«À imprensa nacional que se respeita!» [por Maria José Abranches]

Ex.mos Senhores Directores das publicações:

Público, Correio da Manhã, Jornal i, Sol, Jornal de Negócios, Revista Sábado, O Diabo, Gazeta da Beira, Jornal da Região

Sou visceralmente contra o Acordo Ortográfico de 1990, porque o conheço e repetidamente analisei, desde que foi publicado no Diário da República (23-8-1991), e porque tenho lido e ouvido muito do que sobre ele se publicou e disse, a favor e contra, desde então. Também sobre ele me tenho publicamente pronunciado em diversas ocasiões, numa luta que encetei em Abril de 2008. Os meus textos, alguns publicados na imprensa, encontram-se quase todos no meu nome (Maria José Abranches), no sítio da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (https://ilcao.com/), que subscrevi e a que activamente aderi, assim que dela tive conhecimento por uma notícia do jornal “Público”.

Porque as publicações que V.ªs Exc.ªs dirigem se respeitam e nos respeitam, ao respeitarem a língua de Portugal, permito-me chamar a V.ª atenção para o meu último texto, “A Herança”, publicado no sítio acima referido em 10 de Junho último, pois ouso acreditar que o empenho e cuidado com que me documentei para o escrever poderão contribuir para uma visão mais global do muito que, para nós portugueses, está neste momento em causa (https://ilcao.com/?p=6272#comments).

Aproveito ainda a ocasião para formular algumas perguntas cuja resposta nos deveria interessar a todos, cabendo à comunicação social um papel determinante no sentido de forçar os políticos a definir-se, quebrando os “tabus” que estes, com maior ou menor subtileza, nos querem impor:

– Como se explica que, tendo havido tantas eleições desde 1990, o AO90 nunca tenha sido publicamente discutido no âmbito das campanhas eleitorais? Esta pergunta é ainda mais pertinente no que toca às últimas eleições, a partir de 2009: legislativas, autárquicas, presidenciais e de novo legislativas.

– Porque é que, num momento particularmente difícil para Portugal, como este que atravessamos, o poder político insiste em despojar-nos também da nossa língua, impondo-nos uma ortografia escolhida pelo Brasil, o que favorece a norma brasileira da língua portuguesa, ferindo assim ainda mais profundamente a nossa dignidade? E tudo isto com custos avultados, que ninguém parece interessado em denunciar nem contabilizar…

– Não é estranho que ninguém sinta necessidade de saber a que “pressão” se referia Cavaco Silva, quando declarou, a 22.05.2012, na inauguração da Feira do Livro em Díli (vd. Público”): “Quando fui ao Brasil em 2008, face à pressão que então se fazia sentir no Brasil, o Governo português disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo, o que fiz”?!

– Porque é que Portugal entregou o destino da nossa língua à CPLP, onde os nossos Ministros da Educação, normalmente no estrangeiro, decidem do modo como nós e os nossos filhos e descendentes devemos escrever, sem que sejamos ouvidos, consultados, e nem sequer correctamente informados?…

Vem a propósito esta declaração: “Temos de olhar para a CPLP como uma comunidade relativamente atípica porque é a única comunidade linguística em que a potência mais importante não é a antiga potência colonial” – Seixas da Costa, citado por Nuno Pacheco, que acrescenta “(…) porque é a CPLP que se discute. Quem nela pesa, caso do Brasil; e quem nela quer fingir que pesa, caso de Portugal.” (in “A língua, o acordo e uma falsa unidade ditada pela política”, “Público”, 16 de Abril de 2008).

– Quem está preocupado com o desastre do ensino do Português, há muito visivelmente nas mãos de um “lobby” enquistado no Ministério da Educação? E porque não há verbas para o ensino da nossa língua junto das comunidades de portugueses espalhadas pelo mundo? Mas atenção: a campanha de implementação do AO90, nomeadamente graças às inúmeras acções de formação desenvolvidas, ao mercado dos novos manuais, à sua divulgação pela RTP, tem sido conduzida com invulgar vigor, e dispêndio pouco consentâneo com a “crise” que atravessamos!…

