«Bandeira e língua» [por Maria José Abranches]

Bandeira e língua: vicissitudes dos símbolos nacionais

Eu, portuguesa e europeia me confesso: são estas as marcas específicas da minha condição humana. É pois assumindo-as plenamente que posso contribuir para o enriquecimento e a preservação da nossa humana e preciosa diversidade. Posto isto, porque convém não confundir patriotismo com nacionalismo, vamos ao que agora me interessa.

Nas celebrações do 5 de Outubro, como toda a gente sabe, a bandeira nacional foi içada em posição invertida. Segundo li entretanto, isto significa, de acordo com a simbologia militar, que o território está ocupado pelo inimigo. Pobre país, “não há mal que lhe não venha”!… Obviamente que se tratou apenas de um desagradável incidente, mas como “Deus escreve direito por linhas tortas”, talvez pudéssemos ver ali um sinal, uma chamada de atenção, uma mensagem. E não estou a referir-me à crise, nem aos sacrifícios “exigidos” pela Troika, mas ao omnipresente “novo” (de 1990?!) Acordo Ortográfico, um inimigo da nossa língua, traiçoeiramente imposto do interior, com a conivência de todos os poderes instalados, incluindo os media, e o silêncio comprometido, distraído ou indiferente da nossa intelligentsia. Já não se aguenta ver televisão, nem ler uma boa parte dos jornais e revistas nacionais, nem ver o entusiasmo com que as editoras vão profanando os mais veneráveis textos. E isto para não falar das “faturas” que nem apetece pagar, nem das publicidades, nem do “software” que nos mete pela casa dentro, à força, uma mascarada de língua irreconhecível… Portugal está de facto ocupado, invadido, submerso por esta lepra que atacou o Português e pouco a pouco o vai corroendo e mutilando. E para esta desgraça não há bodes expiatórios: a culpa não é da Troika (que nem sabe a colossal despesa pública que isto representa, agora e no futuro…) nem da União Europeia, nem da Sr.ª Merkel! A culpa é só nossa, através dos políticos a quem entregámos os nossos destinos e que se permitem continuar a ignorar-nos.

Diz o texto do Acordo que ele “constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”. Mentira! Não só não contribui em nada para a já impossível “unificação” ou “uniformização” da língua portuguesa, cuja diversidade é também parte integrante da sua evolução natural, da sua riqueza e da sua História, como não traz nenhuma visibilidade internacional à língua dos portugueses. Pelo contrário, são cada vez mais os sinais do apagamento progressivo da nossa língua, à conta desta pseudo-uniformização. Um bom exemplo disto mesmo pode ver-se no sítio http://www.babbel.com/. Esta empresa, vocacionada para o ensino/aprendizagem das línguas, e financiada em parte por Fundos da União Europeia, propõe como Português a língua do Brasil, simbolizada pela bandeira desse país! E isto quando a todas as restantes línguas europeias propostas se acede pela bandeira e na versão do país europeu de origem!

Como foi possível subalternizar assim Portugal, membro de pleno direito da União Europeia, e o Português europeu, uma das suas 23 línguas nacionais?!… Perguntemos àqueles a quem demos o nosso voto para nos representarem na U.E.! À força de promoverem o AO90, de sofregamente se terem lançado na destruição da nossa língua, a pretexto da supremacia dos “milhões de falantes” brasileiros, é a língua do Brasil que ganha o tal “prestígio internacional”!

Pessoalmente não me incomoda nada a expansão do Português brasileiro, enquanto língua do Brasil! Incomoda-me sim, e de que maneira (!), que isso se faça à custa da nossa língua, que este AO desfigura, estropia e esvazia da dignidade que lhe é própria! É em Português de Portugal que eu penso, falo, escrevo, me exprimo, comunico, olho e entendo o universo. Não é em Português do Brasil! Tenham paciência, não é a mesma coisa! E o mesmo sentirá e dirá qualquer brasileiro que se preze! Porque não temos de estar complexadamente uns contra os outros, temos de salvar o que nos une, mantendo a especificidade do que somos!

