África rejeita o novo acordo ortográfico [jornal “Opção”, Brasil]

Imprensa
Euler de França Belém
África rejeita o novo acordo ortográfico

Texto do jornal “Público” mostra, na edição de quinta-feira, 9, que há rejeição ao novo Acordo Ortográfico em Angola e Moçambique. Mesmo em Portugal, há resistência. No Brasil, provando que temos pouca resistência a certas imposições mal discutidas, aceitamos bovinamente o acordo ortográfico. Os africanos de língua portuguesa têm razão: como “segurar” a diversidade da língua? Impossível. Ceder aos negócios em detrimento da cultura, da permanência das diferenças, nunca foi saudável para os países. A humildade do Brasil seria uma espécie de novo imperialismo?

Jornal estatal angolano rejeita Acordo Ortográfico
Cláudia Carvalho

O principal jornal diário angolano publicou na quarta-feira um editorial dedicado ao Acordo Ortográfico, ao qual tece duras críticas, defendendo que “há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam”, pondo em causa futuras negociações.

O novo Acordo Ortográfico começou a ser aplicado nos documentos do Estado a 1 de Janeiro, vigorando em todos os serviços, organismos e entidades na tutela do Governo português. No entanto, existem ainda instituições que não o aplicaram, como a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa ou o Centro Cultural de Belém, que voltou atrás na decisão depois do novo presidente Vasco Graça Moura ter ordenado que todos os conversores – ferramenta informática que adapta os textos ao acordo – fossem desinstalados dos computadores da instituição. Desde então, a discussão tem estado em aberto, tendo surgindo cada vez mais vozes contra a aplicação do acordo.

Agora o tema chegou às páginas do jornal angolano de capiatis públicos, depois da reunião, em Lisboa, dos ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde se pode ler que “nenhum país tem mais direitos ou prerrogativas só porque possui mais falantes ou uma indústria editorial mais pujante”. No editorial, o jornal escreve que a questão do Acordo Ortográfico foi um dos temas debatidos na reunião de ministros, uma vez que a Angola e Moçambique ainda não o ratificaram.

O jornal, dirigido por José Ribeiro, escreve que é importante que todos os países “respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige”, arrebatando assim o argumento de que o Acordo Ortográfico servirá para aproximar as comunidades de língua portuguesa.

“Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais”, defende o editorial, acrescentando que “do ‘português tabeliónico’ aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas”.

Exemplificando, o jornal recorre ao quotidiano dos jornalistas. “Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português”, escreve o jornal, defendendo exactamente que os mais sábios ensinem os que menos sabem.

Para o “Jornal de Angola”, o português falado neste país tem características específicas, “uma beleza única e uma riqueza inestimável”, que devem ser mantidas, assim como tem o português do Alentejo ou o português da Bahia. “Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP”, atesta, concluindo que não é aceitável que através de um qualquer acordo a grafia seja esquecida. “Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.”

A decisão de adopção do Acordo Ortográfico (AO) foi tomada em Conselho de Ministros a 25 de Janeiro de 2011, e começou oficialmente a ser adoptado a 1 de Janeiro de 2012, estando prevista a aplicação generalizada do acordo para 2014.

Transcrição integral de crónica da autoria de Euler de França Belém, jornal Opção, de Goiás, Brasil — edição de 12 a 18 de Fevereiro de 2012.

Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito e são por definição de interesse público.

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9 comentários

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    • Maria José Abranches on 15 Fevereiro, 2012 at 16:21
    • Responder

    E lá continuam a repetir acriticamente a data de 2014, para a generalização do Acordo, que alguém mal informado atirou para o ar!
    Mais uma vez, leiam os textos: RAR n.º35/2008 – prazo de seis anos a partir do depósito do instrumento de ratificação do Acordo do Segundo Protocolo Modificativo – 13 de Maio de 2009 (Aviso n.º255/2010, Ministério dos Negócios Estrangeiros)! 2009+6=2015!!!!!!!!

    1. Sim, claro, e se atendermos ao facto de este tipo de coisas se “medir” em anos civis, então temos a data exacta: 1 de Janeiro de 2016. Isto na improvável hipótese de o AO90 lá chegar…

    • Maria José Abranches on 15 Fevereiro, 2012 at 16:30
    • Responder

    De acordo com a precisão, que agradeço.

  1. Tal é o sofisma.

    Primeiro, a indigência não faz (como havia) o vocabulário comum – passa adiante;

    segundo, vai de meter uma bucha à má fila com o II.º protocolo modificativo em violação do Direito Internacional e em contradição de termos com o Acordo;

    terceiro, tomem lá dois nano-cê-pê-ele-pês para fazer número mais um samba duma nota só ao fanhoso belenense;

    quarto, toca de aprovar umas resoluçõezinhas para dar um tom oficial – calem-se os decretos de 45 e 73, não dão jeito;

    quinto, bota propaganda de «fato» consumado e arregimenta aí uns pasquins mais a TV do governo que os lorpas comem e calam…

    – Pois não calam!

    sexto (a saga continua), repitam aí que – «Pronto, está bem! Mas é só até 2014» – que vale o ponto quinto.

    Ou são parvos ou devem cuidar que os outros é que são.

    Cumpts.

  2. Realmente, alguém que ofereça umas máquinas de calcular aí pelas ruas… Não sei se me preocupe mais com o estado do Português ou da Matemática (básica e elementar) neste país…!

    • João Alfredo on 15 Fevereiro, 2012 at 22:09
    • Responder

    Penso que Moçambique, desde que passou a ser membro da Commonwealth, não deveria mais opinar sobre a língua portuguesa.

  3. Sou brasileiro, escritor, e sinceramente não consegui entender uma única frase do que o sr. Bic Laranja escreveu. Isso demonstra com toda clareza que o português que ele fala e escreve é diferente do meu. Ora, se não falamos do mesmo jeito, por que devemos escrever da mesma forma?

  4. @João Alfredo – pertencendo ou não à Commonwealth, o português é a língua oficial do país, portanto é evidente que Moçambique deve opinar sobre a língua portuguesa.

    @Pedro Figueira – penso que neste caso se deverá sobretudo a uma questão de contexto e uso de expressões coloquiais. Em boa verdade, apostaria que muitos portugueses também não entenderiam o texto… 🙂

    • João Alfredo on 18 Fevereiro, 2012 at 0:49
    • Responder

    Se um país que faz parte da Comunidade Britânica e que inclusive dirige pela famosa mão inglesa, pode opinar sobre a Língua Portuguesa devemos, ao menos, então solicitar a opinião dos outros falantes de línguas latinas… Temo que a “dona” da Europa, Alemanha, decida legislar sobre o português. Depois de 75 aniversários não há mais o que eu ver! É o fim dos tempos!

    De qualquer forma aguardo ansioso a revogação do AO90!

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