Mais um projecto de RAR sobre o AO90 [anotado por JPG]

tshirt1Já aqui se falou por diversas vezes na hipótese de “revisão” do “acordo ortográfico”. Agora surge mais um projecto de RAR (Resolução da Assembleia da República), e já é o terceiro (depois dos de CDS/PSD e do PCP), mas este outro com a “novidade” acessória de se referir exclusivamente a isso mesmo, ou seja, propondo apenas e só a “revisão” do aleijão ortográfico (AO).

O que se segue, por conseguinte, é a transcrição do projecto de RAR apresentado pelo BE, mas desta vez com uma pequena variante: anotei no próprio texto (a azul) o que se me oferece dizer a respeito de tão peregrina ideia.

JPG


PROJECTO [uma palavra bem escrita!] DE RESOLUÇÃO N.º 966/XII/3.ª
RECOMENDA A REVISÃO DO ACORDO ORTOGRÁFICO  [revisão do absurdo, portanto]

O Acordo Ortográfico (AO) de 90 tem sido alvo de uma querela permanente [ora ainda bem] e de dificuldades várias na sua aplicação [pois, já cá se sabia, é porque não tem ponta por onde se lhe pegue]. Contudo, a querela não se tem fundado numa perspetiva [sic] de melhoria na grafia comum do português mas, de um lado, na oposição completa a qualquer tipo de acordo ortográfico [coisa que não ocorreu a países tão “atrasados” como a Inglaterra, a França, os Estados Unidos, o Canadá, a Espanha, etc.] e, do outro lado, a uma defesa entrincheirada do AO [“entrincheirada”? Em que “trincheiras”? Onde?].

A oposição a qualquer tipo de acordo tem a respeitável razão [agradecimentos] de querer preservar, não obstante a constante mutação [“mutação” é coisa diferente de estropiação], a identidade gráfica de cada variante do português [“de cada variante”; exacto!]. A defesa do acordo ortográfico radica na igualmente respeitável tese [ah, afinal é só uma “tese”? Nada de comprovado, portanto;  boa!] de que as mutações podem ser aproximativas [perdão?] na esfera global [na blogosfera?], facilitando o acesso do idioma a terceiros [abatem-se umas quantas consoantes “mudas” e pronto, fica muito mais fácil, é isso? Ena. “Genial”!]. Intervêm também neste contexto invocações emotivas [sim, isso é mau; mas compreensível, visto que se trata “só” da nossa Língua] e leituras historicistas [sim, claro, a Língua é indissociável da História] que são completamente espúrias [isto é uma tautologiazinha em forma de palpite] para a definição de uma decisão política [bom, afinal em que ficamos? É ortografia ou é política?].

O teste da viabilidade do Acordo estará na sua plena aplicação pelo Brasil [ou seja, Portugal, uma nação soberana, fica à espera de que um país estrangeiro resolva os assuntos internos de Portugal], e sobre isso apenas o tempo pode esclarecer, e esse tempo é breve. Necessariamente, se não houver uma aplicação plena da parte brasileira [“se”? Ah, pronto, então a “ideia” é mesmo Portugal ficar à espera do que o Brasil decidir], Portugal não pode ficar preso a uma grafia singular e individual [portanto, se o Brasil não quiser o AO90, Portugal também não o “adotará”, mas se o Brasil assim entender então Portugal fará o que o Brasil… entender! Mas que linda imagem de “independência nacional”, sim senhor!]. Neste contexto, Portugal ficaria desligado quer do Brasil, quer de Angola e de Moçambique que não estão a aplicar o AO [pois é, isso seria uma bronca de todo o tamanho mas, assim com’assim, é o que se já vai passando…]. Devemos, nessa medida, ter a prudência e a diligência de reagir em reciprocidade aos atos [sic] da República Federativa do Brasil [cá está de novo, “reagir em reciprocidade”, esplêndido conceito de “independência nacional”]. As autoridades brasileiras reafirmaram muito recentemente o seu empenho neste processo, e no âmbito de uma convenção internacional considerada regular [Como? O que é isto?].



A aproximação gráfica, e meramente gráfica, não intervindo sobre o léxico nem sobre qualquer formação sintática [sic], é reconhecida como positiva no mundo global [existe um mundo que não seja global? E esse outro mundo reconhece como “positiva” o quê, quando e onde?]. Mas, como se compreende, um Acordo precisa de acordantes [exacto; é uma maçada…] e isso só tem significado se abranger uma maioria muito expressiva dos falantes do idioma, como acontece agora [não, não acontece nada disso, é rigorosamente ao contrário] e precisa de confirmação definitiva [de arquivamento definitivo, isso sim].