Aliás essa diferença e especificidade, que constitui a única, real e irredutível “evolução” da língua portuguesa, é universalmente visível, como comprova a Larousse ao publicar, em paralelo, em Maio de 2012, um Mini “Dictionnaire Portugais” (com a ortografia correcta) e um Mini “Dictionnaire Brésilien”. E a confirmar esta dualidade aí fica ainda o testemunho de Paul Teyssier : «Há assim duas normas do português, formando cada uma delas um sistema autónomo e coerente. O estrangeiro que aprende a língua terá portanto de optar à partida quer pela norma portuguesa quer pela norma brasileira, e não sair dela. Mas todo aquele que quiser verdadeiramente dominar o português deverá, depois de possuir os mecanismos inerentes à norma que tiver escolhido, adquirir um certo conhecimento das principais características da outra.»

O Português seguiu caminhos diversos no vasto mundo para onde o levámos, na América como em África e na Ásia. É a sua riqueza e a prova da sua vitalidade, o que deveria ser motivo de orgulho para todos nós, os que partilhamos esta língua.

Não permitamos que se apoderem da nossa língua os arautos do mercantilismo desenfreado e da globalização “unificadora” e compressora da diversidade cultural humana! Forcemos os decisores políticos a ouvir-nos: “Deixem o Português em paz! Não queremos o Acordo Ortográfico! Exigimos a revogação da Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008” (https://ilcao.com/).

Maria José Abranches Gonçalves dos Santos

Print Friendly, PDF & Email
Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/10/20/bandeira-e-lingua-por-maria-jose-abranches/

18 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • Vasco Freitas on 21 Outubro, 2012 at 12:22
    • Responder

    Portugal já foi vendido, já não existe.

    • Pedro Marques on 21 Outubro, 2012 at 23:45
    • Responder

    Mesmo os outros acordos também não nos fazem falta nenhuma, e não foi só este acordo prejudicou a língua, foi também o fraco ensino, e a falta de promoção da língua, e respeito por ela.

    • Inspector jaap on 23 Outubro, 2012 at 16:57
    • Responder

    Cara Drª Maria José Abranches:
    Os meus parabéns pela coragem que, reiteradamente, patenteia na defesa da nossa bem-amada Língua Portuguesa; se mais pessoas da sua estirpe houvera, melhor fora para a nossa pobre Pátria!
    Entretanto o que lhe posso eu, pobre mortal, dizer? Não tenhamos quaisquer ilusões: estamos entregues a gente menor (não sendo bem isto o que me apetecia dizer, faço-o por imperativos de respeito pelos leitores e, particularmente, por si) donde, só quando houver uma revolução digna desse nome, em que os Portugueses que ainda restam se levantem em defesa da Mãe-Pátria é que eu vejo jeitos de isto mudar; se não conseguirmos encontrar dentro de nós essa força, essa reserva moral, então Portugal terá mesmo acabado não só como país (isso já está feito) , mas também como nação; que o bom Deus de nós se apiede!
    Respeitosos cumprimentos

    • Luís Ferreira on 23 Outubro, 2012 at 21:18
    • Responder

    “Quando os ditos “monárquicos” defendem a soberania, e também o Acordo Ortográfico”

    http://espectivas.wordpress.com/2012/10/23/quando-os-ditos-monarquicos-defendem-a-soberania-e-tambem-o-acordo-ortografico/

    “Defender a soberania portuguesa e, simultaneamente, defender o Acordo Ortográfico, é uma contradição em termos. Se o movimento monárquico português pretende conciliar o irreconciliável, está condenado ao fracasso porque faz parte integrante do sistema.”

    1. Caro Luís Ferreira,

      Reproduzo aqui a observação que acompanhou este “link” no Facebook.

      «Existem diversas facções nesta área política. A maioria dessas facções opõe-se activa e militantemente ao “acordo”.»

      Não há grande motivo de preocupação neste particular, acredite.

    • Imo Oliveira on 24 Outubro, 2012 at 10:02
    • Responder

    Muitos Parabéns pelo texto, senti que está lá tudo o que me apetece dizer e gritar aos senhores que insistem em aprovar este AO.