– Como foi ainda possível que os promotores do AO90 pusessem a circular – sem suscitar reacções inteligentes – uma série de enormidades que acriticamente se vão por aí repetindo, inclusivamente com a colaboração de alguns jornais, ainda há bem pouco tempo prestigiados? Muitos destes aspectos são devidamente equacionados no meu texto “A Herança”, pelo que aqui me limito a enumerá-los:
– as línguas evoluem (e até retrocedem, visto que nos querem obrigar a escrever como se faz no Brasil desde 1943 – sem esquecer que o português do Brasil tem características arcaicas, que nós já perdemos…); não somos os donos da língua (pois não; por isso nos está vedado amputá-la e desfigurá-la a pretexto de a tornar mais “vendável”); quem se opõe ao Acordo é reaccionário, “Velho do Restelo”, retrógrado, antiquado (o tique do costume: o importante são “os colarinhos à moda”); já houve outras reformas da ortografia, e também elas suscitaram resistências (“reforma” não é “acordo”) ; português antigo (expressão usada para referir a ortografia que continua em vigor e nos vem de 1945); este Acordo visa a uniformização indispensável ao prestígio internacional da língua portuguesa (o que obviamente não resiste à análise mais superficial); sem este AO, o português dito “europeu” ficará uma língua residual, como o mirandês ( para além da falta de respeito pelas línguas em geral, isto denota sobretudo ignorância…)…

Nesta enumeração incompleta dos dislates que têm servido de apoio ao AO90, quero ainda recordar a palavra sábia do ex-Ministro da Cultura, Pinto Ribeiro: “Nós afirmamo-nos enquanto identidade e enquanto povo através da língua que falamos e da expansão que demos a essa língua. Neste momento, o número de falantes do português andará pelos 230, 240, 250 milhões. Mas desses 250 milhões, 200 milhões são brasileiros. E eles eram apenas 70 milhões em 1960. De 1960 para 2008 triplicaram, e isso significa fazer 130 milhões de falantes do português, mais do que nós fizemos em todo o nosso passado.” (in entrevista ao “Público”, 04/02/2009; o destaque é meu)

Mas os abissais e insondáveis conhecimentos linguísticos dos políticos não param de nos surpreender: veja-se a Lei Nº 12.605, de 3 de Abril de 2012, proclamada pela “Presidenta” do Brasil, e que “Determina o emprego obrigatório da flexão de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas” – sem comentários!

Termino, com o meu mais profundo agradecimento à imprensa portuguesa que continua a defender lúcida e corajosamente a dignidade da língua de Portugal, e com um vibrante apelo a que se não poupe a esforços para fazer ouvir a voz dos portugueses, que o poder político tem ignorado e, por todos os meios, tem procurado silenciar!

Os meus cumprimentos,

Maria José Abranches Gonçalves dos Santos

[Mensagem recebida por email, da autora, com autorização de publicação.]

Print Friendly, PDF & Email
Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2012/07/06/a-imprensa-nacional-que-se-respeita-por-maria-jose-abranches/

15 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • João Pais on 6 Julho, 2012 at 23:26
    • Responder

    Bem haja!
    Acrescento à lista de imprensa que indica o caso do Díário de Aveiro, jornal com uma larga tiragem diária para a sua escala, que honrosamente mantém a nossa ortografia padrão. Convencido também de que a esmagadora maioria da imprensa regional não adoptou a aberração do AO90 (sempre que viajo vou deitando o olho aos jornais que encontro e a amostragem é elucidativa).

    Divulgarei activamente o seu manifesto.
    Com gratidão,

    • Mário Coelho on 7 Julho, 2012 at 0:45
    • Responder

    Acrescento também o Diário de Coimbra. A não ser que tenham optado por adoptar o Acordo no último mês (há mais de um mês que não pego num exemplar) também está isento de abortos.

  1. Já agora, alguém reparou que este Português-br+ não é intuítivo? Com o Português antigo, conseguia escrever segundo a lógica, os acentos estavam de acordo com a fala, palavras lógicas levavam todas traço, como ‘jogar à batalha-naval’ (sinceramente nem sequer fui verificar se levava o traço, mas certeza que sim), e muitos outros exemplos.
    Acho até que ainda nos anos 90 tiraram alguns acentos, mas com a merda do acordo ficou tudo absolutamente confuso. Escrever sem dicionário tornou-se impossível. Algumas palavras mantêm o acento, noutras saem, outras -as dos c’s- fazem com que tenha que imaginar a pronúnciação das palavras, como diretamente (leio com o 1o E abafado), e mais milhares de palavras que tenho que IMAGINAR ou DECIFRAR depois de ler.
    É uma merda. É como falar uma língua e ler outra, patética.
    Uma Língua no século XXI sem intuição…

  2. As publicações deviam salientar que os textos publicados:
    Não estão conformes o dito AO90.
    Destacar mesmo no cabeçalho como posição editorial:
    EM DESACORDO COM O AO90
    Mude-se o hino:
    Contra o “Português do Sertão” marchar, marchar!!

