Leonor Buescu. Em defesa da sua memória e da sua tenaz, generosa e inteligente oposição ao AO

Um

(…)

Ao longo dos séculos, muitos foram os que realçaram a necessidade de regras, revistas periodicamente, no sentido da simplificação e da modernização da escrita. Já em 1536, Fernão de Oliveira, o primeiro gramático português, alertava para a necessidade de novos sinais gráficos para representar as vogais “grandes” (abertas) das vogais “pequenas” (fechadas). Outros gramáticos, como Duarte Nunes de Lião e João de Barros, dedicaram especial atenção aos problemas ortográficos, como bem salientou a autora de “Dois ortografistas do sec. XVI“. Maria Leonor Carvalhão Buescu destaca a “polémica gramatical” associada à ortografia, em que “as opiniões divergem parcialmente e parcialmente se encontram”, considerando, no entanto, que há “como que uma unanimidade entre os ortografistas: a melhor grafia é aquela que se aproxima da pronúncia”. Vão nesse sentido as alterações do novo acordo ortográfico”.

[Transcrição parcial de “post” da autoria da Deputada Edite Estrela na rede social Facebook.]

Dois

“Estimada Dra Edite Estrela:

uma vez que invoca repetidamente (em particular no seu post de 12/2) o nome de nossa Mãe, Profª Maria Leonor Carvalhão Buescu na qualidade de linguista, em defesa das suas próprias posições sobre o Acordo Ortográfico, sentimo-nos na obrigação de a corrigir, pois as palavras de nossa Mãe que cita foram grotescamente descontextualizadas. Referiam-se elas a um momento histórico muito complexo, com a adopção do vernáculo em toda a Europa e a necessidade da sua codificação face ao latim, no século XVI. Pelo contrário, Maria Leonor Carvalhão Buescu foi, em 1990 e sempre depois disso, uma tenaz e frontal opositora do AO90, que considerou uma peça lamentável do ponto de vista científico e social. Enquanto herdeiros também do seu legado intelectual, solicitamos que não volte a utilizar, fora de contexto, a sua autoridade como apoiante de um AO que sempre recusou. Profs. Helena Buescu (FLUL), Ana Isabel Buescu (FCSH-UNL), Jorge Buescu (FCUL).”

[Transcrição de mensagem enviada à Deputada Edite Estrela, através da rede social Facebook, pelos filhos de Maria Leonor Buescu.]

Três

“Posso testemunhar do vigor com que a Professora Doutora Maria Leonor Buescu se posicionou desde 1986 contra o Acordo Ortográfico, do qual o segundo acordo é uma emanação (aliás tão teratológica como o primeiro), assinado em 1990. Se há que invocar o nome dela é exactamente para o incluir entre os de quem, desde essa altura, tomou uma posição frontal e sem qualquer ambiguidade.
Podem dar a este meu comentário a utilização que entenderem.
Um abraço do”
Vasco Graça Moura

[Transcrição de mensagem enviada por Vasco Graça Moura aos filhos de Maria Leonor Buescu, com autorização expressa de publicação, que nos foi remetida (por email, através de Maria José Abranches) pelos mesmos para o efeito.

A ILC pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico” solidariza-se, evidentemente, com a posição tomada pela família de Maria Leonor Buescu.

O vídeo que se segue é a gravação de um programa de televisão emitido em Janeiro de 1991. Nele, apenas como exemplo, se prova e comprova que Maria Leonor Buescu sempre fez, de facto, uma “tenaz, generosa e inteligente oposição ao AO90”.

Quatro

Política da Língua ou língua da política? from Jorge Pereirinha Pires on Vimeo.

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8 comentários

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    • Rui Valente on 1 Março, 2012 at 19:07
    • Responder

    Como disse algures o autor do “post”, este vídeo com mais de 20 anos mantém toda a actualidade. Até a votação final feita pelos espectadores se assemelha às de hoje: um terço de acordistas contra dois terços de opositores ao Acordo.

  1. Defensores do AO90 a recorrerem à mentira para tentarem fortalecer as suas posições. Porque será que não estou surpreendido?

    1. Não são “os professores de português”. São dois ou três professores de português que têm o estranho hábito de falar em nome dos demais.

    • Maria José Abranches on 1 Março, 2012 at 23:40
    • Responder

    Guardo uma recordação muito viva da firme e fundamentada tomada de posição da Professora Doutora Maria Leonor Carvalhão Buescu contra o AO, num programa de televisão, há muitos anos. Lembro-me de lhe ter ouvido dizer que quanto mais espalhada no mundo, maior deve ser a precisão e o rigor com que uma língua deve ser escrita. Porque é fundamental que em qualquer ponto do planeta a que ela chegue pela escrita se saiba, o mais exactamente possível, como deve ser pronunciada.
    Além disso, pelo muito que me ajudou na preparação das minhas aulas, tenho também uma dívida de gratidão pessoal para com a autora dos “Apontamentos de Literatura Portuguesa”.
    Sou professora de Português e sempre fui contra o AO de 1990! Tenho assumido inúmeras vezes, publicamente, esta minha posição. Morria de vergonha se me calasse, já que “quem cala consente”!

