Ricardo Pais subscreveu a ILC

Ricardo PaisRicardo Pais
Em vez de uma nota biográfica

O homem que se chama Ricardo Pais é um mal-entendido.
O Bilhete de Identidade indica que nasceu em 1945, mas nunca ambicionou ser um homem do seu tempo, sabendo – como Ionesco – que “quem quer ser do seu tempo já está ultrapassado”. A sua terra natal é Maceira-Liz, um paraíso industrial inventado em Leiria, embora todo o país jure a pés juntos que é natural de Viseu, onde passou a adolescência. Por engano, estudou Direito em Coimbra, mas, por sorte, conheceu o argentino Victor García, integrou o CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra e livrou-se do Código Penal. Entre 1968 e 1974, exilou-se em Londres para se fazer actor, mas do Drama Centre saiu encenador. Por terras de Sua Majestade, não fez qualquer MBA em gestão, mas foi guia registado no London Tourist Board e trabalhou na cozinha dos restaurantes londrinos, coisas que foram para si “experiências fundadoras de liderança e humildade”. Desde então, o mal-entendido só tem proliferado.
É sistematicamente associado à direcção de grandes instituições (fugaz passagem pelo Teatro Nacional D. Maria II, de Lisboa, em 1989-1990, e permanência – inquieta – no Teatro Nacional São João, do Porto, em 1996-2000 e 2003-2009), mas é um free-lancer inato, tendo trabalhado em múltiplos contextos de produção, respondendo a encomendas ou desenvolvendo projectos próprios com equipas desenhadas à medida.
Tornou-se conhecido pela encenação de grandes clássicos da dramaturgia universal – os mais recentes dos quais um D. João (2006) que fez a imprensa italiana classificá-lo como “o expoente máximo de uma geração culta de encenadores europeus” e um Mercador de Veneza (2008) que a norte-americana Janet Adelman (autora do subversivo Blood Relations: Christian and Jew in “The Merchant of Venice”, ed. University of Chicago Press) etiquetou como um “espectáculo assombroso” –, mas prefere ver-se como “encenador de música”, nela encontrando uma fabulosa capacidade de libertação de imaginários cénicos: cite-se o caso de Raízes Rurais. Paixões Urbanas (1998), um retrato melódico de Portugal encomendado pela Cité de la Musique, ou de Cabelo Branco é Saudade (2004), onde deu a ver o Fado tal como era cantado antes de se ter tornado espectáculo – uma raridade cénica que passou por alguns dos principais palcos de Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha.
Cosmopolita até à medula – gabam-lhe a fluência em cinco línguas; fundou e dirigiu entre 1997 e 2004 várias edições do festival internacional PoNTI; propiciou a integração do TNSJ na União dos Teatros da Europa; e assegurou a projecção europeia e transatlântica de vários dos seus espectáculos –, é todavia um dos criadores que mais obstinadamente tem sondado os fantasmas da portugalidade: do já lendário (e genial) “fracasso” de Ninguém (1978) a Clamor, sobre textos do Padre António Vieira (1994), passando, nas palavras de Franco Quadri, pela “admirável releitura” de Castro de António Ferreira (2003), muitos têm sido os contributos para a desdramatização da pátria (subtítulo escarninho de uma portuguesíssima revisitação dos UBUs de Alfred Jarry, em 2005).
É um fazedor teatral e expressões como “gestão cultural” causam-lhe uma impenitente urticária, mas – “num país onde está tudo por fazer” – assumiu a direcção de importantes projectos de desenvolvimento cultural de âmbito regional como a Capital Nacional do Teatro (Coimbra, 1992-1993) e a Área Urbana – Núcleo de Acção Cultural (1984-1987), que inscreveu a cidade de Viseu no mapa da criação artística nacional e desencadeou o primeiro projecto de reconstrução de um teatro em Portugal no pós-25 de Abril (Teatro Viriato).
O mal-entendido não fica por aqui. Senão vejamos.
Fala-se em R.P. e há quem logo destaque o aparato cenográfico e a imaginação plástica, a exploração de recursos tecnológicos, as colaborações com criadores como Giorgio Barberio Corsetti, António Lagarto ou Fabio Iaquone, mas o seu principal investimento recai sobre a palavra e a voz, a plasticidade da língua e a transparência do dizer: “não há nada de mais delirantemente cénico do que a palavra” seria uma deliciosa boutade, não tivéssemos ouvisto o espectáculo Turismo Infinito (2007), a segunda incursão de R.P. pela insuspeita performatividade da(s) escrita(s) de Fernando Pessoa. Apaixona-se por “textos-textos que dizem coisas-coisas” (encenou dois Hamlet’s – um em 2002, outro em 2004 – que só podem ter saído da imaginação de dois criadores que jamais se cruzaram na rua), mas nunca soube o que a mítica “ditadura do texto” significava, cruzando libertinamente o teatro radiofónico, o canto lírico, a electrónica, as projecções vídeo e a performance art sob um feroz impulso de comunicação teatral. De si próprio sempre repetiu que não é um “corredor de fundo”, mas executou uma missão só possível a um maratonista: a refundação em Portugal do conceito de teatro nacional, erguendo o TNSJ da gestão da bilheteira à estratégia de comunicação e ao plano editorial. Do curriculum vitae consta que foi professor na Escola Superior de Cinema, no Instituto Politécnico de Viseu e na Universidade Católica, mas a sua mais importante proeza formativa não é nomeada: a academia informal que monta em cada projecto, dele fazendo uma oportunidade para a nobilitação de todos os envolvidos: criativos, intérpretes e técnicos. Jornalistas fazem alarde da velocidade de raciocínio e do ritmo vertiginoso do discurso (quando se confessa “cansado” fá-lo com uma vitalidade incomodativa), mas colaboradores reconhecem-lhe sobretudo a atenção: a disponibilidade para parar-olhar-escutar.
Há mal-entendidos que nunca se resolvem.
Pedro Sobrado | 1 de Fevereiro de 2010

Sobre o Acordo Ortográfico diz-nos o seguinte:
Sou contra o empobrecimento distraído da Língua em favor de interesses rigorosamente anti-culturais.“.

Subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

Nota: esta publicação foi autorizada pelo subscritor, que nos enviou o perfil aqui reproduzido.

A foto deste “post” é do TNSJ, da autoria do fotógrafo João Tuna.

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1 comentário

    • Manuela Carneiro on 24 Abril, 2011 at 0:03
    • Responder

    Muito bacana.

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