«Um des-Acordo Ortográfico» [José Manuel de Sousa, “diárionline”, 27.04.15]

diarionline_logoAmiúde pela imprensa diária de todos os quadrantes lemos comentários de quem defendendo a unidade ortográfica da Língua portuguesa, se posiciona contra um sentimento nacional romântico, digno dos melhores compêndios de Garrett ou de Raúl Brandão, nossos inefáveis mestres, na arte de bem-escrever a nossa Língua, e através dela, a exultação dos índices de felicidade demonstrada.

Os mais trágicos defensores do Acordo Ortográfico de 1990, propugnam que, se nós portugueses não abraçarmos essa convergência, tornar-nos-emos num país com uma Língua divergente do Português do Brasil. Mas o paradoxo é que isso mesmo desde há muito está a acontecer, com a Língua a espelhar as suas próprias e idiossincráticas dinâmicas locais, regionais, e nacionais, de cada país de Língua Oficial Portuguesa a seguirem caminhos linguísticos separados.

Observemos determinados dados concretos acerca da realidade da nossa Língua:

Português de Portugal, somos 10 milhões de falantes; Português do Brasil, 200 milhões; Português ao redor do mundo, serão aproximadamente 40 milhões.

Amostragem comparativa aproximada de países conhecidos com elevados níveis de felicidade existencial, falando várias Línguas:

1.º Suíça, 8 milhões, 4 Línguas; 2.º Islândia, aproximadamente 900 mil; 3.º Dinamarca, 5 milhões; 4.º Noruega, 5 milhões, 3 Línguas (norueguês com 2 variantes); 5.º Finlândia, 5 milhões, 2 Línguas; 6.º Holanda, 17 milhões; 7.º Suécia, 9 milhões, 1 Língua e mais 6 minoritárias.

Agora fora da Europa comunitária: Canadá, 34 milhões, 2 Línguas; Nova Zelândia, 4 milhões, 2 Línguas; Austrália, 24 milhões, 2 Línguas.

Dados formais: a Islândia, a Dinamarca, a Noruega, e a Suécia já partilharam uma Língua comum: a Língua nórdica antiga. De hoje em dia, têm Línguas separadas. Destes países ora focados, com as populações a sentirem-se mais felizes, 3 deles têm como Língua principal o inglês (Canadá, Nova Zelândia, Austrália). À excepção do Canadá, Austrália, e da pequena Holanda, os restantes países possuem menos de 10 milhões de habitantes, portanto, com populações em número inferior à de Portugal.

Deste modo infere-se que a quantidade de falantes de uma Língua em nada distorce a qualidade dos índices de felicidade, e muito menos ainda, a qualidade de vida das suas populações.

Então, face a estas probabilidades da qualidade de vida e índices de felicidade demonstradas, levanta-se a propósito a pergunta, relativamente à hipotética importância unificadora da Língua Portuguesa, a concorrer, talvez para o bem-estar e evolução das nossas vidas:

Quais as vantagens acrescidas de se pretender estrafegar a ortografia portuguesa, utilizada por tanta gente que nem sequer conseguiu aprender as regras do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) em tão pouco tempo…?

Quais serão as vantagens depois da imposição obrigatória da unificação ortográfica, forçando as editoras a imprimirem, e a difundirem edições diferentes, tendo em conta o mercado de Língua Portuguesa a que essas edições se destinam…?

Algumas pessoas (muitas) consideram insultuoso este AO90, e requerem a inquirição de responsabilidades pelo abuso de boa-fé do público contra quem deu aso a tal arbitrariedade. Se a reprovação deste “desaAcordo Tortográfico” é uma consequência lógica, porém os danos morais e materiais resultantes da sua imposição ficam por ser apuradas responsabilidades do foro civil, já que não está tipificada como crime.

José Manuel de Sousa *
11:14 segunda-feira, 27 abril 2015

[Transcrição integral de artigo, da autoria de José Manuel de Sousa, publicado no “diárionline” (jornal “Região Sul”) em 27.04.15.]

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5 comentários

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  1. Aqui longe, na Dinamarca, proponho que se organize uma demonstração diante da Assembleia Nacional contra AO. Esta questão, polémica, merece toda a atenção e o comprometimento de todos os Portugueses, na defesa de um dos patrimónios, dos mais caros que possuímos – o nosso idioma.

    • Jorge Pacheco de Oliveira on 29 Abril, 2015 at 10:45
    • Responder

    Os que deram azo à arbitrariedade do AO são poucos e são conhecidos. Um deles é o Presidente da República cessante. Outro é o actual Provedor da Santa Casa, o qual, por ironia, quer ser o próximo Presidente da República. E outro ainda é o anterior Primeiro Ministro, que por sinal está em prisão preventiva.

    É claro que temos que incluir os deputados que não têm coragem para suspender a arbitrariedade do AO, mas têm-na para congeminar leis de limitação da liberdade de imprensa na cobertura da campanha eleitoral. Tudo gente com que os portugueses podem contar.

  2. Não podia estar mais de acordo com os comentários anteriores. Contudo, não podemos esquecer que, salvo honrosas excepções, o povo português é “manso” e pouco dado a “aventuras patrióticas altruístas”. Tudo aquilo que não tenha directamente a ver com “o prato”, “a cama” e “os coliseus” (entenda-se: estádios de futebol) pouco interesse desperta nas “grandes massas”. Além do mais, alguns “irmãos brasilêros” e os seus lacaios incondicionais, poderiam ficar aborrecidos…

  3. Eis um artigo interessante sobre Língua e felicidade existencial. Para os papalvos do AO90, a felicidade de alguém mede-se necessariamente pela quantidade de gente que, no mundo inteiro, fala o mesmo idioma. Por outras palavras, com 10 milhões de utilizadores o Português europeu é a principal causa de depressão, complexos de inferioridade e tendências suicidas/homicidas dos portugueses… Coitados dos alemães, dos italianos, dos checos, dos japoneses – sozinhos no mundo – sem cineastas, nem escritores nem poetas de vulto. Que sofrimento…

    Ainda bem que há pessoas como José Manuel de Sousa, que não se deixam impressionar com quantidades e tamanhos… Parabéns pelo artigo.

  4. Grato pela forma com expressou um sentimento patriótico.
    Eu recuso-me a usar o AO, mesmo em trabalhos académicos cujas escolas exigem-no.

    Saudações lusitanas.
    M

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