«A lei da subserviência e da permissividade» [editorial do “Público” de 06.07.14]

publicoDIRECÇÃO EDITORIAL 06/07/2014 – 00:59

A admissão da Guiné Equatorial na CPLP tem muito a ver com o mísero conceito de diplomacia que temos.

Há dias, com palavras entusiásticas e pretextos nobres, festejaram-se por aí os 800 anos da Língua Portuguesa (um número simbólico e não exacto, já foi dito e redito). Agora, a pretexto dessa mesma língua, vamos assistir a um dos mais vergonhosos actos de submissão que a nossa história já registou: a admissão oficial da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, vulgo CPLP. Os que se lhe opuseram, fizeram-no brandamente. Era óbvio, pelo correr dos meses e pela insinuação dos interesses, que tal aconteceria, mais tarde ou mais cedo. Brasil e Angola estavam de acordo. E Portugal, conformado à sua inamovível pequenez (honra seja feita aos que, no Governo ou em Belém, tentaram resistir), lá segue atrás, dobrando a espinha a tamanha desfaçatez.

Porque não é possível levantar alto a bandeira da Língua e, de seguida, rojá-la na lama de interesses que lhe são de todo alheios. Esta atitude dúplice tem a ver com o mísero conceito de diplomacia que temos, que é por um lado a diplomacia da concórdia e do apaziguamento e por outro a da subserviência e da permissividade. Que ninguém tenha sido capaz, a plenos pulmões, de dizer “basta” a esta farsa que tem por único objectivo dar um rosto “humano” e “internacionalizável” a uma ditadura que só deveria merecer condenação e desprezo, é deveras sintomático do estado a que chegámos. E que mostra que a partir daqui tudo será válido e que há-de ser possível descer ainda mais baixo.

É fácil antever o cenário. Teodoro Obiang precisa de credibilidade. Arranjou-a como sabe, através de amigos. Estes procuraram outros amigos. O cerco foi montado desde 2002, já lá vai uma boa dúzia de anos, sem que o seu regime tenha dado provas (para lá de pouco consistentes promessas) de reais mudanças. Para os que já estavam dispostos a recebê-lo, tanto fazia. Uns apadrinharam-no logo, outros vieram em sua defesa. Como diz hoje ao PÚBLICO, desassombradamente, Murade Murargy, secretário executivo da CPLP, “ninguém tem a folha limpa, ao fim e ao cabo”. Este argumento vem inquinado pela ideia de uma irresponsável diluição de princípios. Mas também essa tem resposta. Recordemos as declarações do antigo responsável pelas Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, quando Lula apoiou a candidatura de Obiang: “Negócios são negócios”.

Certamente que negócios são negócios, e que a CPLP caminhará (as palavras são ainda de Murargy) no sentido de se tornar uma organização de “conteúdo económico”. Mas isso justifica o branqueamento de actos contra os seus próprios princípios? Há-de haver quem pense que sim, embora o cale. Obiang tem um historial de violação dos direitos humanos? Teodorin, o seu filho, tem um mandado de captura da Interpol sob a acusação de práticas criminosas? E isso que importa?

No meio disto, Portugal move-se a medo. Como se o velho colonizador tivesse, para expiar antigos pecados, de comportar-se como colonizado. Um preço alto, que não nos livra do peso da vergonha. Mudem, ao menos, a sigla para CPNP: Comunidade dos Países dos Negócios Permanentes. Assim ninguém se espantará e podemos, enfim, deixar a Língua Portuguesa em paz.

[Transcrição integral do Editorial do jornal “Público” de 06.07.14. “Links” adicionados por nós.]

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2 comentários

    • Luís Ferreira on 7 Julho, 2014 at 16:23
    • Responder

    Isto liga-se com outra notícia que li hoje no Rerum Natura
    http://dererummundi.blogspot.pt/2014/07/avaliador-faz-acusacoes-politico-morais.html

    1. Caro @Luís Ferreira,

      Muito obrigado pelo “apontador”, que é de facto importante. Aliás, com a recomendação de que se leia todo o “post” referido, fica já aqui a transcrição da citação nele incluída.

      “The most problematic group in this regard, and the one about which I am more than a little concerned is the African Studies Group. In the proposal as submitted, the language used seems, at times, colonially charged, viewing Portugal as “an intermediate agent” fulfilling “its historic role as gateway territory,” which both essentializes Portugal and implies some mediating destiny vis-à-vis other nations whose official language is Portuguese, a political assumption academics should challenge not reify. There is rather patronizing talk of “offering a basis for dialogue and developing cultures in need of affirmation (e.g. Africans)” that does not present “Africans” as intellectual partners but rather as a group in need of the Centre’s assistance in affirming their “developing cultures.” The fact that such terminology is in the proposal leads me to question the leadership structure of the Centre. Internationalization and multidisciplinarity should not be an excuse for the perpetuation of lusotropical colonial myths of Portuguese benevolence towards their former colonies.”

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