«País sem rosto» [por Maria José Abranches]

faceless_kelly-alexandreQue país sem rosto é este? Que destino colectivo estamos a fabricar? TUDO é vendável, transaccionável, privatizável, manipulável?!

Que povo somos nós, se o destino do Português – a língua que a nossa História forjou, que nos identifica, define e estrutura – nos é indiferente?!

E que povo somos nós, se assistimos sem revolta à invasão do nosso país pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), aceitando passivamente que ele avance, soberbo, como inimigo em território conquistado?!

E, perante esta situação, vamos, mais uma vez, participar em eleições em que os políticos ostensivamente continuam a ignorar este assunto, comportando-se como “donos” absolutos da língua de Portugal?!!! Alguém de entre os candidatos levantou publicamente a questão do AO90, mostrando ao menos prudência e consideração pelos cidadãos e pelo bem comum que devem respeitar? Leiam os folhetos da propaganda eleitoral para as autárquicas, visitem na Internet os sítios das diversas candidaturas: ainda não foram eleitos, mas “iluminados”, “progressistas”, “modernos” e “globais”, já [adutaram] o AO90!

De que estamos à espera para, de uma vez por todas, expulsarmos os vendilhões que nos querem negociar a língua, falsificando-a e roubando no peso – umas consoantes etimológicas por aqui, mais uns acentos, hífenes e maiúsculas por ali – à boa maneira nacional (os clientes nem se apercebem e dá muito dinheiro!…)?

«Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

«Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada (…)»

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Leram? Entenderam? Ou a Cultura só funciona no horário de expediente?

Para concluir, recordemos as palavras cruas e realistas, afinal sempre actuais, de Jorge de Sena (in “A Portugal”):

« (…)
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
(…)
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato; (…) »

Pior ainda é ser-se uma terra em que a classe dominante – política, intelectual, cultural, universitária – “assina a merda” a própria língua!

Maria José Abranches

[Transcrição de comentário da autoria de Maria José Abranches neste mesmo”site”.]
[Imagem: “faceless” de Kelly Alexandre (flickr)]

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3 comentários

  1. Pois mas os livros de Sophia já se renderam à mixórdia. Não acredito que se fosse viva permitiria uma coisa destas.

  2. Eça de Queirós, Alexandre Herculano, o próprio Camões entre tantas outras figuras nobres da Literatura e da Língua Portuguesa, certamente que estarão às voltas nos seus túmulos, tudo graças a este abominável e imbecil Acordo(Aborto) Ortográfico que veio conspurcar, desvirtuar, abandalhar e destruir o nosso património e identidade linguística. A passividade e cumplicidade do povo português em relação a esta monstruosidade vem demonstrar tudo o que de pior nos tem afectado ao longo da nossa história-conformismo e mediocridade.

  3. Brasileiramente falando, e concordando, o que diriam também Carlos Drumond de Andrade e Mário Quintana? Guimarães Rosa quase saiu da tumba para protestar.
    A propósito, acerca de um ano atrás redigi esta crônica, que compartilho agora, e que trata justamente do acordo:
    http://flashrealidade.blogspot.com.br/2012/09/acendendo-luz.html

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