“Só” dez por cento?!?

PACCEm face da enorme quantidade de “erros ortográficos” que surgiram nas PACC (Provas de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades dos Professores), o IAVE (Instituto de Avaliação Educativa) começou por dizer que não estava em condições de determinar quantos desses “erros” se deveram à não aplicação das regras do Acordo Ortográfico.

Mas no dia seguinte, afinal, já podia quantificar “com rigor” esse valor: dez por cento. Dir-se-ia um número caído do céu, redondinho, sem sequer uma única casa decimal a adorná-lo.

Como se chega a esta percentagem? Quem pode dizer que “o uso incorrecto da acentuação, troca de vogais e de consoantes” — “erros” que foram contabilizados nos restantes 90% — não se devem, também eles, no todo ou em parte, ao Acordo Ortográfico?

Diz o IAVE a propósito desse número: “o valor obtido representa uma percentagem residual e sem expressividade na totalidade das ocorrências de erros ortográficos registados“.

Se realmente estes 10% foram inventados para aligeirar o peso do Acordo Ortográfico na avaliação dos professores, quem inventou teve pouca mestria.

É que 10% não é pouco. Mesmo admitindo que esta percentagem esteja correcta, 10% é, ainda assim, uma percentagem enorme. E o que é mais surpreendente é que ninguém parece questionar a leitura que o IAVE faz dos seus próprios números.

Vejamos: em caso algum 10% pode ser considerada uma percentagem “residual”. Se a semântica não é uma batata, “residual” é um termo mais consentâneo com valores na ordem dos zero vírgula qualquer coisa. Dez por cento significa que largas dezenas de professores ilustraram, de forma exemplar, a falácia de um “acordo ortográfico” simples, cujas regras se aprendem “em meia hora“. Se o “acordo” é tão simples, se o “acordo” só “afeta”, 1,4% do nosso vocabulário, como é possível que dê origem a tamanha quantidade de “erros”?

O IAVE poderá argumentar que muitos professores usaram deliberadamente o AO45 como forma de protesto contra a PACC ou contra o próprio AO90. Claro que, a ser assim, estes dez por cento teriam um significado ainda maior — e mais comprometedor para os mentores do “acordo”. Não parece haver dúvidas de que a maioria dos docentes teria preferido escrever em português correcto, se essa essa possibilidade tivesse existido — mas não é crível que, estando em jogo a sua carreira, tenha havido muitos professores a optar por esta forma de luta.

Em todo o caso, a verdade é esta: estes resultados podem ter várias leituras. Mas dificilmente terão a leitura que o IAVE gostaria que tivessem.

[imagem: captura de écran da reportagem TVI sobre a PACC]
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1 comentário

    • Jorge Teixeira on 11 Agosto, 2014 at 10:30
    • Responder

    É curioso o longe que se chega na mistificação para “provar” que o AO90 é muito bom e os professores gostam todos muito dele. E mesmo assim ficam “rabos” de fora, como a afirmação de que os resultados são para uma “amostra”. Ou seja, tão peremptórios e redondos números e nem sequer correspondem ao universo das provas — apenas a uma “amostra”.

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