«Língua, ortografia e óleo de rícino» [“Público”, editorial, 15.02.12]

«De repente, parece que a contestação ao Acordo Ortográfico (AO) deixou o aparente silêncio onde se movia para ressurgir, com estrondo, na opinião pública. Artigos em jornais e revistas, actos públicos, iniciativas coordenadas ou isoladas insinuam-se como se de uma campanha se tratasse. Há uma explicação para isso: a profusão de textos escritos (e muitos deles mal escritos) seguindo, ou pretendendo seguir, o AO (alguns com disparates de monta, como escrevendo “fato” em lugar de facto, quando este é um dos muitíssimos casos onde se fixou dupla grafia, “fato” para o Brasil e “facto” para Portugal — já que os africanos têm sido marginalizados em tal “partilha”) faz com que as reacções aumentem. É como o óleo de rícino: ninguém diz mal dele até começar a tomá-lo. O Acordo Ortográfico, cuja aplicação forçada e nada consensual vai revelando cada vez mais as suas muitas fragilidades e incongruências, apela a que, de uma vez por todas, se olhe para o amontoado de erros que ele contém e se decida o seu destino, a bem da língua portuguesa, onde quer que ela se fale e escreva. E é em nome do futuro e não do passado que falamos, ao renovar tal apelo

[Transcrição integral do editorial do jornal “Público” de hoje, 15.02.12.]

Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito e são por definição de interesse público.

[Recorte de Nuno Lima Bastos e transcrição do texto copiada do blog Linguagista.]

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14 comentários

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    • Vítor Silva Santos on 15 Fevereiro, 2012 at 17:02
    • Responder

    O destino do AO é o caixote do lixo…

    • Jorge Pinheiro on 15 Fevereiro, 2012 at 17:32
    • Responder

    O problema não está nos acordos ortográficos (ou não) que se façam com o intuito de uniformizar a língua. Ao longo dos tempos, já se realizaram vários e não foi por causa da sua aplicação que a língua regrediu. Qualquer pessoa minimamente informada percebe que a língua tem de se ir adaptando à evolução e ao desgaste que vai sofrendo por influências várias e o português não é excepção. (Quem leu Saussurre, sabe que é assim). A própria ortografia actual sofreu há relativamente pouco tempo uma alteração – a supressão do acento grave para indicar a sílaba tónica secundária (“agradàvelmente” e “sòzinho” passaram a “agradavelmente” e “sozinho). E pelas regras da acentuação, as formas verbais “lêem”, “dêem” e “vêem” deveriam escrever-se sem acento (leem, deem, veem). O problema não está, pois, na necessidade ou na possibilidade de uma reforma ortográfica, chamemos-lhe Acordo ou outra coisa qualquer. O problema está NESTE Acordo que, pelas suas incongruências e falhas merece mais o epíteto de Aborto Ortográfico. Não uniformiza coisa nenhuma e em certos casos, cria ainda maior distância entre o pt-PT e o pt-BR e maior distorção ao português falado em Portugal. Tenha-se a coragem de reconhecer que ele tem falhas profundas e corrijamo-las. O argumento de que com o AO90 deixa de ser necessário escrever em pt-PT um texto agora escrito em pt-BR e vice-versa é uma falácia mentirosa porque as diferenças não desapareceram (facto/fato; receção/recepção, apenas para citar duas discrepâncias). Com AO90 ou sem AO90, um texto brasileiro será sempre diferente de um texto português porque a norma morfo-sintáctico-estilística varia entre os dois lados do Atlântico. Em vez de um acordo ortográfico ganharíamos mais se procurássemos uma uniformidade da terminologia porque essa é uma das áreas onde ainda se pode conseguir alguma unidade porque quanto à ortografia e sintaxe, a batalha já está perdida há muito.

  1. “É como o óleo de rícino” – excelente imagem 🙂

    • Luís Ferreira on 15 Fevereiro, 2012 at 19:05
    • Responder

    “…Tenha-se a coragem de reconhecer que ele tem falhas profundas e corrijamo-las…”

    Eu diria:

    Tenha-se a coragem de reconhecer que ele tem falhas profundas e rejeitemo-lo.

