«Artigos e acordo ortográfico» [troca de correspondência]

lusojornal

From: Jorge Tavares da Silva
Sent: Wednesday, February 11, 2015 11:20 AM
To: Paulo Carvalho
Subject: Artigos e acordo ortográfico

Muito bom dia caro Paulo,

Queria agradecer pela publicação do meu texto no último número do “Luso”. Se estiver de acordo, mandar-lhe-ei, de quando em vez, outros textos nesta mesma área, que podem ser interessantes para os nossos compatriotas, que nem sempre conhecem os meandros da Cozinha portuguesa.

Todavia, e para mim é imperativo, os meus textos não devem ser adaptados ao Acordo ortográfico, como fizeram ao já publicado.

No que me toca, faço parte dos que atacam e não aceitam o famigerado AO90! Se a linha do jornal é diferente, bastaria preceder os meus textos da frase “O autor recusa o AO90 e defende o seu direito em o não aplicar aos seus textos”.

Ficar-lhe ia grato por uma resposta a esta proposta e, se nos acordarmos, logo lhe mando o artigo “O Cuscus em Portugal”.

Muito cordialmente,

Jorge Tavares da Silva


From: carlos.pereira@lusojornal.com
To: jts.lkb@**********.fr
CC: belgica@lusojornal.com
Subject: TR: Artigos e acordo ortográfico
Date: Thu, 12 Feb 2015 22:10:41 +0100

Caro Dr Jorge Tavares da Silva,

Respondo ao mail que enviou ao Paulo Carvalho.
Todos os textos publicados no LusoJornal são-no com o novo acordo ortográfico.
Compreende que não fomos nós que assinámos o novo Acordo Ortográfico.
O LusoJornal não toma posição, nem por, nem contra, o Acordo.
Não queremos ter opinião sobre o assunto.
Mas nós estamos num contexto particular.
Estamos num contexto em que o português nem sempre é a língua mais utilizada pelos leitores.
Por isso decidimos que o LusoJornal utilizaria apenas uma norma.
Imagine uma criança que aprende na escola a língua portuguesa segundo o novo Acordo Ortográfico e depois vai ler no LusoJornal um texto com a norma antiga. Não vai compreender nada.
Imagine o leitor que lê uns textos numa norma e outros textos noutra norma!
É por esta razão que todos os nossos textos são escritos na norma europeia (e não utilizamos nunca a norma brasileira), e segundo o novo Acordo Ortográfico.
Estou certo que compreenderá a nossa escolha.
Dito isto,
Devo dizer-lhe que os seus textos interessam-nos.
E estaremos disponíveis para os publicar.
Outra coisa,
Se notar bem, para este meu texto não necessitei, em nenhum momento, de utilizar o novo Acordo Ortográfico.

Com os melhores cumprimentos
Carlos Pereira

Directeur / Diretor
LusoJornal
7 avenue de la Porte de Vanves
75014 Paris
Tel : +33 608 21 92 42
www.lusojornal.com


De : Jorge Tavares da Silva
Envoyé : jeudi 12 février 2015 23:21
À : carlos.pereira@lusojornal.com
Objet : RE: TR: Artigos e acordo ortográfico

Caro Sr.

Agradeço a sua resposta mas lamento não me ser possível aceitar publicar textos meus passados pelo crivo do execrável AO90.

Claro que não foi o Luso a assiná-lo. A responsabilidade é, essencialmente, do fraco de espírito que mora no Palácio de Belém… A questão não é essa. Enquanto linguista, reconhecer uma abominação desse tipo está fora de questão.

Além disso, se os meus textos vos interessam, qual é a razão para recusar publicá-los com a declaração prévia que sugeri. Para mim é uma condição ‘sine qua non’. Claro que o seu jornal tem o direito e deve defender e aplicar o que corresponde às suas escolhas, mas parece-me ser uma pequenez mesquinha recusar a um autor, que sabe escrever, a liberdade de o fazer como bem entende. Noutras palavras, é abertamente uma forma de censura. Espero que não imagine identificar-se com o Charlie Hebdo.

Permita-me todavia lembrar que outros orgãos de comunicação social (o Público, por exemplo) recusam corajosamente aplicar o AO90, mas aceitam, por abertura de espírito, publicar textos de autores que defendem o direito de o fazer.