    • Inspector Jaap on 7 Julho, 2012 at 10:14
    • Responder

    Até me vêm as lágrimas aos olhos depois de ler tão notável texto.
    Um dia a História os julgará, mas, entretanto, vejam só quanto mal estes facínoras fizeram e continuarão a fazer à Nação (um conceito que esse biltres nem conhecem). Se houver Justiça, todos eles serão julgados por este crime vil como não conheço outro… que pequeninos, todos eles.
    Cumpts

  3. JAAP, toca a todos nós fazer o que estiver ao nosso alcançe para que isto PARE! E isso começa precisamente por não aceitar as coisas já como um FACTO CONSUMADO! E isto não tem a ver com mais ninguém senão com os PORTUGUESES!!! PORTUGAL é uma nção soberana, nós somos os seus habitantes, como tal temos o DEVER de SALVAGUARDAR o que é nosso, neste caso, a LÍNGUA PORTUGUESA!

    Outra coisa, no caso do inglês a maior potência não é seguramente Inglaterra (colonizador), pois não?

  4. Nos anos 50, quando surgiram os 1os computadores,
    estes não dispunham de uma linguagem entre o programador e
    o computador. Era tudo feito em 0’s e 1’ns, e explicar à
    máquina um cálculo complexo estava ao alcance de muito
    poucos.
    Dizer ‘acende a luz’ seria uma palavra extremamente simples,
    mas dizer ‘explica-me a gravidade da Terra’ levaria meses.
    Um pouco como o Indo-Europeu.

    Nos anos 60, para simplificar os processos complexos, criaram-se
    2 linguagens. O C e o Pascal. As 2 diferiam na base pela maneira
    como abordavam a intuição. A intuição do comunicador e do receptor.
    Os automatismos do cérebro e a interpretação do receptor -neste
    caso a máquina.
    Em 69 fomos à Lua.
    Muito como o Fenício e talvez o Ur.

    Entretanto o C (dos Fenícios) foi melhorando e aperfeiçoando, de
    acordo com as necessidades e exigências do comunicador.
    Esse C era o Português pré-acordo ortográfico.

    Ao longo da História dos computadores, existiram sempre tentativas
    de universalidade, como uma dos anos 80 que não me recordo o nome
    (?lego?), o Java, e recentemente a Python.
    Temos aqui o Latim (base no Fenício), o Esperanto (base no Português!),
    provavelmente o Grego, entre outras.

    No entanto nenhuma delas sobreviveu, porque são iluminações
    de meia dúzia de pessoas, não reflectem a vida, as vontades e as
    necessidades da população. Por muito poder que essa meia dúzia tenha
    para induzir a vontade geral, esse poder será a médio prazo fútil
    e efémero para a civilização. E para eles próprios. Para tudo.
    Por essa razão o Latim – inspirado no Fenício – foi ‘finito’. E por
    essa razão o Português permaneceu, fragilizado pela luta, que pelo
    meio perdeu a identidade para o seu adversário.
    Falámos neste momento brasileiro+.

    Mais tarde, como o C e o Pascal têm muitas palavras, criou-se o
    Basic. Muito mais fácil e lógico. No entanto, porque quem falava
    em Basic necessitava de mais palavras, essa linguagem acabou por
    ser uma panóplia de Basic+C.
    Inglês.

    A grande diferença entre o Português e as restantes Línguas está no
    número de ‘tons’ que utilizamos. Temos aberturas semelhantes ao
    Inglês, fecho como o francês, etc, etc, etc.
    Por ser a Língua mais Universal, temos ‘tons’ que definem melhor,
    mais objectivamente, entre a intuição do cérebro do comunicador
    e o receptor, que melhor exprimem o significado da palavra.
    É extremamente perigoso mexer quer nos acentos, quer seja no que
    for na nossa Língua, porque como ela é extremamente complexa, e JÁ
    FOI SIMPLIFICADA EM 1940: corre-se o risco de ANIQUILAR O PROCESSO
    INTUITÍVO DA LÍNGUA. Que é o que está a se iniciar.