  2. Antes de mais quero dar-lhe os parabéns pela iniciativa, também sou contra o acordo ortográfico e espero que o acordo seja revogado.
    No entanto tenho algumas criticas a fazer em relação a este site. Na MINHA opinião penso que a página está um pouco confusa.
    Os impressos para assinatura deviam estar mais em destaque e na página inicial.
    Já que é possível preencher o impresso, digitalizar e enviar por email, porque é que isso não está em destaque na página inicial?
    Actualmente há um grupo de facebook com mais de 90000 gostos, tenta divulgar está página através de desse grupo já que é o que têm mais aderentes, evidenciando de forma bem clara que se querem que o acordo ortográfico seja revogado não basta fazer gosto!
    Adicione um campo de introdução emails de amigos como tem o página http://peticaopublica.com/ para uma mais fácil partilha.

    Cumprimentos

    1. «Antes de mais quero dar-lhe os parabéns pela iniciativa»
      A quem pretende dar os parabéns, ao certo?

      «também sou contra o acordo ortográfico e espero que o acordo seja revogado.»
      Então está no sítio errado. Esta ILC é pela revogação “apenas” da entrada em vigor do AO90, não pela sua revogação enquanto Tratado.

      «No entanto tenho algumas criticas a fazer em relação a este site.»
      Pois, é o costume de alguns.

      «Na MINHA opinião penso que a página está um pouco confusa.»
      Pois, é como diz, é a sua opinião.

      «Os impressos para assinatura deviam estar mais em destaque e na página inicial.»
      Acha? Compreendo. É uma opinião como outra qualquer.

      «Já que é possível preencher o impresso, digitalizar e enviar por email, porque é que isso não está em destaque na página inicial?»
      Porque um blog não tem “página inicial”, tem “último post”.

      «Actualmente há um grupo de facebook com mais de 90000 gostos, tenta divulgar está página através de desse grupo já que é o que têm mais aderentes, evidenciando de forma bem clara que se querem que o acordo ortográfico seja revogado não basta fazer gosto!»
      90000 quê? E que grupo é esse? O nosso tem 121000 “aderentes”, portanto aquele a que se refere não é o que…

      «Adicione um campo de introdução emails de amigos como tem o página http://peticaopublica.com/ para uma mais fácil partilha.»
      Acha? Veremos se alguém adere à sua ideia. Se for o caso, faz-se logo. As ferramentas que já lá estão, incluindo essa que diz, não chegam? O que sugere? Os destinatários de email já escritos, por adivinhação?

      «Cumprimentos»
      Igualmente.

      P.S.: obrigadíssimo pelas críticas. Quando quiser fazer alguma coisa de útil, diga.

    • Gisela Pereira on 16 Fevereiro, 2012 at 2:30
    • Responder

    NO
    Já que tem pro-actividade, sugira aos mentores dessa Petição que leiam a Lei que regulamenta as Petições – sabe, para ser válida, tem que cumprir certas regras, como por exemplo dados de identificação como o BI.
    Resumindo, é mais uma acção que reflecte a falta de empenho e discernimento
    Lançar postas e petições é fácil, fazer bem feito são outros quinhentos.
    Deixo-lhe o link para a Lei do Exercício do Direito de Petição, e já agora encaminhe a quem quiser
    http://www.parlamento.pt/Legislacao/Documents/Legislacao_Anotada/ExercicioDireitoPeticao_Anotado.pdf

  3. Claro. Basta abrir o formulário de subscrição e constatar logo a primeira “surpresa”: aquilo só tem espaços (de preenchimento obrigatório) para nome e endereço de email. Evidentemente, face ao nº 3 do Artº 6º da Lei 43/90, a petição é liminarmente inválida.