A previsão de instrumentos indispensáveis na aplicação do AO, que há muito deveriam ter sido concluídos, em especial do Vocabulário Ortográfico Comum (VOC) [não é nada um “instrumento indispensável”, isso é simples opinião de meia dúzia de pessoas], não é um problema menor nesta transição gráfica [nem menor é, é totalmente irrelevante, porque inútil, além de inexequível]. A incúria de Portugal neste domínio deve ser severamente criticada [não é “incúria”, é impossibilidade técnica]. O Vocabulário Ortográfico Comum pode ser um veículo e meio privilegiado para dirimir pontos de discordância da fixação gráfica do português no respeito pela sua diversidade nacional e geográfica [não, não pode coisíssima nenhuma, repita-se, porque é impraticável e inútil].

Também não parece aceitável que, face a expressões aplicadas que manifestamente são erros grosseiros [o AO90 não contém “erros grosseiros” porque todo ele é, de fio a pavio, um erro grosseiro], não tenha havido a capacidade política para antecipar a necessidade de assumir politicamente uma revisão técnica do AO [outra vez? Mas qual “revisão”?!].

Seguramente, a abertura desse processo, facilitado pela célere publicação do VOC, ajudaria na aquisição das competências para o aprendizado [“o aprendizado”? Este documento “adotou” a terminologia tipicamente brasileira em detrimento da portuguesa? “A aprendizagem” daria comichões ao escriba?] da escrita. Incluir o AO na categoria de um tabu intelectual e de um dogma inalterável não defende sequer os proclamados objetivos [sic] da sua adoção [sic]. Neste sentido, insta-se o Governo da República Portuguesa, por intermédio do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a iniciar os contactos com as partes contratantes para definir o modelo institucional desse processo de revisão técnica, claramente conduzido por especialistas reconhecidos [pois, mas nada feito: todos os especialistas na matéria, à excepção dos autores do AO90, são manifestamente contra o AO90]. A identificação de situações anómalas [tarefa ciclópica], a explicitação dos critérios aplicáveis [impossibilidade técnica], a exposição dos conteúdos de referência [isso quer dizer o quê, ao certo?] e as propostas objetivas [sic] devem poder ser estudadas, debatidas e trabalhadas criticamente de forma ampla nos meios académicos e científicos dos respetivos [sic] países [vinte e quatro anos de contestação depois?].

Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo:

1. Reafirmar a responsabilidade do Governo no acompanhamento da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 e no pleno cumprimento dos compromissos assumidos pelo Estado Português; [uma Resolução parlamentar para “reafirmar” a irresponsabilidade do Governo nesta matéria?]

2. Abrir por canais diplomáticos e políticos a iniciativa de revisão técnica do Acordo Ortográfico, envolvendo as comunidades académicas e científicas ligadas à língua portuguesa dos respetivos [sic] Estados signatários. [rever o quê, se tudo aquilo é um absurdo?]

Assembleia da República, 21 de fevereiro [sic] de 2014. As Deputadas e os Deputados do Bloco de Esquerda


Nota: estas anotações são pessoais, reflectindo uma simples opinião de uma simples pessoa, e daí o tom “ligeiro” das ditas anotações; um tal projecto de “resolução” não merece mais do que isso mesmo, devolver à procedência um texto que nada propõe e menos ainda resolve, com tantas ligeireza e superficialidade quanto aquelas que nele usou o redactor do original.

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2 comentários

    • Maria José Abranches on 26 Fevereiro, 2014 at 18:44
    • Responder

    Mas estes indivíduos não têm mesmo vergonha nenhuma?! Ainda não tiveram tempo para ESTUDAR aquilo de que andam a falar com tanta ligeireza, tanta ignorância e tanta irresponsabilidade?! “Porque não se calam, ao menos?” Porque insistem em exibir-se?! Então estes senhores entendem que este AO90 vergonhoso, feito para “agradar” ao Brasil, nos amarrou definitivamente ao mesmo Brasil, de quem temos de esperar – para as acatar – toda e qualquer decisão?! Mas Portugal perdeu de vez a independência? E como é que esta gente pretende representar-nos na União Europeia? Isto brada aos céus! Errar uma vez é infelizmente humano, mas persistir no erro é uma indignidade e uma estupidez!

    Obrigada pelos comentários, sempre nos aliviam um bocadinho…

    • Elmiro Ferreira on 26 Fevereiro, 2014 at 20:03
    • Responder

    O ‘like’ lá em cima é para os comentários de JPG, pois o projecto do BE é tão miserável que apenas me ocorre lamentar o tempo perdido com a sua leitura. Mas não posso deixar de tirar uma conclusão, singela: embora Portugal já tenha descoberto o Brasil há 500 anos, o BE parece tê-lo feito agora, via “AO90”. Faça-lhe bom proveito!

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