    Devemos ter muito orgulho no Português. É muito possívelmente a
    Língua viva mais antiga do mundo. É certamente a mais antiga da
    Europa.

    Na informática, apenas o C permite resolver problemas não-padrão.
    A filosofia é a expressão máxima da escrita.
    Considero pois o Português de 1940-1990 a linguagem máxima para a
    escrita e compreensão filosófica.
    O Inglês é péssimo para a filosofia. Resulta bem para o dia-a-dia
    porque é fácil. Mas para pensamento abstracto, nota-se muito as
    suas limitações.
    É – era! – aí que o Português florescia. No limite e para além do
    conhecido.
    O Português-Brasil pode ser mais fácil no básico, mas coitadinho
    se quisermos expôr em escrito uma reflecção desconhecida.
    Ambiguidades para os leitores.
    Algures nesta página está um bom exemplo escrito pelo Miguel
    Esteves Cardoso. Ele disse tudo nesse texto.
    Pelo que eu sei o pt-BR+ ainda é mais básico! (O nosso ‘atual’.)

    Neste momento estamos abaixo do Inglês, escrevemos um ‘dialeto’!

    Quanto melhor a linguagem, melhor são os programas, mais rápidos,
    mais seguros.
    Pelos vistos quem pode repôr a escrita, não percebe que para Portugal
    existir, necessita de uma excelente linguagem.

    Em 20 anos passou de ‘Excelente’ a ‘Razoável’.
    Em 20 anos o País passou de esperança a desgraça.
    Desgraça na economia, cultura, música, letras, educação e sociedade.

    A melhor Língua do mundo para resolução do pensamento abstracto
    tornou-se:
    -A única Língua escrita do mundo que não tem intuição.

    URGENTE: reponham o Português escrito.

    Obrigado.

  5. Se me permitem, deixo aqui o 1º escrito filosófico PT-BR+ (o que as crianças aprendem ‘atualmente’) da autoria de Miguel Esteves Cardoso, que se dignou a escrever estritamente nesta língua, impossível língua:

    Será possível imaginar os ilustres filólogos de Cabo Verde a discutir minúcias de etimologia grega com os seus congéneres de Moçambique? Imagine-se o seguinte texto, em que as palavras sublinhadas serão obrigatoriamente (para não falar nas grafias facultativas) escritas pelos portugueses, caso o acordo seja aprovado:”A adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileira, com a ajuda entristorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirrecta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas. No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula. A escrever »O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não é sobreumano«? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?”

    Repito:
    URGENTE: reponham o P-o-r-t-u-g-u-ê-s escrito.

    • António Dias on 8 Julho, 2012 at 12:47
    • Responder

    Boicote a todos os jornais e editoras que adoptem o aborto ortográfico, é muito simples.

    Por outro lado, endereçar estímulo e reconhecimento aos Jornais e Editoras que mantêm a norma do Português Europeu.

    Já há bastante tempo que deixei de abrir, sequer, expressos, JN’s, Visões…. Para ler jornais com grafia brasileira vou para o Brasil (país que muito estimo, de resto).

    É também interessante verificar que algumas grandes empresas continuam a aplicar o Português Europeu, na sua publicidade (BES, Pingo Doce), nas suas publicações (caso do Pingo Doce), nos documentos que utilizam para o seu funcionamento.

    Neste momento, ao contrário do que a televisão na sua omnipotência quer fazer acreditar, não está coisa nenhuma consumada.

    Há caos generalizado com um conflito entre os que querem aplicar este acordo (Porto Editora, Leya… as iluminárias do ME… as sumidades políticas e intelectuais que o promoveram com mentiras e manipulação.. e claro, os que sem saber porquê, vão atrás para ser modernos ou porque têm medo de desagradar ao chefe) e os portugueses que se recusam a aplicar esta aberração.

    Mais que nunca é altura de continuar a recolher assinaturas e ser muito activo na intervenção cívica, recusando qualquer tipo de concessão à aberração do AO90.

    Trata-se de uma usurpação violenta da nossa identidade, nem mais nem menos.

    Bem haja Maria José Abranches, pelo seu manifesto, que tal como o anterior tem tando de esclarecedor como de inspiração para continuar a resistir a esta barbaridade.

