Ajudem a Maria!

Estou no 11º ano, comecei agora o ano lectivo e todos os dias entro em “luta” com a minha professora português por causa deste assunto. Todos os professores parecem submissos e conformados, mas eu simplesmente não me consigo conformar e faz-me ainda mais confusão a posição dos professores (especialmente os de português) em relação a isto. Em português, quando se começar a avaliar nos testes como erro (disseram-me que seria em 2014), não prejudicarei a minha nota por não querer escrever assim, mas recuso-me a escrever nos meus cadernos e em tudo quanto seja MEU de uma maneira que eu considero ridícula! E a minha professora de português anda a “impingir-nos” de acordo ortográfico, e o manual este ano já está todo adaptado.. é horrível, frustrante, não consigo sair de uma aula de português sem me sentir frustrada e irritada. Anda a ser mesmo complicado. E hoje descobri que a gramática também mudou! Por isso, muitas das coisas que durante 10 anos de escolaridade andei a decorar e a considerar como correctas, agora do nada mudam! (Imaginem as pessoas que estão na faculdade, em cursos de Letras!) Eu não percebo como querem que nos adaptemos a isto, ainda por cima a gramática não é o forte de muitas pessoas na escola. Ainda se fosse acrescentar algumas coisas, se calhar até faziam isso de vez em quando e nem nos apercebíamos. . mas não, mudaram os nomes, acrescentaram coisas só para complicar, sem necessidade justificada! Os complementos circunstanciais agora são os modificadores e muito mais coisas mudaram e tornaram-se mais complexas, sem necessidade nenhuma, não percebo nada, nem eu nem ninguém, vai ser horrível ter que reaprender imensas coisas de gramática, completamente diferentes/modificadas, com as quais já não conseguimos criar associações porque não sabemos o que são. E a minha professora insiste que não é necessário termos uma aula para nos mostrar tudo o que foi modificado, o que era x passa a ser o quê, mas que tudo se vai mostrando “sem pressas, quando surgir”. Estou completamente à toa, e o mais chato é que eu não quero isto para mim, nem para a minha língua, mas tenho que me adaptar na escola! Todos os meus colegas se sentem revoltados, ainda que uns mais que outros, mas sei que muitos vão acabar por se conformar, mas eu sinto-me DESESPERADA para que isso não aconteça! Queria que tudo o que as pessoas acham viesse a público e mudassem isto! Que se fizessem ouvir! Meios de comunicação, manifestação, qualquer coisa! Só assim alguém nos ouve, infelizmente! (Visto que nem sequer nos requisitaram voto na matéria!) Não consigo conformar-me, não vou fazê-lo.. A nossa língua é linda, das nossas maiores heranças, dos nossos maiores potenciais. . Isto é um ATENTADO ao português! Eu queria muito assinar, mas não tenho mais de 18 anos por isso não tenho número de eleitor. . Não haverá outra maneira de eu poder assinar?

Maria
merry_a_22@hotmail.com

[Transcrição integral e ipsis verbis de comentário publicado neste site, ontem, dia 29 de Setembro, na página “Assinar a ILC“.]


Cara Maria,

Além da coragem e do desassombro que demonstra com esta sua extraordinária mensagem, deixou-nos um testemunho fidedigno daquilo que se está a passar nas salas de aula do nosso país: o esmagamento sistemático da consciência e, em última análise, da vontade inabalável dos estudantes portugueses. De facto, os alunos não foram consultados sobre o “acordo ortográfico” de 1990, exactamente da mesma forma que ninguém pediu uma opinião sobre o assunto aos professores, aos pais e encarregados de educação, aos editores e livreiros, aos escritores, jornalistas e outros profissionais da escrita, ou, de forma geral, ao povo português. E, ainda por cima, nos casos em que por excepção alguma entidade foi consultada, como todas emitiram pareceres negativos, então os paladinos do “acordo” fizeram tábua rasa do assunto, fingiram que não houve pareceres nenhuns e passaram adiante, atropelando todas as mais elementares regras democráticas.

O que significa, na prática, que ninguém perguntou nada a ninguém, como sabemos, e sucedeu simplesmente que 230 cidadãos decidiram impor aos restantes dez milhões de seus compatriotas uma coisa que ninguém pediu, que não serve para nada de útil, que não melhora coisa nenhuma nem resolve problema algum. Pelo contrário, como também sabemos, este malfadado “acordo ortográfico” apenas veio criar uma série de problemas onde eles antes não existiam.

É isto que a Maria representa, e muito certeiramente, quando diz que “todos os meus colegas se sentem revoltados, ainda que uns mais que outros”. Pois, é natural que exista esse sentimento generalizado de revolta, não apenas entre os estudantes e demais agentes envolvidos no processo educativo como também nos meios (profissionais ou não) que de alguma forma utilizam a Língua Portuguesa no seu dia-a-dia, tanto na escrita como, evidentemente, na leitura; ou seja, a revolta é geral, transversal a todos os portugueses, de todos os estratos sociais, de todas as idades e de quaisquer níveis de instrução. Isto afecta-nos a todos, por conseguinte, e há de facto que fazer alguma coisa para eliminar de vez o problema.

