«Falar Brasileiro» [Marcos Bagno, revista “Caros Amigos” (Brasil), Abril 2013]

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DE NOVO, O MERCADO DAS LÍNGUAS

Já escrevi por aqui que o Brasil, como Estado, não investe na propagação do português brasileiro no mundo. Estive há pouco tempo na Colômbia e pude ver concretamente essa falta de política linguística que, é claro, constitui uma politica linguística. O Ibraco (Instituto Cultural Brasil-Colômbia) tem nada menos do que 5.000 estudantes, na grande maioria universitários desejosos de prosseguir uma carreira acadêmica nas nossas instituições de ensino superior. Diante desses números, qualquer governo inteligente trataria de patrocinar a formação de tantos futuros profissionais. Esse patrocínio teria de se traduzir na dotação de verbas importantes para os muitos centros de ensino do português brasileiro no exterior, sobretudo na América Latina: construção de prédios próprios, formação continuada das professoras e dos professores, bolsas de estudo para os melhores estudantes, envio de docentes brasileiros bem formados para os centros culturais no exterior, incentivo a eventos culturais (exposições de artes, concertos musicais, mostra de cinema etc.). Quanto disso tem sido feito pelo governo brasileiro? Praticamente nada.

Uma das principais críticas que se tem feito ao governo de Dilma Rousseff em comparação ao de Lula é o fechamento do Brasil para o resto do mundo. Lula, como importante personagem da política mundial, fez o Brasil se abrir, expandiu a rede das relações internacionais do país, fez o mundo falar da gente. No governo Dilma, essa rede foi recolhida, o Brasil tem se fechado sobre si mesmo, como se a relação com o mundo não tivesse a importância que tem. E as questões de política linguística vão a reboque desse isolamento.

A França tem um Ministério da Francofonia, cujo “braço armado” é a Aliança Francesa. A Grã-Bretanha tem o British Council, com filiais em todo o mundo. A Espanha aciona seu Instituto Cervantes, e até mesmo Portugal, longe de ser um país rico, principalmente nos dias que correm, tem seu Instituto Camões. Houve uma tentativa de se criar o Instituto Machado de Assis, mas disputas incompreensíveis entre o Ministério da Educação e o Itamaraty (como se não fossem ambos organismos de um mesmo governo) frustraram o projeto.

Em Bogotá, com as mensalidades dos alunos, o Ibraco comprou um lote numa área nobre da capital colombiana para construir sua sede própria. Essa sede não poderia ser construída com verba estatal brasileira? A administração do Instituto agora tem de sair batendo às portas do empresariado privado para tentar erguer seu prédio, uma vez que a (belíssima) casa que aluga atualmente, por ser patrimônio histórico, não pode ser reformada para se ampliar e receber mais alunos.

Como se não bastasse a situação já precária, o Itamaraty ameaça cortar o que ainda restava de financiamento aos institutos culturais brasileiros. E força a barra para que esses institutos se transformem em empresas privadas em cada pais.

O Brasil ocupa hoje a 7ª posição entre as maiores economias do mundo. É o 5º maior pais e o 5º em população. Com 200 milhões de falantes, o português brasileiro é a terceira língua mais falada do Ocidente, atrás somente do espanhol e do inglês. No entanto, nossos governantes até hoje não despertaram para a relevância das línguas no atual mercado globalizado. O português brasileiro cresce de importância no mundo por pura inércia, arrastado pela projeção do pais no cenário mundial. Embora tenhamos 85% dos falantes de português no mundo, não temos nenhuma política linguística sistematizada, planejada, para tornar nossa língua um bem de exportação capaz de fazer aumentar ainda mais o nosso PIB

Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UnB – bagno.marcos@gmail.com

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Marcos Bagno, publicado na revista “Caros Amigos” de Abril 2013. “Links” inseridos por nós. Destaques a “bold” e sublinhados de nossa responsabilidade. Esta transcrição respeita a ortografia do original (em Português do Brasil).]

[Recorte original publicado pelo autor no seu “mural” do Facebook. “Link” da imagem via página Facebook “Tradutores Contra o Acordo Ortográfico“.]

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4 comentários

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  1. E o xenófobo sou eu.

    • Luís Ferreira on 8 Junho, 2013 at 23:03
    • Responder

    pois… 🙂

  2. Xenófobo não, xenôfobo. É preciso não esquecer que agora fazemos parte da minoria de 15% que fala Português mas não português brasileiro.

    • Jorge Teixeira on 9 Junho, 2013 at 23:03
    • Responder

    Que os portugueses, nos momentos de euforia, em que se consideram no pico do progresso e que tudo corre bem, tinham destes momentos de delírio à volta da 3.ª língua mais falada do mundo, como se isso representasse a prova de um lugar à mesa das Potências mundiais, eu já sabia, mas sempre atribuí ao fenómeno do saudosismo dos tempos do tratado de Tordesilhas.

    Agora ver um brasileiro reproduzir os mesmíssimos delírios, ainda para mais retirando das contas da 3.ª língua mais falada do mundo todos os que não têm sotaque brasileiro, na Europa, na África e na Ásia, é novidade para mim. Mas será que é congénita (congênita?!) esta capacidade de delírio e ilusão?

    Se o português fosse a 3.ª língua mais falada do mundo (coisa que não é) isso representaria apenas isso. Que a soma dos falantes faria dela a 3.ª língua mais falada do mundo. Não faria de nenhum país nenhuma potência, não daria direito a nada. A importância das nações e a influência no plano internacional joga-se noutros domínios. E o número de falantes nativos não leva a que nenhum estrangeiro queira aprender o idioma. Os factores também não são numéricos. Em primeiro lugar é necessário que uma língua se torne um veículo de transporte de um corpo de conhecimento, de literatura, de cultura, de tal forma importante que os estrangeiros lhe queiram aceder em primeira mão. E o português ainda não o é. E um factor essencial que o tem impedido é justamente a instabilidade ortográfica. As mudanças ortográficas aceleradas têm feito com que cada geração perca o acesso à cultura gerada nas gerações anteriores, em vez de essa cultura ser um acervo que estimula a produção da cultura posterior, criando um corpo que ganha massa crítica.

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