    • Luís Ferreira on 2 Março, 2012 at 10:10
    • Responder

    @JPG

    Dou de barato que não são todos, mas, em regra, é ensurdecedor o silêncio com que esse grupo particular de professores se manifesta. Há, obviamente, e peço perdão pela injustiça das minhas palavras, professores de português que não rendem. Contudo, a sede com que – penso não estar errado se o disser – uma larga maioria vai ao “pote do AO” tem sido tão grande que me surpreende o desapego e a falta de amor à língua.

    Claro que Edviges Ferreira da APP & “coworkers” têm andado numa roda viva, tão envolvidos que estão nesta INDÚSTRIA do Acordo Ortográfico, a tentar mover montanhas para calar bocas contra. Ocupam lugares excelentes para influenciar os seus associados e têm-no feito de forma irrepreensível, mas onde estão os outros? Os que são contra? São tão poucos que não se ouvem? Num universo tão grande de professores de português – as assinaturas deles e familiares dava para garantir a ILC – apenas uns quantos têm a coragem e a dignidade de dar a cara e levantar a voz?

    Neste sentido, eu dizer que “professores de português têm tido uma atitude em matéria de AO inexplicável” não pode ser levado a mal, porque, havendo honrosas excepções, a maioria, a larga maioria, não fala, não se manifesta, não se indigna. Aceita, como se de um grupo de gente sem vontade se tratasse. Com algum sentimento de vergonha, esta massa anónima de gente confunde-me e entristece-me. Acho-os uns vendidos às “acções de formação”, aos editores, às direcções das escolas, aos pequenos poderes que estão instalados por todo o lado e encontram no facto uma oportunidade para mostrar as unhas sujas com os restos da nossa língua, a troco de um prato de lentilhas.

    • Inspector Jaap on 3 Março, 2012 at 11:53
    • Responder

    Caro Luís, concordo inteiramente com o que diz, o que ainda mais fortalece a minha triste convicção de que Portugal como Estado, já não existe e como Nação está só um passo atrás; se não, como explicar esta manada de invertebrados que até andariam a 4 se lhes aumentassem o ordenado? O caro JPG é que tem razão, uma razão tão simples, evidente e demolidora que até dói: bastavam eles para colocar a ILC na AR.
    Assim, o que se pode esperar de gente dessa, que só é professor porque…
    Ai que saudades tenho eu do tempo em que os professores eram prestigiados – porque tinham prestígio – e passavam 5 anos lectivos sem dar uma falta, e para isso, chegavam ao extremo de, contra o conselho médico, serem operados só nas férias grandes, mesmo à custa de grande desconforto físico acrescido pela temperatura (sou testemunha disso), e que, com um sorriso rasgado, nos diziam que era paga mais que suficiente as visitas diárias que grande parte dos alunos lhes fazia para lhes amenizar a provação (consegue imaginar isso, hoje?), para já não falar do facto de não só serem professores sob o ponto de vista técnico-científico mas também formadores de carácter e personalidade dos alunos pelo grande exemplo de vida e de prestígio social que tinham… Onde se encontra isso hoje? Provavelmente nos seus (poucos) descendentes que são esses que salvaguarda no seu comentário; ou isto leva uma volta de 180º ou afundamo-nos mesmo, pode crer.
    Cumpts
    P.S.: Para que conste: tenho uma filha que é professora, e tem orgulho nisso e eu nela, também por isso; inútil será dizer que assinou há muito tempo a ILC.

  2. Sobre o comportamento geral dos professores opinei em tempos tão cruamente que me valeu isso agravos a pessoas que estimo (v. http://biclaranja.blogs.sapo.pt/584912.html). Se não tinha razão parece. A atonia da classe docente pode ter razões individuais fortes que justifiquem desatender às razões dos alunos, dos pais, do ensino da Língua e da cultura, mas isso remete-nos para algo pior ainda do que o malfadado «coiso»: o temor que certas «autoridades» aleivosas e malfazejas como a tal Edviges e quem na suporta procuram instilar (e instilam) em gente dócil. É com isto e sobretudo da propaganda disto, como no título da notícia do D.N., «Professores lamentam declarações [do Viegas] sobre [o] acordo ortográfico» (cf. http://aventar.eu/2012/03/01/professores-apoiam-declaracoes-sobre-acordo-ortografico/) que muita gente se convence e se deixa apascentar. Não é simpático dizê-lo assim, mas talvez dizendo-o com crueza se consiga espicaçar quem tenha pingo de honra e dignidade de modo a deixar-se de servir de capacho. Afinal, como no caso do «coiso» cacográfico, em que o rei vai nu, também essa borra das Edviges, das Estrelas e dos Viegas não passa duma fantochada de tigres de papel sem tino para nada que preste. Afrontá-los só tem como consequência destilarem mais veneno de propaganda. De propaganda! A força não está com eles.
    Cumpts.
    P.S.: @Inspector Jaap, não é inútil dizer que a sua filha que é professora há muito assinou a I.L.C., antes pelo contrário, porque isto não devia, mas há muito que se transformou numa guerra de propaganda.

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