Da “ignorância” [por Helena Langford, comentário Facebook]

canetavistaprint1Sou tradutora/intérprete profissional, trabalho há quase 30 anos neste ramo, primeiro em Portugal, de onde sou natural, e de há 10 anos a esta parte no Reino Unido onde hoje resido. Especializei-me nas línguas inglesa (indiferenciadamente GB, USA, Australiana, NZ, Canadiana, Queniana, Sul Africana, Indiana, Jamaicana… etc…), e, na língua portuguesa, ou seja na fatia dela muito recentemente restrita à designação: “de Portugal” ou “UE” pela comunidade anglófona.

Esta última fatia do Português UE, cada vez está mais difícil de definir… Será a que aprendi na escola, e na qual fiz os meus estudos, inclusivamente os superiores, que me têm valido sempre sem sobressalto até à data presente… aquela com que sempre trabalhei ao longo dos anos sem problemas… a que abrangia o Brasil, Moçambique Guiné Bissau, Cabo Verde, Angola, Timor e Macau?… Ou aquela do recente “Acordo” Ortográfico para o qual comprei dicionário especializado, e à qual já não sei quem adere, nem o que é que abrange? Convenhamos que é profundamente triste, ridículo e embaraçoso quando os clientes, ao fim de tantos anos de vida profissional, agora me interpelam: “Mas a Sra trabalha com brasileiro?” “Haaa… então vai-me desculpar mas não serve, vamos procurar outra pessoa… é que nós só queremos brasileiro, não estamos interessados em português…

Por muito que eu lhes tente explicar que a língua é só uma, embora utilizada com as devidas adaptações culturais e de localização que qualquer língua exige de um bom tradutor, não há maneira de os convencer. E até compreendo… pois na óptica deles quem sou eu afinal, ali a querer contrariar o óbvio tão recentemente confirmado preto no branco à comunidade internacional?? Olham para mim como que a dizer: “A mulher passou-se! Está desactualizada…” Profissionalmente até me prejudico com esta imagem de “ignorância”!

Acontece que no “resto do mundo”, que não Portugal obviamente… onde a vida prosaicamente continua, orientada por pedacitos de burocracia anónima que diariamente semaforeiam as diversas actividades profissionais, indiferentes a deuses literários deliberantes em Olimpos lisboetas distantes da realidade terrena… já se interiorizou que há pelo menos 2 “portugueses”! Duas línguas distintas. E como não se dorme em serviço nesta realidade informática acelerada da comunicação inter-linguística… enquanto os iluminados Drs portugueses matutam nas nuances do nosso querido idioma pretendendo de alguma forma, babando-se nos seus sonhos pós-prandiais arrastados, gravar nele a sua marca pessoal como o proverbial cão a mijar no poste… o London Institute of Linguists Educational Trust já arregaçou mangas, e, de forma eficiente para não deixar arrefecer o ritmo intenso da actividade que regulamenta… já separou as águas dando seguimento aos recentes ditos das superiores entidades Lusas (incógnitas para a maior parte de nós). Assim sendo, de ora em diante, se um tradutor/interprete por eles formado (e estas formações são imprescindíveis neste país para se poder funcionar no meio… e são diplomas difíceis de obter e qualificações profissionais muito caras) tiver uma qualificação em Português UE, já não pode funcionar em instâncias oficiais como tradutor de Português BR, e vice-versa. Desta feita, a inconversibilidade UE/BR ganhou cabedal e terreno rapidamente, contaminando o restante sector privado pois que agora, pelo sim pelo não, e a não ser que seja de outra forma especificado pelo cliente, os editores dão preferência ao português BR uma vez que é dos dois idiomas o que proporciona um mercado mais vasto para escoamento dos seus produtos, sendo também o de visibilidade económica incontestavelmente superior.

Por todos estes motivos, profissionais como eu, agora malogradamente ferrada a ferro e fogo de “UE”, têm vindo a assistir a uma redução drástica no seu volume de trabalho e à transferência desse volume para profissionais “BR”, como aqui agora se designam.

Resumindo: em nome de uma união utópica à volta de uma língua formatada à força de retalhos e compromissos, e que não serve a ninguém… partimo-la em bocadinhos… criamos desunião onde ela não existia… concorrência desleal e prejudicial onde só existia confluência de interesses à volta de culturas fraternas, onde todos ganhavam com um mercado comum alargado… e como se não bastasse, destruiu-se em tempos de vacas magras um mercado de emprego precioso para os profissionais linguísticos… professores de Português como língua estrangeira… interpretes/tradutores… editores… etc. Tudo por questões nacionalistas retrógradas e resquícios colonialistas que só nos envergonham no plano internacional.