Jorge Tavares da Silva


From: carlos.pereira@lusojornal.com
To: jts.lkb@**********.fr
Subject: RE: TR: Artigos e acordo ortográfico
Date: Thu, 12 Feb 2015 23:28:12 +0100

Boa noite,

Conheço a posição do Público.
Também conheço a posição de outros órgãos de comunicação social.
Pode considerar que a nossa decisão é “pequenez mesquinha”.
É a nossa.
Queria apenas dizer que detesto censuras.
Sobretudo por saber que houve pessoas que deram a vida para se opor a elas.
Não considero que o LusoJornal faça censura.
Respeito a sua posição.
Apenas lhe expliquei a nossa.

Cumprimentos
Carlos Pereira

Directeur / Diretor
LusoJornal
7 avenue de la Porte de Vanves
75014 Paris
Tel : +33 608 21 92 42
www.lusojornal.com


From: jts.lkb@*********.fr
To: carlos.pereira@lusojornal.com
Subject: RE: TR: Artigos e acordo ortográfico
Date: Fri, 13 Feb 2015 08:32:39 +0100

Caro Senhor,

Muito obrigado pela sua resposta. É evidente que está no seu direito de aplicar a linha editorial e o livro de estilo que deseja.

No entanto, e para mim fecha-se aqui a conversa, queria levantar só 3 pontos:

1. O Luso decidiu passar o meu texto ao crivo do AO90 sem me avisar previamente.
2. Para o seu argumento “norma europeia”, aconselho-o a ler (de resto é notícia que deviam publicar) a posição do PE a respeito do AO90. Aqui fica :https://ilcao.com/?p=16728#comments
3. Pessoalmente, não só estive preso 18 meses em 1965/1966, como era dono e sócio gerente da única Editora (A Minotauro) que a PIDE fechou definitivamente em toda a triste história do fascismo, também em 1966. Tínhamos acabado de publicar um livro do Sttau Monteiro, duas peças em um acto, ‘As Estátuas e Os Generais’. Sou um dos que referiam terem lutado e sofrido da Censura, o que me dá o direito de qualificar de acto de censura a atitude do Luso.

Jorge Tavares da Silva

[A publicação desta troca de mensagens foi autorizada por Jorge Tavares da Silva. “Links” e destaques nossos.]

 

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6 comentários

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    • Jorge Teixeira on 18 Fevereiro, 2015 at 16:16
    • Responder

    A inteligência do Sr. Pereira é assaz privilegiada.

    • Ramiro Amendoeira on 18 Fevereiro, 2015 at 17:36
    • Responder

    Quero aplaudir, apesar de não o conhecer, nem qualquer escrita sua, a coragem e a verticalidade evidenciada nesta correspondência com o LusoJornal. Os argumentos apresentados pelo referido Jornal são ocos, infundamentados. Devia respeitar a Língua Portuguesa, e como tal defender, junto da comunidade na diáspora, o que a generalidade dos portugueses tem demonstrado. Porquê juntar-se, e veicular, um ultraje à Nação? Pelo menos – não sei se o fez, mas devia fazer – esse Jornal devia publicar essa correspondência, e então decerto veria respostas de portugueses a reivindicar a grafia em bom português, num Jornal que lhes deve trazer as recordações e a ligação à sua Pátria. Reitero os meus parabéns.

    • Luís Ferreira on 18 Fevereiro, 2015 at 20:03
    • Responder

    Aqui está um homem ao qual não falta nada! Um nome a lembrar.
    Mostrou mais verticalidade que os habitantes de Belém e de São Bento.
    Tomara esses!!!

    • José on 18 Fevereiro, 2015 at 20:03
    • Responder

    Também eu aplaudo o gesto corajoso de Jorge Tavares da Silva. Ao contrário de muitos iluminados que escrevem em jornais nacionais, e de alguns escritores, este cidadão recusa-se – de forma lúcida e vertical – a aplicar o acordo que está a matar a Língua Portuguesa. Matança feita com a conivência e a (ir)responsabilidade “do fraco de espírito que mora no Palácio de Belém…”

    • Fernando on 18 Fevereiro, 2015 at 20:12
    • Responder

    A resolução final desta situação só depende dos portugueses: é tempo de redefinir valores e entregar as rédeas do poder a quem de facto queira servir…

  1. Muita coisa se poderia dizer sobre isto. Um dos pontos de partida: http://ilcao.com/?p=4175

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