«A querela ortográfica em manchete» [José Queirós, “Público”]

No passado dia 3, este jornal surpreendeu os seus leitores com a manchete “Vasco Graça Moura dá ordem a serviços do CCB para não aplicarem Acordo Ortográfico”. O destaque dado à notícia, que reavivou de imediato a polémica em torno das novas normas ortográfi cas, foi objecto de um protesto do leitor Sebastião Lima Rego, desaprovando a sua escolha para título principal do PÚBLICO nessa sexta-feira. Na sua opinião, tratava-se de um “tema anódino, lateral, afinal desinteressante, para capa do jornal”, isto “num dia que tinha a crise, sempre a crise, a privatização de 40 por cento da REN, a greve dos transportes na véspera, o massacre do estádio de Port Said, etc.”.

Lima Rego, que integrou a extinta Alta Autoridade para a Comunicação Social, considera que a manchete em causa “não representa (…) em rigor uma informação, mas sim uma estocada duma refrega, uma bala duma batalha”, na medida em que, segundo argumenta, “em várias peças da edição de 3 de Fevereiro, inclusive no editorial, o PÚBLICO ataca deliberadamente, insistentemente, militantemente, o Acordo Ortográfico”. Registe-se que as outras peças relacionadas com o tema da manchete eram, nessa edição, um artigo de opinião, de posição contrária ao acordo, e uma nota da secção “Sobe e desce”, na última página, em que uma fotografia de Graça Moura era acompanhada de uma seta ascendente, com a posição do novo presidente do Centro Cultural de Belém a ser considerada “digna de aplauso”. No plano informativo, e na mesma página da notícia sobre a decisão de Graça Moura, um texto mais curto noticiava uma iniciativa parlamentar favorável à eventual suspensão da aplicação do Acordo Ortográfi co (AO), da autoria do ex-presidente do governo dos Açores, Mota Amaral, e de dois outros deputados do PSD.

Admitindo que “todo o jornal tem direito à opinião (…), desde que separada da informação”, e afirmando que “misturar o esclarecimento com a disputa é uma das piores pechas do jornalismo”, Lima Rego diz que esperava do PÚBLICO “outro tipo de comportamento”, e solicita-me que “avalie” o caso “do ponto de vista da deontologia e curialidade editoriais”. Assim farei, não sem antes dar a conhecer, em contraponto à sua crítica, os esclarecimentos que o responsável pelo fecho dessa edição do jornal, o director adjunto Nuno Pacheco, me remeteu sobre a escolha da manchete.

Notando que o jornal obteve “na tarde de quinta-feira”, dia 2, a informação de que Graça Moura tinha mandado suspender a aplicação do AO no CCB, Nuno Pacheco explica a decisão tomada: “Deveu-se essencialmente ao ineditismo do facto: a não aplicação do AO (…) não tem nada de extraordinário, porque sucede em diversas instituições, mas voltar atrás, ou seja, cancelar a aplicação do AO num organismo que já o aplicava”, foi “um acto inédito e sem precedentes”, tendo para mais ocorrido “na mesma semana em que três deputados pelos Açores (…) tinham divulgado uma posição bastante crítica e desafiadora sobre o AO”. Defende, por isso que foi “pertinente” o destaque dado ao tema, sublinhando que “na manhã seguinte, na capa do PÚBLICO, era essa a notícia com maior grau de novidade e ineditismo, sem minimizar a importância de tudo o resto”.

Sobre as outras peças relacionadas com o AO na mesma edição, o director adjunto salienta que a notícia “foi tema de editorial porque, a um jornal que desde o início se opõe (com argumentos) ao acordo, era impossível manter o silêncio” face ao sucedido, e que Graça Moura “teve direito a seta ascendente no Sobe e Desce” porque “demonstrou coragem e coerência”. Quanto ao artigo de opinião publicado nessa data, “já estava paginado de véspera”.

“Se emitir opinião, a par da notícia, é ‘misturar o esclarecimento com a disputa’, como sugere Sebastião Lima Rego, os jornais deixariam de ter espaços de opinião delimitados para escreverem o que entendem. Na notícia sobre a decisão de Vasco Graça Moura há informação, jornalismo, sem opinião misturada a não ser a dos protagonistas; no espaço de opinião… há opinião” — resume Nuno Pacheco, antes de anunciar que, “para o PÚBLICO, o Acordo Ortográfico continuará a ser alvo de notícias, opiniões e debate”, já que não se trata de “um caso ‘resolvido, como alguns pretendem”. “E esta, sim”, conclui, “é uma posição editorial”.

Penso que as explicações citadas são claras e que a escolha da manchete do passado dia 3 não merece qualquer reparo. Sebastião Lima Rego pediu-me que a avaliasse “do ponto de vista da deontologia e curialidade editoriais”. Na minha opinião, não existiu neste caso qualquer problema deontológico. Como se pode verificar pela sua leitura, a notícia que sustentou a manchete não mistura informação e opinião; relata os factos e o seu contexto. Quanto à coexistência, numa mesma edição — e de um modo perfeitamente demarcado —, de notícias e opiniões sobre um determinado tema, nada tem de censurável. Pelo contrário, é o que deve esperar-se de um jornal de referência: que informe e ajuíze, nos espaços próprios, sobre os principais assuntos da actualidade.