O Espanhol tem inúmeras versões pelo mundo fora, assim como o Francês e até o Árabe, que difere significativamente do Egipto ao Irão, isto já para não falar no Inglês, com o qual trabalho diariamente nas suas múltiplas versões, algumas das quais acima enunciadas.

Nas contagens das Nações Unidas para o número de falantes de cada língua são englobadas todas as versões de cada uma, num todo abrangente, e assim se avalia a força de cada idioma no contexto mundial e o seu eventual mérito como língua oficial global. Com o Português, no entanto, a machadada foi tão drástica que, precisamente quando estávamos prestes a assistir à elevação da nossa língua a estatuto universal, ela surge incrédula e artificialmente decepada em duas… cada qual com metade da força, comprometendo o todo! E se amanhã Angola e Moçambique se lembrarem de querer também o seu quinhão? Estão no seu direito… afinal está aberto o precedente!!!

Haverá ainda a possibilidade de se inverter esta tendência fragmentatória que tão desgraçadamente se iniciou? Um verdadeiro tiro no próprio pé com consequências desastrosas até para a nossa identidade? É que neste momento já não basta só esquecer a coisa… fazer de conta que não se passou nada e ignorar… É preciso activamente reparar danos no plano internacional, e na imagem que erroneamente fizemos passar além fronteiras.

Pois não vêem os tais iluminados linguísticos e políticos, que de entre as versões agora criadas, o “Português EU” e o “Português BR”, ganha incondicionalmente o segundo, obliterando o primeiro pelo simples volume maciço de comunicação de negócios, e produção mediática e literária traduzíveis que gera?

Helena Langford C. Santos

[Transcrição de comentário, da autoria de Helena Langford C. Santos, no “mural” da nossa ILC no Facebook.]

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5 comentários

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  1. Mais um testemunho demolidor da caldeirada e da estúpida fragmentação que o AO90 veio provocar. No meu computador ainda tenho o Word 2008, versão 12.3.5, e no menu “Tools”, correndo até “Language”, vemos a enorme lista de línguas que podemos seleccionar. Quando chegamos ao inglês encontramos três versões: English (AUS), English (UK) e English (USA). No português só encontramos duas: Portuguese, e Portuguese (Brazil). Ou seja, antes do pesadelo e da loucura do AO90, os anglófonos nem precisavam de especificar: quando diziam “Portuguese”, sem mais nada, era o português de Portugal e pronto.
    Agora é a balbúrdia que se sabe e que se sofre todos os dias.
    Será que já não temos um governo com vergonha na cara que entenda isto e tenha a nobreza e a afoiteza de suspender imediatamente esta colossal derrocada?

  2. Este acaba por funcionar aqui mais ou menos como funcionou o acordita da Porto em S. Bento. Verdade verdadinha é que não era preciso ser bidu para adivinhar a conclusão desta agora: a destruição completa e acabada do idioma, que estava, apesar de tudo até, muito bem.
    E cá temos, o resultado da estupidez em acção. Não há-de sobrar pedra sobre pedra em Portugal.
    Cumpts.

  3. Apaguem o outro por favor, escrevi rápido e com erros, mal olhei…

    Já está disponível a audição ao senhor da Academia (e ao outro que nem devia ser ouvido pelo viés que é ter o cargo que tem). Fiquei sem perceber muito bem que mudanças ao acordo pretende, mas se critica “espetador”, “mão pelo pelo”…

    • Jorge Teixeira on 3 Abril, 2013 at 11:26
    • Responder

    Era por demais evidente que a “unificação” da ortografia através do critério que mais divide (a dita “fonética”) só redundaria no aprofundamento das diferenças. Mas os acordistas são assim. Que importa tudo isto, se o nosso nome ficar na História como “grande reformador da língua portuguesa”?
    Para mim é justiça poética que da “reforma da língua portuguesa” resultem, definitivamente, duas línguas.

  4. Palavras como “espetador” não existem no Brasil também. “Espetar” significa “furar” e ninguém vai fazer um uso confuso. O desacordo faculta a grafia do substantivo com ou sem o “c”, uma confusão que antes não existia.
    Dá impressão de que esse desacordo é a primeira etapa de uma nova mudança que deverão tentar implantar daqui a mais 20 ou 30 anos, quando toda uma geração já tiver assimilado o atual desacordo.
    Cumprimentos do além-mar (que não sei se leva hífen, preciso estudar tudo de novo.).

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