá se vão sujeitando às modas gráficas. Haverá remédio para isto?

[Transcrição integral de texto, da autoria de Nuno Pachecopublicado na “Revista 2”, suplemento do jornal “PÚBLICO” de 15.09.13. Imagem de Andrea Downey em typographic. Destaques e “links” adicionados por nós.]

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5 comentários

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  1. Ó, mas a excelsa Sophia já quase viu o ph substituído por um mísero f com a benção (ou extrema-unção) do AO90 e das regras de nomenclatura e actualização de nomes próprios da Academia Brasileria de Letras (inacreditável, mas verídico). Bastará ler a página de discussão do verbete a ela dedicado na wikipedia, a tal instituição onde os acorditas saem de todos os buracos e teimam em assassinar a língua. Sophia, segundo eles, seria uma tal de Sofia porque o acordo é para acordar e se cheira a antigo, tem de se escrever em novo. Felizmente que algumas mentes mais lúvidas prevaleceram (e até deixaram escapar alguns nomes de meses com maiúscula).

    • Jorge Teixeira on 17 Setembro, 2013 at 14:53
    • Responder

    A wikipedia em português, é, neste momento, o pior cartão de visita da wikipedia como “instituição”. É absolutamente execrável a forma como é gerida. Em vez de ser um esforço colaborativo, é absolutamente dominada por uma clique que tudo condiciona.

    • Maria José Abranches on 1 Outubro, 2013 at 17:50
    • Responder

    Os contratos ‘Smuop’: «Sugestões Mirabolantes para Unificar a Ortografia Portuguesa»

    «Enquanto se espera que investiguem porque é que em Portugal e no Brasil se continua e continuará a escrever de maneiras diferentes (…) e, em consequência, a mandar abrir inquérito aos prejuízos dos contratos ’Smuop’ (façam as contas, façam, e irão tremer com as conclusões) (…)»

    Destaco estas passagens do artigo de Nuno Pacheco, pois vêm ao encontro das minhas preocupações: de que é que o jornalismo português de investigação, sério e responsável, está à espera para desvendar todos os interesses políticos, económicos, financeiros e outros que, na sombra, mas com uma energia e uma persistência notáveis, puseram em marcha esta gigantesca empresa de destruição e, a prazo, de apagamento internacional da língua dos portugueses? Ou ainda há quem tenha dúvidas de que o AO90 serve apenas a ambição expansionista do Brasil? E por que razão terá Portugal de “ajudar” o Brasil, um país estrangeiro e independente, aceitando o papel de “facilitador” dessa sua ambição, e para isso cedendo todos os laços pelos portugueses historicamente construídos na Europa, na África, na Ásia, na Oceânia?

    Chega de conversa branda e ineficaz! A escola continua irresponsavelmente a manipular as nossas crianças e jovens, inoculando-lhes para sempre o desrespeito pela sua língua identitária. Não bastava o desastre evidente do ensino do Português, fruto da irreprimível adopção intempestiva da última “moda” linguística, didáctica ou pedagógica!… Era preciso ir mais longe, aos alicerces do corpo visível da própria língua!…

    O tempo não pára e esta máquina cega avança, com a cumplicidade imbecil e irresponsável dos “beatos” do supremo valor da MODA, categoria de indivíduos que entre nós sempre proliferou… Não é por acaso que temos a expressão “Maria vai com as outras”!

    Deixo aqui este apelo: por favor, quem tiver a possibilidade e a coragem de desmontar e denunciar este “vespeiro”, que avance já, enquanto é tempo! Esta é agora a causa nacional prioritária, porque uma língua viva perdida nunca mais se recupera!

  2. Em jeito de brincadeira, pego na expressão citada pela M.ª José e dou mais uma alfinetada nos acorditas.

    Maria-vai-com-as-outras é um daqueles substantivos formados por hifenação que o AO90 quer ver despido de tracinhos que aglutinam as palavras num conceito mais abrangente. Teimam os acorditas em dizer que o hífen separa, sem perceberem que tem o papel inverso – é uma ponte entre palavras.

  3. @Afonso
    Na questão da Wikipédia, confesso que fui eu quem conseguiu mudar a coisa. Tudo começou precisamente porque fiquei chocado por ver “Sofia de Melo”, ainda para mais agora que a google destaca os artigos da Wikipédia e tendo a senhora nascido depois de 1911. Enfim, conheço minimamente a wiki.pt e sei que está muito longe de ser uma boa fonte como é a en.wiki. Mas lá lhes consegui pôr algum juízo na cabeça com uma proposta há uns meses e lá passou (pesquise “convenção de nomencaltura nomes próprios”). Agora está Sophia, como sempre deveria ter estado. E o Marcello, com dois ll. E o Thomaz, que dantess estava Tomás, mesmo estando Marcello e Thomaz na infopédia da PE.

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