Já a questão da “curialidade” de uma manchete pode sempre ser discutida, como escolha editorial que é, mas também nesse plano concordo com o director adjunto do PÚBLICO. Nenhuma das alternativas sugeridas pelo leitor para a edição do dia 3 me parece preferível à luz de um critério jornalístico: a “crise” corria sem novidades, a venda de 40% da REN era já conhecida, a greve dos transportes não tivera impacto assinalável e a tragédia de Port Said fora notícia na véspera. Em contrapartida, a decisão de Graça Moura aparecia como um facto novo, imprevisto e relevante, que iria marcar a actualidade nos dias seguintes, quer pelo seu peso simbólico, quer enquanto sintoma de que a querela ortográfica permanece viva e mobiliza o interesse de muitos leitores, como atestam as múltiplas reacções — favoráveis e desfavoráveis — que suscitou.

Dito isto, parece-me perfeitamente compreensível que se relacione — como o faz Lima Rego — o destaque dado a esta notícia com a posição editorial assumida pelo PÚBLICO de não adoptar o Acordo Ortográfico. É uma opção conhecida dos leitores e que justifica uma atenção particular ao tema no plano informativo. Importa é que a informação seja rigorosa e o espaço de opinião aberto ao debate das diferentes posições. Já expliquei, neste espaço, que não vejo motivos para criticar a recusa do PÚBLICO em aplicar as normas do Acordo Ortográfi co. E que não me é possível saber ao certo qual é a opinião, a esse respeito, da maioria dos leitores. Mas registo que a recente generalização da aplicação dessas normas no espaço público não conduziu até hoje a reclamações signifi cativas contra a manutenção da ortografia tradicional nestas páginas. Posso testemunhar, por outro lado, e sem dar a esse facto significado estatístico, que os comentários que me chegam sobre este tema se dividem em duas categorias principais: a dos que rejeitam com veemência a mudança ortográfica, apoiando a posição do jornal, e a dos que, manifestando alguma indiferença a esse respeito, lembram com razão que, mais importante do que a norma adoptada, é o zelo na sua correcta aplicação, e por isso protestam contra a preocupante frequência de erros ortográficos.

José Queirós, Provedor do Leitor do jornal “Público”

[Transcrição integral de artigo da autoria de José Queirós, Provedor do Leitor do jornal, no “Público” de hoje, 19.02.12. Link não disponível.]

Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito e são por definição de interesse público.

[Publicado às 18:45 h, a partir de PDF recebido por email]

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4 comentários

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  1. Boa resposta do jornalista Nuno Pacheco e do Público ao tal Lima Rego. Dava-lhe mais gozo o assunto enfiado numa gaveta, como andou tanto tempo. Aconselho-o a ir implicar com um diário qualquer que trazia esta semana um vulgar anúncio publicitário em metade da primeira página.
    Cumpts.

    • João Carneiro on 19 Fevereiro, 2012 at 22:04
    • Responder

    O sr. Lima Rego faz agora algo que nunca fez na “alta autoridade” para a comunicação social, emitir uma opinião, e, para mais, implicando com uma notícia que o é, e não como ele preferia que fosse, uma não notícia. Aliás defendendendo uma posição pró-governamental a ver se o contratam novamente para mais um tacho num organismo que não serve para nada, como outras “autoridades”, nomeadamente a da concorrência, que não existe simplesmente, a não ser para alinhar com as posições do governo e do poder económico. O facto, sr Lima Rego, é que a maioria dos Portugueses que não são “buchas” não concordam com este AO, e que, portanto, não necessitam de defender a agenda de um governo que está demasiado ocupado a estudar como roubar ainda mais os portugueses e que ao mesmo tempo não percebe que vai gastar mais milhões de euros a implementar o AO. Mas não, o que interessa é dizer ás pessoas que estiveram a viver acima das suas possibilidades, não foram os políticos, os que decidem onde gastar milhões todos os dias, foram as pessoas, que decidem comprar bife do lombo, em vez de alcatra. Não se percebe quem vem beneficiar o AO e que beneficio tráz à lingua falada e escrita, a não ser estupidificar o povo ainda mais, de forma a que os políticos possam fazer o que quiserem enquanto estamos demasiado ocupados a ter que estudar novamente o Português ou a falar como asnos.
    Cumprimentos

  2. Responder ao Sebastião é dar-lhe mais do que merece. Os acordistas nunca respondem a ninguém. E nunca apresentam argumentos, além, claro, daquele que favorece o ensino do chinês: temos de defender o acordo porque os brasileiros são 200 milhões.
    O que os acordistas defendem é outra coisa. Mas a crise económica espanhola veio atrasar-lhes os planos…

  3. Se boa parte do mundo que fala português está contra, até eu estou contra o aborto ortográfico, então para que esta panacada de por todos a falarem um português assassinado e o meu blog é anti AO

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