    • Luís Ferreira on 16 Fevereiro, 2012 at 18:33
    • Responder

    Caro NO,

    se ler as FAQ encontra respostas a todas essas questões:

    http://ilcao.com/?page_id=288

    O link directo ao documento que serve para assinar a ILC, existe no seguinte endereço:

    http://ilcao.com/?page_id=18
    http://ilcao.com/docs/ilcassinaturaindividual.pdf

    Lembre-se: divulgue o melhor que puder esta ILC e, se quiser, recolha assinaturas e envie para o Apartado 53, 2776-901 Carcavelos, que serão muito bem vindas.

    • Maria José Abranches on 17 Fevereiro, 2012 at 1:37
    • Responder

    Gisela Pereira,
    Obrigada por nos ter dado o “link” para a Lei 43/90, sobre o Exercício do Direito de Petição. Já consultei e as minhas dúvidas acerca da petição acima referida confirmaram-se: nem sequer se pede o B.I. dos peticionários (n.º 3 do Art.º6º)…

    Há dias, alguém me interpelou sobre a dita petição, nestes termos:
    «Que é isto? Estes acordaram agora ou é “asneira”?»

    Fui visitar o sítio e achei muito pobre e mesmo indigente a argumentação que adoptaram como ponto de partida, em proporção com a importância do objectivo que dizem pretender atingir (“Revogação do Acordo Ortográfico”)! E não aparece ninguém a assumir publicamente a iniciativa!
    Estando a ILC nesta luta há tanto tempo, não seria de juntarmos os nossos esforços, todos nós que somos contra o AO? Porque não se empenharam em dar visibilidade à ILC, em vez de andar a dispersar e “perder” apoios, para aumentar a confusão? Não sabiam da sua existência? As petições, neste momento, são tantas, sobre os assuntos mais diversos… Além disso, a Petição/Manifesto em defesa da Língua Portuguesa, com outra envergadura, a todos os níveis, já foi apresentada na Assembleia da República, com o triste resultado que se conhece!
    Não sei, francamente, o que pensar de tudo isto… Mas creio que o momento actual exige de todos nós um alto sentido de solidariedade e de responsabilidade: o nosso inimigo comum é o Acordo Ortográfico de 1990!

  4. Criticar é fácil. Difícil é ser o Sr.João Pedro Graça.
    O Brasil acha que esta página está muito clara.

    • Gisela Pereira on 18 Fevereiro, 2012 at 1:41
    • Responder

    Maria José Abranches,
    Não carece agradecer…

    Quando tomei conhecimento dessa Petição, também constatei a fraca argumentação e sobretudo a falta de rigor.
    Tal como refere, a ILC existe e há muito que é divulgada. Não creio que os mentores dessa Petição a desconheçam. Mesmo que o parco texto não refira os primeiros signatários, a lista de assinantes é pública e de fácil consulta – como se diz? “gato escondido com rabo de fora”?
    Fica-me a interrogação do propósito, espicaçado pela coincidência dessa Petição ser lançada quando surgem inúmeras referências na comunicação social à ILC pela “revogação do acordo ortográfico”.
    Uma pesquisa na net por este título, desvia os incautos de subscrever a ILC, crendo que se trata da mesma acção cívica. Isto, é no mínimo, de uma irresponsabilidade inqualificável.

    Concordo consigo, a defesa da língua portuguesa é uma causa de união.

    • Luís Ferreira on 18 Fevereiro, 2012 at 14:22
    • Responder

    #Gisela Pereira

    “Isto, é no mínimo, de uma irresponsabilidade inqualificável.”

    Irresponsáveis, há-os para todos os gostos e somos obrigados a lidar com eles. O que me preocupa mais é que seja uma tentativa de dividir para reinar. A dispersão cria nas pessoas a sensação de terem já “assinado”.

    Temos que ser muito pacientes e pedagógicos se queremos juntar assinaturas à ILC. Há quem esteja ainda muito confundido.

    1. @Luís Ferreira, não me parece (de todo) que se trate de irresponsabilidade. O plano é evidentemente deliberado e consiste apenas e só, como diz, em dividir para reinar. Podemos e devemos ser “pacientes e pedagógicos”, até aos confins do absurdo e para além do imaginável, sim, mas também é bom – parafraseando uma frase conhecida – que eles saibam que nós sabemos que eles sabem que nós sabemos (disso).

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