    • Bento (Galiza) on 8 Julho, 2012 at 16:29
    • Responder

    Moro ao lado de Chaves e verifiquei, com desagrado, que nos folhetos e sinalética da empresa CONTINENTE foi adoptado o AO. Acho que na próxima vez será interessante deixar uma sugestão na caixa destinada ao efeito. É claro que a sua conta de resultados não se vai ver afectada, mas acho que todas as pessoas conscientes deveriamos fazer o mesmo para mostrar a nossa rejeição polo facto.
    É bom saber que há outras empresas que não aderem a tal dislate, deveriamos usar essa mesma caixa de sugestões para as encorajar e para que saibam que terão a nossa preferência como clientes e consumidores por esse respeito a uma Língua que outros vendem por critérios estritamente materialistas e mercantilistas.

    • Luís Ferreira on 9 Julho, 2012 at 11:04
    • Responder

    Passou-me pelas mão “O Mirante”, um Semanário Regional – http://www.omirante.pt/ – e verifiquei com agrado que não aderiu ao AO. Pelo menos até ao número que eu tive nas mãos: Nº 1040, Ano XXIV, 07/06/2012.

  6. Bem haja a professora Maria José Abranches pelos seus textos tão lúcidos, rigorosos e certeiros. Tudo quanto tem dito, neste texto e anteriores, é infelizmente verdade, e, o mais terrível de tudo, é que os criminosos de lesa-Pátria que estão a impor-nos esta vilania o sabem muito bem, conhecem muito bem todos os argumentos – irrespondíveis! – contra os erros, os absurdos e os inimagináveis disparates de que o AO90 está recheado, mas não desarmam porque outros interesses mais altos (mais ignóbeis?) os movem.
    A sofreguidão é tanta em tornar o crime irremediável que nem sequer atendem ao que eles mesmos preceituam no n.º 2 do Art. 2.º da Resolução da Assembleia da República (RAR) n.º 35/2008, onde se prevê um prazo limite de seis anos, após o depósito do instrumento de ratificação do Acordo, para que este entre em vigor. Ora, pelo Aviso n.º 255/2010, “o depósito do respectivo instrumento de ratificação foi efectuado em 13 de Maio 2009”, ou seja, ainda há um prazo até 13 de Maio de 2015 para que o AO90 entre em vigor. Mas a nossa governança é fértil em contradições, e esquecendo-se do que estipulara na RAR n.º 35/2008, acrescenta, neste último Aviso, “tendo o referido Acordo entrado em vigor para Portugal nesta data” (ou seja, 2009). Em que ficamos? 2009 ou 2015?!
    Pelos vistos nem uma coisa nem outra, porque começou a ser brutalmente imposto a partir de 1 de Janeiro de 2012 nos departamentos governamentais logo seguido pelos grupos que esperam lucrar chorudamente com este negócio, pelos bajuladores do costume e pelos tontinhos que acham muita graça em aplicar o sinistro Lince a tudo o que escrevem, não obstante o mesmo Lince já ter sido desrecomendado pelos próprios defensores do AO90, pelos erros e imperfeições que contém.
    O mais grave de tudo, porém (se é verdade o que me chegou através de uma fonte fidedigna), é que tem havido actuações disciplinares contra funcionários que se atreveram a escrever sem respeitar o AO90.
    Devo confessar que isto me enche de terror.
    Fui funcionário público entre 1956 e 1964, numa das fases mais duras e repressivas do salazarismo, e – pelo menos que eu soubesse, enquanto fui funcionário público – nunca nenhum funcionário sofreu processo disciplinar por escrever fora da ortografia então vigente.
    Não quero assustar ninguém, mas o caso é muito mais grave do que gostaríamos de imaginar.

    • Fernando Paulo Baptista on 10 Julho, 2012 at 22:59
    • Responder

    Enviei a sua Excelência o Ministro da Educação e Ciência, Prof. Doutor Nuno Crato, a seguinte mensagem:

    Senhor Ministro da Educação e Ciência,
    Excelência:

    Caro Prof. Doutor Nuno Crato,

    Permita-me que comece por invocar e subscrever aquele que bem pode ser o “lema programático“ (orientador e condutor de toda a acção educativa e formativa, profiláctica e impeditiva…) inscrito na primeira página do seu e-Portal: «A maior dívida que um país pode gerar é a perpetuação da ignorância».