Precisamente, é para isso mesmo que serve a Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) pela revogação da entrada em vigor do AO90: caso seja aprovado no Parlamento o Projecto de Lei que a ILC promove, então pura e simplesmente o “acordo” deixa de estar em vigor; tão simples quanto isto, se bem que tenhamos de contar com o facto de serem necessárias 35 000 assinaturas em papel, primeiro, depois que uma Comissão parlamentar aprove a admissibilidade da iniciativa e que, por fim, os deputados votem favoravelmente a Lei que pretendemos e cujo Artigo 1º reza assim: «A entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 fica suspensa por prazo indeterminado».

No fundo, Maria, é apenas isto e só isto que todos nós pretendemos, não é?

Pois é, mas, respondendo à sua pergunta («Não haverá outra maneira de eu poder assinar?»), nos termos da lei que regula este tipo de iniciativas, apenas cidadãos eleitores podem assinar a ILC. O que significa que tanto no seu caso como no dos seus colegas menores de idade, infelizmente, não podem subscrever o documento. Mas podem, a Maria como os estudantes do país inteiro, todos podem recolher assinaturas!

Isso é um direito que vos assiste, até porque não é lá por ainda não ter 18 anos que um ser-humano pode ser impedido de pensar ou de ter a sua opinião sobre seja o que for!

Contamos consigo, Maria. Ou, melhor dizendo, esta iniciativa de cidadãos, que representa a Língua Portuguesa em todas as suas variantes e cambiantes, conta com aquilo que a Maria personifica: a coragem, o desembaraço, o denodo e o apego pela verdade; ou seja, numa palavra, a juventude. Abençoada juventude!

Bem haja, Maria.

Ao dispor.

João Pedro Graça
(1º subscritor da ILC)

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8 comentários

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    • Luis Afonso on 30 Setembro, 2011 at 17:01
    • Responder

    Uma das formas de a Maria e os seus colegas que se sentem descontentes com o AO terem «voto na matéria», ainda que indirectamente, seria — já que não podes eles subscrever a ILC por serem menores — pedirem aos pais e/ou encarregados de educação que o façam. Se, em média, por cada aluno descontente houver 2 pais/encarregados de educação que assinem a ILC, talvez se fique mais próximo de chegar às 35.000 assinaturas exigidas para suspender a aplicação do AO (e, se calhar, com jeitinho até conseguem que alguns professores, enquanto cidadãos, o façam também). Força Maria!

    • Manuela Carneiro on 30 Setembro, 2011 at 18:20
    • Responder

    Muito bom este comentário do JPGraça. Mobilização de todos.

    • Alberto on 30 Setembro, 2011 at 23:47
    • Responder

    Dia após dia, cada vez que leio algo que termina com o famigerado “Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.” fico com vómitos. Não há adjectivos que possam classificá-lo. Abominável, ridículo, estúpido, idiota, execrável. Simplesmente não chega. Ensine-se (perdoe-me) às criancinhas que ainda não sabem ler nem escrever e deixem os adultos escrever como sempre escreveram.

    • João Ricardo on 1 Outubro, 2011 at 15:24
    • Responder

    Infelizmente, apesar de ter confiança na ILC, cada vez fico mais convencido que não vai dar em nada. Não pelo número de assinaturas necessárias (porque mais tarde ou mais cedo chega-se lá), mas sim porque isto basicamente vai a votação no Parlamento… por aqueles que aprovaram isto desde o início!!

    1. Isso não sucederá caso os deputados tenham liberdade de voto. Pelo menos dois terços dos portugueses estão contra o AO90. Os deputados são portugueses. Logo…

  1. A queda da I.L.C. na assembleia estribará com legitimidade realmente democrática (sublinho democrática) o recuo que a récua que por lá pasta tanto arreceio tem de honestamente fazer. Se a não souberem aproveitar (até) para caçar votos então é porque nem mamíferos quadrúpedes são; não passam de amebas.
    Cumpts.

    • Miguel Rodrigues on 2 Outubro, 2011 at 1:26
    • Responder

    Maria,
    Antes de mais, parabéns e obrigado!
    Pela tua inteligência e enorme coragem.
    Sou professor e já percebi que este ano vou ter graves (talvez mesmo muito graves) problemas porque decidi ignorar esta palhaçada de desacordo, contrariando as ordens que temos. Já disse na minha escola que só escreverei em português, embora aceite que os meus alunos (5º e 6º de Ciências da Natureza) escrevam como quiserem.
    até acho que vou deixar de corrigir os erros ortográficos, uma vez que é o próprio estado que nos quer obrigar a, conscientemente, dar erros na aplicação nossa língua.
    Não desistas!
    São pessoas como tu que me dão coragem para continuar a remar contra a maré, contra o cancro do conformismo (carneirismo).
    Mais uma vez, obrigado!
    Miguel Rodrigues

    • Pedro Valle on 15 Outubro, 2011 at 1:56
    • Responder

    Então não foi o Pedro Álvares Cabral (navegador portugês) que descobriu o Brasil no ano de 1500, que lá deixou raízes portuguesas (colonos), que entre outras coisas
    foram espalhando a nossa língua ?
    E agora vamos escrever como os Brasileiros (que a adulteraram) ?
    Afinal quem é que descobriu quem ? Quem é que construiu os alicerces do Brasil?
    Mas afinal temos identidade própria ou estamos a ser subjugados ?
    Que raio de governantes são estes que se dão ao luxo de roubar a identidade nacional ?
    Será que estes senhores têm massa cinzenta no cérebro, ou será massa de vidraceiro?
    Mais ” MARIAS ” para Portugal !

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