    • Guilherme on 27 Novembro, 2012 at 20:47
    • Responder

    Nossa que comovente: os portugueses sentindo sua cultura abalada por causa da superioridade do Brasil no destino da língua portuguesa! O mais irônico dessa choradeira toda é que vocês se sentem invadidos culturalmente e, para reforçar isto relembram a época de ‘glória’ de sua língua, evocam o periodo em que invadiram, colonizaram e anularam as línguas e culturas de outros povos como se fosse algo natural e aceitável. Tudo em nome de Deus. Quanta contradição não? Quer vocês queiram ou nao, o AO vai ser imposto e para vocês só resta uma solução: esperar por Dom Sebastião, quem sabe ele aparece e salve vocês.

    • Marcia Serrenho on 27 Novembro, 2012 at 22:15
    • Responder

    Parece-me que o Sr. Guilherme esquece-se que é descendente de portugueses… A história do Brasil começa com um traidor português… ou será descendente de índios?
    Não importa, a sua opinião não nos interessa!

    • Manuela on 27 Novembro, 2012 at 22:22
    • Responder

    “…invadidos culturalmente……” ele só pode estar brincando. Acho melhor ele se preocupar com a nossa violência, falta de escolas, de hospitais e outros problemas graves. Os europeus acreditam nessa conversa fiada de que no Brasil tudo está muito bem. ´
    Nós somos bons mesmo é em propaganda enganosa.

  1. Será que não há ninguém que dê a esse cretino umas noções básicas de história do… Brasil?
    Será que esse imbecil não percebeu ainda que é apenas mais um descendente de colono? Ou será talvez que defende a “língua” brasileira? Talvez o tupi…

  2. Sr Guilherme é ” irónico” cá por estas bandas e seria por aí se o Brasil não tivesse recuado no anterior acordo…mas como não é português o que se ouve e vê escrito pela intenet…crioulo talvêz…

  3. não sei porquê tanto “sururu” por causa do AO. a língua tem que evoluir e, quer queiramos quer não, tem que ir no sentido da maioria dos falantes e isso não é nenhuma desgraça. aliás, bastará ver o português de portugal de 1930 e o português de portugal atual: as diferenças são incomparavelmente maiores do que as introduzidas pelos vários AO e ninguém morreu. não faz sentido nenhum existirem duas línguas portuguesas diferentes porque, isso sim, cria uma bacoca competição Portugal-Brasil pela paternidade e enfraquece-a face à invasão do inglês, que mesmo sem acordo nenhum, vai tomando conta da nossa comunicação quer de um lado quer do outro do Atlântico.

  4. Guilherme volta pró sertão e no caminho vai meditando no seguinte:
    “… Porque não temos de estar complexadamente uns contra os outros, temos de salvar o que nos une, mantendo a especificidade do que somos! ”
    Depois diz qualquer coisa.

    • Isabel on 28 Novembro, 2012 at 14:12
    • Responder

    Guilherme: Este comentário padece de vários defeitos, é ridículo, ignorante e ressabiado, mas acima de tudo é antidemocrático: então os cidadãos têm que aguentar e aceitar qualquer imposição que passe pela cabeça do governo em relação a um bem comum que faz parte da nossa identidade como nação, sem serem consultados??? E tudo em nome de interesses obscuros e contra a maioria dos pareceres técnicos emitidos a eese respeito?Portanto, como os portugueses anularam culturas, sendo a própria cultura brasileira um veículo diessa anulação, então agora tocanos a nós? Estupidez e ignorância não tem limites.

    • Antonio Silva on 28 Novembro, 2012 at 17:39
    • Responder

    Este Acordo Ortográfico, é uma autêntica aberração.

  5. É verdade que o português evoluíu, mas aceitar o A.O. é compctuar com a desvirtualização da lingua sem qualquer benefício, porque continua a escrever-se de forma diferente e um livro editado em Portugal terá que ser adaptado para o Brasil e vice-versa.

    • Bruno Lopez on 29 Novembro, 2012 at 0:50
    • Responder

    Caro “manuel”; Um coisa é a lingua evoluir outra totalmente diferente é impor uma ortografia.
    E com o acordo continuam a existir duas linguas,que se dizem Portuguesas,por as diferenças entre o Português não são propriamente de natureza ortográfica mas,sim de natureza sintáctica e semântica assim como do uso da gramática.

    • Elsa Margarida Meira on 3 Junho, 2013 at 12:32
    • Responder

    Passados quase 30 anos encontro a mesma Maria José Abranches que me habituei a admirar pela força e convicção que coloca nas lutas que trava. Parabéns!

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.