    É inspirado neste pensamento que sinto o imperativo cidadão de lhe dever proporcionar, como expressão de sincera estima e respeito académico e intelectual (cuja origem remonta a um inesquecível diálogo/debate ocorrido há anos numa livraria de Viseu…), o seguinte contributo de fundo filológico e epistemológico, pedindo-lhe para que dele sejam retiradas as inerentes e coerentes consequências ético-pedagógicas, considerando que «o Acordo 0rtográfico que está a ser implantado no nosso sistema educativo tem, como tento demonstrar fundamentadamente, devastadoras implicações na aprendizagem das linguagens especializadas (científicas e sapienciais). Em jeito de preambular amostragem, transcrevo, desse meu contributo (que segue, na íntegra, anexado em versão pdf), o seguinte andamento discursivo assinalado a cor azul, pelo facto de o Professor Nuno Crato ser um distinto Académico que conhece, como poucos, o que significa a formação científica e cultural, proporcionada pelas melhores Universidades Americanas.

    Na medida em que a História a todos nos julgará por actos e por omissões, fico a aguardar, cheio de esperança, formulando os votos das maiores venturas pessoais e governativas e afirmando a minha inteira disponibilidade para colaborar graciosamente com o Ministro no que for considerado útil para a construção, a partir do presente, de um futuro em que a “dívida da perpetuação da ignorância” seja afastada do horizonte do nosso querido Portugal:

    Fernando Paulo Baptista

    Contactos:

    Fernando Paulo do Carmo Baptista

    Inspector jubilado do Ministério da Educação de Portugal
    Investigador convidado do Centro de Investigação em Educação
    [CIEd] da Universidade do Minho,
    Investigador da Associação Piaget Internacional [AsPI],
    Consultor editorial da revista da Organização Mundial da Saúde
    [«WHO – Bulletin»]
    Membro do “Editorial Board” e colaborador
    das seguintes revistas inter-universitárias:
    – «The Journal of the Indiana Academy of the Social Sciences»
    do Estado de Indiana – USA (cf.: http://www.iass1.org);
    – «The interdisciplinaryjournal of Portuguese diaspora studies»
    (IJPDS] (cf.: http://portuguese-diaspora-studies.com)
    Membro honorário do Movimento Internacional
    da Tele-medicina / Tele-saúde

    Rua do Belo Horizonte, lote 6-B
    3500-612 VISEU PORTUGAL
    e-mail: fpbaptista@sapo.pt

    Princípios epistemológico-linguísticos (e também metodológicos…) orientadores da missão consciencializadora para as gravíssimas consequências decorrentes da sinistra “guilhotina” liquidatária, esfingicamente instalada e escondida na Base IV do novo acordo ortográfico / 1990

    O empenhamento nesta missão consciencializadora das gravíssimas consequências iliterácicas, a nível científico e cultural, que decorrem da aplicação da Base IV do actual acordo ortográfico, radicam na assunção dos seguintes princípios:

    1º. Não há produção nem comunicação do conhecimento científico e dos conteúdos sófico-epistémicos e sapienciais que integram a noosfera, fora das potencialidades sémio-discursivas proporcionadas pelo binómio “linguagem verbal língua(s)”, o mesmo será dizer, pela “palavra”.

    2º. Não há processo de ensino-aprendizagem verdadeiramente formador e transformador, sem uma bem alicerçada competência de comunicação linguística que implica, em sua centralidade constitutiva, uma cada vez mais forte, mais exigente, mais vasta e mais qualificada competência lexical, com especial relevância para o vocabulário erudito e especializado.

    3º. Não há aprendizagem reflectida e meditada e, por isso mesmo, consistente e duradoira, sem o diuturno convívio com a mais credível informação proporcionada pelas qualitativas e imprescindíveis páginas das obras sapienciais que se lêem, a partir das bibliografias e das referências internéticas recomendadas ou criteriosamente auto-descobertas, sem as subsequentes fichas de leitura que se elaboram, os apontamentos que se tiram, os textos dos trabalhos que se escrevem, em suma, sem os testes e demais provas escritas que validam e legitimam essa mesma aprendizagem…

    4º. Quanto mais consciente e estruturado for o domínio do vocabulário morfo-semanticamente mais denso, mais rigoroso e mais expressivo, mais sustentadamente estará garantido o sucesso dos hoje cada vez mais desafiantes programas de literacia (leitura e escrita) científica e cultural[1] que caracterizam o exercício esclarecido e responsável da cidadania.

