«Não haverá… ‘mutambi’!» [semanário “Angolense” (Angola)]

Seria rica essa convergência em Angola de um tal caudal linguístico. Para os linguistas, dicionaristas, seminaristas e académicos, importa a norma, a morfossintaxe, semântica, numa ordem ortodoxa. O vocabulário corrente entre estratos sociais de Angola, como o exemplo mostra, sobretudo nas camadas jovens urbanas, nasce de uma necessidade de sobrevivência diante da falta de escolas, em quantidade e qualidade, e pior, da falta de possibilidades de as frequentar, por carências económicas e financeiras. Nada tem a ver com o Acordo Ortográfico: um gigante de pés de barro.

Flag_of_Angola.svgNão se pode festejar o surgimento de uma nova língua em Angola. A língua portuguesa, de origem românica, é intrincada, ambígua, faustosa. Não se pode festejar a morte da língua portuguesa em Angola, uma vez que seria festejar a morte dos seus falantes: umbundus, bakongos, kimbundus, tchokwes, nganguelas e imbindas. Os que festejariam a morte da língua portuguesa em Angola nada teriam para nos oferecer, diante do seu mutambi.

Eu sou, na minha idade, um meio ancião. Nasci falante de uma língua bantu, numa comunidade bantu. Nasci num universo linguístico em que a língua portuguesa não aquecia nem arrefecia o ambiente social e económico. Muito menos o político.

Portanto, na minha idade, e isso independe da minha condição de escritor, carrego nos ombros uma vivência, com ciclos de vida que se foram fechando ao longo da caminhada. Outros se abriram. Da pequenina aldeia, à beira do Kuanza, à aldeia maior, Luanda, passei a figurar nas estatísticas globais. A juntar-se à língua materna, veio a língua portuguesa (portanto, não festejemos o seu mutambi). Na minha memoria, o meu universo é o mesmo, e não há nada em mim que estrebuche, por desejar pertencer à lusofonia, só porque sou falante da língua portuguesa. A língua portuguesa é mais uma entre as muitas que falamos em Angola. Com a particularidade de ter sido investida de personalidade unificadora da nação. Às línguas bantu, a Constituição atribui o estatuto de parceiros da língua portuguesa. É uma paridade fingida.

Sobretudo porque persiste entre nós um ambiente inibidor para circulação das línguas nacionais. Nos hospitais, nos tribunais, nas instituições governativas. Mas esta é a questão: se atribuímos uma paridade inquinada na pureza das intenções do legislador às línguas nacionais em relação a portuguesa, significa imediatamente uma coisa ou duas, no mínimo, uma ambiguidade. Mesmo nós, angolanos, já temos uma maneira, dolente, de falar português. Nessa maneira de falar, incorporamos no português elementos do nosso universo angolano. E há ruídos do português nas línguas nacionais.

A maneira de escrever é que obedece à norma: falar, não. Nesse ponto, a maka está aberta. Uns dizem que o Brasil vai nos atropelar com o seu português cantado. São na maioria os «mestiços culturais» que pensam assim, e até têm um certo interesse que assim aconteça. Seja como for, a língua portuguesa deve permanecer entre nós «ad eternum», pela cultura que expressamos, falando «a» e escrevendo «a». E não sabemos se mais tarde o lingala não venha a ser mais uma língua falada abundantemente em Angola. Tomara que fosse como os rios: sabemos a nascente e, a partir dela, podemos seguir o seu percurso até se nos revelar o seu fim. Desde os descendentes de Abraão, David e Jafe, do sânscrito ao latim rudimentar, realmente não sabemos onde e quando desaguam e se extinguem as línguas, a menos que uma extinção maciça, por uma qualquer hecatombe nuclear, varresse do planeta os falantes do Swaihli. Ainda assim, a tecnologia moderna dos nossos tempos nos ajudaria a recuperá- la.

Seria rica essa convergência em Angola de um tal caudal linguístico. Para os linguistas, dicionaristas, seminaristas e académicos, importa a norma, a morfossintaxe, semântica, numa ordem ortodoxa. O vocabulário corrente entre estratos sociais de Angola, como o exemplo mostra, sobretudo nas camadas jovens urbanas, nasce de uma necessidade de sobrevivência diante da falta de escolas, em quantidade e qualidade, e pior, da falta de possibilidades de as frequentar, por carências económicas e financeiras. Nada tem a ver com o Acordo Ortográfico: um gigante de pés de barro. Tendo representado a Comunicação Social, enquanto funcionário do terceiro escalão da Administração Central, fico na condição de não poder usar, tao pouco divulgar, os conteúdos das reflexões feitas no contexto do mecanismo angolano encarregue de avaliar a oportunidade da ratificação do AOLP. Nomeadamente sobre a crucial, para nós africanos, questão da fonética. Outra coisa, antropológica, é este dilema metafísico que está instalado entre nós, se prosseguimos na grafia conforme a identidade bantu das palavras, ou voltar a aportuguesar os nomes das localidades, lugares e lugarejos de Angola. Todos, enquanto escreventes da língua portuguesa, temos que mostrar respeito pela norma e convenções dessa língua. E esta é a norma básica. Nada de entusiasmos: não vem aí a caminho uma nova língua, o ngolês, o angolensis, o mwangolé. O que é facto é que já existe uma maneira de se falar o português com um vocabulário misto, entre o vulgar e o normativo. Com o qual as pessoas marginalizadas se comunicam, não temendo mesmo usá- lo em conversas informais com os doutores, o que é bom, e nas universidades, o que é mau. Fernando Pessoa superou Hegel ao inventar a rima nasal: o que a língua portuguesa não tem que não seja língua mãe? A norma gravita essencialmente nos meios educacionais: neles, a norma gramatical deve ser eterna. Outra coisa é na literatura. Porque a literatura é feita de personagens, maruvo, mbuijis, grilos, tambis e sunguinos, desvarios e acertos, que é a vida real e dura. Tá bala: depois de acabar de escrever este texto chato, vou chupar mazé umas canecas de katrungungu na banda da Ngaxi. Depois, se não ficar maláique, volto no cubico de kupapata. O mambo vai ser destrinçar a droga do portão do cubico. Num maia, wi, digesta só.

Escritor e membro da UEA. Texto originalmente publicado no jornal Semanário Angolense (Angola) a 28 de Junho de 2014

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Kajim Ban Gala, publicado no semanário “Angolense” (Angola) em 28.06.14. Reproduzido pelo jornal “Público” em 27.07.14, no âmbito da iniciativa «24 jornais escrevem sobre futuro do português» (ver “compilação” AQUI). Imagem (bandeira de Angola) de Wikipedia.]

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