Artigo no Jornal da FENPROF de Janeiro 2015 [por Rui Valente]

JF Jan2015Em 2014 o Acordo Ortográfico continuou a ser imposto à força pelo Governo. Chegámos, assim, a novos patamares na iliteracia a que o país parece votado.

A recente série de artigos no “site” da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico não deixa margem para dúvidas: ficional, contatar, elítico, autótone, convição, impatante, sujacente, critografia, interrutor, Netuno, otometria, gravidez etópica, artefato, otogenário, fricionar, abrutamente, proveta idade, ácido lático, encritação, espetável, números fratais, ténica, plânton, conetar, trítico, inteletual, conveção, batericida, egício, etc, etc.

Esta torrente, que continua, desmonta as desculpas habituais: “foi uma gralha, é um caso pontual, não há constrangimentos, está tudo bem”. São milhares de erros que não existiam antes do AO, provenientes de fontes tão insuspeitas como o Diário da República, teses de doutoramento, bulas medicinais e rodapés de programas de televisão.

Primeiro veio a TLEBS, fazendo tábua rasa de conceitos e de uma nomenclatura centenária, comum a dezenas de Línguas e inviabilizando a troca de conhecimentos entre pais e filhos. Com o AO, chegámos ao reino das facultatividades e do “escreve-se como se diz”.

Bem podemos (fingir) decidir “nunca” utilizar o AO. Mas temos mesmo de o utilizar, quando lemos. O AO entra-nos pelos olhos dentro. E faz doer a vista. Em poucos anos, o AO conseguiu a proeza de instituir o folclore das ementas de restaurante.

Já se sabia que o AO não traduz uma evolução da Língua. A Língua evolui e sempre evoluirá, mas essa evolução reflecte-se no vocabulário. Pouco ou nada tem que ver com ortografia (pelo contrário, uma mudança artificial na ortografia, como é o caso, afecta claramente a pronúncia). Agora sabemos também que a suposta “simplificação” não existe; ao invés, cria um verdadeiro caos ortográfico.

De resto, o AO sempre foi uma miragem — não é possível unificar regras ortográficas quando pt-PT e pt-BR já levam mais de cem anos de divergência. Mas Cavaco Silva ia ao Brasil em visita oficial, era preciso dar algum colorido à agenda mediática da viagem. E assim se imolou uma norma elegante, coerente e, principalmente, estável como é a de 45, substituindo-a por um conjunto de arbitrariedades. Alguém acha que a Língua Portuguesa ficou melhor, enquanto instrumento de comunicação e de raciocínio?

Em 2015 entrámos no último ano do período de transição. Será necessário prolongar ainda mais esta amarga experiência? Não me parece. Até porque, reconheça-se, no AO nada funcionou. Se, a nível interno é o caos, no plano internacional as coisas não estão melhor: Angola e Moçambique continuam sem ratificar o Acordo e Angola poderá mesmo criar a sua própria norma, como já se escreveu no Jornal de Angola. O Brasil, por seu turno, pondera abandonar o Acordo em favor de alterações ainda mais radicais.

Perante este cenário alucinante, ocorre perguntar: para que serve o Acordo?

É certo que estamos em plena crise. O Acordo Ortográfico parece um mal menor no meio das dificuldades que atravessamos. No entanto, se há um caso emblemático, em que é imperioso dizer “basta!”, é este. A crise leva-nos à ruína, mas o AO distorce a nossa identidade, alienando um património histórico e cultural precioso.

Não posso, portanto, deixar de felicitar o Jornal da FENPROF pela sua decisão de não deixar cair o assunto. Foi também em 2014 que a Associação Portuguesa de Tradutores recuou na decisão de adoptar o AO. No ano anterior tinha sido a Sociedade Portuguesa de Autores. Não admira: autores e tradutores são das classes mais afectadas pelo AO.

Os professores são, também eles, uma classe altamente prejudicada pelo AO. Não só porque “ensiná-lo” é um atentado à nossa cultura, mas também porque muitos professores se sentem perseguidos e intimidados por continuarem a utilizar a grafia de 45 — um direito que lhes assiste, mesmo à luz do próprio AO.

Esperemos que em 2015 seja a vez da própria FENPROF dizer: já chega! O desafio aqui fica.

Rui Valente

Artigo publicado nas páginas 26/27 do Jornal da FENPROF, edição de Janeiro de 2015. “Links” adicionados “a posteriori”.

Print Friendly, PDF & Email
Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2015/02/05/artigo-no-jornal-da-fenprof-janeiro-2015/

3 comentários

  1. Aplaudo (de pé!) este artigo de Rui Valente publicado no jornal da FENPROF. A ver se é desta que o erro colossal do A0 deixa, finalmente, de ser praticado pela classe docente.
    Escreve RV que “Com o AO, chegámos ao reino das facultatividades e do “escreve-se como se diz”. Tem inteira razão, mas o cenário é pior do que parece, pois o que se passa cada vez mais é… ‘escrever como não se fala’. Como aqui referi, será que neste país alguém diz “anistia”, ou “núcias”, ou “onívoro”, ou “réteis”? Há, por acaso, algum electricista que diga “interrutor”? Alguém se refere ao planeta Neptuno como sendo “Netuno”? Nem na pior ficção científica… E a palavra “oção” é o quê?
    Não conheço uma só pessoa que fale assim, mas conheço muitas que começaram a escrever assim. Porquê não sei. Sim, “são milhares de erros que não existiam antes do AO” e que ameaçam seriamente a língua escrita e falada. Como isto “afecta claramente a pronúncia”, que pronúncia será a nossa daqui a duas décadas?
    “Perante este cenário alucinante, ocorre perguntar: para que serve o Acordo?”. O acordo, como aberração que é, verga-nos a interesses alheios e, por isso, distorce indubitavelmente a nossa identidade e a nossa honra. BASTA!

    • Isabel Coutinho Monteir on 5 Fevereiro, 2015 at 18:43
    • Responder

    Tem toda a razão, Rui Valente. A exposição da Língua Portuguesa a este enxovalho é vergonhosa para qualquer português que se orgulhe de o ser.

    • Luís Raimundo on 6 Fevereiro, 2015 at 10:39
    • Responder

    Excelente artigo.
    Efectivamente o “escreve-se como se diz” é uma das máximas no reino acordista.
    Não convém é ler o que se escreveu, porque já não vai ser bem aquilo que se disse.
    (Ex.: redacção vs redação)
    Parvoíces como esta acabarão realmente por afectar a pronúncia.
    E o que dizer do corrector e do corretor, que os iluminados acordistas transformaram no corretor e no corretor. Confuso, não é? Imagino que para os acordistas seja claríssimo!

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.