    5º. Em sua esmagadora percentagem (mais de 80%), o léxico que integra as terminologias especializadas constitui-se e estrutura-se morfo-semiogenicamente com base nas matrizes clássicas (greco-latinas) e no seu núcleo adeânico-genómico que é a raiz.

    6º. Ora a Base IV do novo acordo ortográfico constitui não só a sinistra “guilhotina” liquidatária e desfiguradora de inúmeras raízes portadoras desses “adeânicos” núcleos lexicogénicos identitários mas também o bloqueador obstáculo a uma aprendizagem inteligente, racional e morfo-semiogenicamente radicada, fundamentada, sustentada e articulada.

    7º. Daí, o imprescindível empenhamento cidadão de todos nós na consciencialização do País, da CPLP e da Diáspora para o que efectivamente significa o arquitectante, estruturante, clarificador e formativo recurso às matrizes genético-clássicas (com natural destaque para o grego e o latim, reforçados pelo contributo comparatístico de enfoque lexicológico com as demais línguas indo-europeias), não só como intranscendível suporte dos processos da lexicogénese, da terminopoiese, da terminografia, mas também da lexicodidáctica fundamental.

    Importa, assim, neste último sentido, ter a humildade de reconhecer, em nosso proveito e benefício próprios, o significado e o alcance do investimento que, por exemplo, nos Estados Unidos da América, se vem fazendo, no âmbito da Educação Linguística, nomeadamente o competentíssimo labor investigativo e reflexivo protagonizado, entre outros, por John J. Pikulski e Shane Templeton, com projectos extensíveis a todo o sistema educativo (escolas básicas, secundárias, colégios e universidades) e consubstanciados em estudos estrategicamente tão importantes como os que têm vindo a ser publicados, estudos esses, onde expressamente se reconhece que «a large proportion of the vocabulary of specific content areas is built on Greek and Latin elements»[2].

    Tal reconhecimento, feito no quadro mais específico do projecto editorial da “Houghton Mifflin Reading” e sob os auspícios do “National Institute of Child Health and Human Development (NICHD)”, tem como referência aquele labor centrado sobre o crucial tema-e-problema do «Teaching and Developing Vocabulary: Key to Long-Term Reading Success», para o qual, entre outras medidas pedagógico-didácticas igualmente pertinentes, se propõe que, «desde bem cedo, mas de forma adequada, escalonada e distribuída porclasses (grades), níveis (levels) e etapas (steps), se proceda sistematicamente ao ensino e aprendizagem do significado de «prefixes, suffixes, and root words»[3].

    De facto, e no que mais específica e directamente diz respeito à aprendizagem do significado das raízes das palavras, sublinha, por sua vez, Norman Herr, com a autoridade científica e pedagógica que se lhereconhece, que «a knowledge of Greek and Latin root words can greatly enhance student understanding of scientific terms and provide a better understanding of English and other European languages», concluindo, por um lado, que «learning scientific root words (…) helps us understand the vocabulary of a variety of languages, particularly English» e, pelo outro, que «an understanding of the roots (…) helps us all master both scientific and nonscientific terms and become more proficient in the use of language»…

    [1] Cf. Rodger W. Bybee: Achieving Scientific Literacy — From Purposes to Practics, Portsmouth, NH / USA, Heinemann, 1997, pág. 72: «… scientific literacy includes understanding of scientific terminology, but it is more then mere vocabulary. It extends to concepts…».

    [2] Tais estudos aparecem referidos e sumarizados apud:

    http://www.beyond-the-book.com/strategies/strategies_041608.html.

    E, numa linha de historicidade interpretativo-compreensiva, fundadora e clarificadora, importa considerar, entre outras, a posição de Howard Jackson and Etienne Zé Amvela (Words, Meaning and Vovabulary — An Introduction to Modern English Lexicology, New York / London, 22007), quando, na pág. 39, afirmam: «Latin has been a major influence on English right from the Germanicperiod up to modern times». De igual modo, também María Teresa Cabré (La Terminología. Teoría, Metodología, Aplicaciones, Barcelona, Editorial Antártida / Empúries, 1993), dentro do mesmo rigor genético-arquitectante, reconhece, na pág. 182, que «los préstamos del fondo grecolatino se hallan normalmente presentes en una gran cantidad de lenguas, especialmente en las romances, pero también en las anglosajonas, y son percibidas como unidades naturales, nada extrañas», sendo que tal reconhecimento é confirmado na nota 37 dessa mesma página, nos seguintes termos: «El fondo grecolatino constituye una de las fuentes más ricas y a la vez más explotadas de extracción y formación de términos de especialidad». Essa mesma fundamental sintonia ressalta do labor indagativo de Donka Minikova and Robert Stockwell (English Words — History and Structure, Cambridge, Cambridge University Press, 22009), quando, na pág. 1, se referem, assim, ao potencial formativo das matrizes genéticas clássicas: «Greek and Latin roots in English language have been studied and have been part of the core educational curriculum at least since the Renaissance», referência igualmente consonante com a de Keith Denning e William R. Leben (English Vocabulary Elements, Oxford / New York, Oxford University Press, 1995), ao escreverem, na pág. 23: «Still, English continues the traditions of the Renaissance in its heavy reliance on Latin and Greek. This is fortunate, since it means that the systematic study of scientific and other special vocabulary can concentrate on these two languages out of the many that English has drawn from its history. Because the Latin of ancient Rome itself borrowed words from Greek, many Greek words entered English indirectly through Latin. As a result, the three maior sources of English borrowd vocabulary — French, Latin, and Greek — have contributed to language along the major paths (…) of borrowing from Greek and Latinate sources into English». Mas não menos significativo e eloquente é o testemunho de um dos mais consagrados promotores da «literacia científica» a nível mundial — Norman Herr (The Sourcebook for Teaching Science, San Francisco / California /USA, Jossey – Bass, 2008), quando, depois de, na pág. 3, afirmar que «scientists give names to new discoveries, concepts, theories, and inventions using classical Latin and Greek roots, prefixes, and suffixes», passa a justificar o facto concreto e objectivo de a Língua Inglesa se haver transformado na «Língua Franca da Ciência»: «Today scientists from around the world communicate in English, and English has therefore become the lingua franca of science. The English lexicon (the entire stock of words belonging to the language) is much greater than any other due in part to the scientific words that are added daily. The English scientific vocabulary isincreasingly rich and complex, allowing scientists and others to express themselves more precisely than ever before». Na verdade, e em jeito deculminativo e simbólico fechamento, tenha-se em conta, para a devida reflexão, o seguinte ajuizamento sobre The Oxford English Dictionary: «is one of the largest dictionaries in the world and the accepted authority on the evolution of the English language, tracing the use of more than 600,000 words over the last 1,000 years through 3 million quotations». Cf.: http://www.oed.com/public/about e também: http://www.oed.com/

    [3] Cf. os já citados estudos apud: http://www.beyond-the book.com/strategies/strategies_041608.html

    • Jorge Teixeira on 10 Julho, 2012 at 23:22
    • Responder

    Na imprensa, podem juntar à honrosa lista dos que não adoptaram o AO90 a revista TimeOut Porto e a revista Happy Woman.

    Julgo que muitos de nós sejamos leitores assíduos. Vários são aqueles que escrevem muitíssimo bem. Queria aproveitar para propôr que sigamos o exemplo da Maria José Abranches Gonçalves dos Santos e se elabore uma carta para endereçarmos às publicações e, principalmente, editoras que estão a adoptar o AO90 a comunicar o nosso desgosto por essa opção e de que deixaremos de comprar os livros que editam e os jornais e revistas que publicam.
    Este texto estaria disponível numa página web e assim poder-se-ia imprimir e enviar para as editoras, de preferência por correio postal para sinalizar que de facto nós somos o público comprador de livros e que estão com a escolha do AO90 a alienar a população que compra livros.
    Se não comprarmos livros editados pelo AO90 estaremos a enviar o sinal mais forte que se pode dar a quem toma estas opções. A de que, longe de potenciar o negócio livreiro, estão na realidade a matar a galinha dos ovos de ouro.

    • Pedro Marques on 11 Julho, 2012 at 1:27
    • Responder

    Senhor António de Macedo isso não faz de Salazar menos Ditador. Contudo também estamos a viver uma Ditadura, dentro de outra Ditadura, ou seja mesmo que não houvesse um capitalismo feroz por parte da União Europeia, Alemanha, França, e Estados Unidos, estariamos na mesma com esta Ditadura levada a cabo por estes senhores da contra-revolução que estão a ver se se livram de uma vez por todas da cultura portuguesa, da sua dignidade, da língua, da tradição!

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.