««Pare, escute e pense – da importância das palavras» [“Público”, 20.02.15]

publicoPare, escute e pense – da importância das palavras

Manuel Matos Monteiro
20/02/2015 – 06:37

Casos há em que devemos guardar o étimo, sem permitir, enquanto é tempo, distorções danosas da consagração pelo uso.
Só um ingénuo acredita que a realidade pode, por intermédio das palavras, ser descrita de forma neutra.

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O emagrecimento do Estado ou o desmantelamento do Estado? Austeridade ou empobrecimento? Alívio fiscal das empresas ou benefícios ao capital (que com C maiúsculo ainda pesa mais)? Liberalização do aborto ou descriminalização da interrupção voluntária da gravidez? Flexibilização do mercado de trabalho ou desregulamentação do mercado de trabalho? Economia de mercado ou capitalismo? Entre umas e outras… vai todo um programa. A escolha das palavras obedece a uma lógica de propaganda que, como é sabido, quanto mais insidiosa, mais eficaz.

Em tempos de crise, há mais “insolvências” do que duras “falências”, sobreabundam as amoráveis “almofadas financeiras”, já não se raciona – racionaliza-se. Racionalizar é tornar racional, submeter ao domínio da razão. Quem poderá erguer-se contra os “cortes”? Só um indivíduo desprovido de razão. Curiosa é também a polidez (ou a hipocrisia?) da “inverdade” que vai triunfando sobre a “mentira”.

Muitas palavras são empregadas comummente com um significado que contradita ou extravasa, para lá do razoável, o étimo. Contemplar era originariamente estar com o templo, desaguando hoje em construções frásicas como o seu tarifário não contempla mais de cem mensagens para outras redes, o extracto do cartão de crédito não contempla… O horror, o horror!

Ortodoxo – hodiernamente utilizada de forma depreciativa para definir uma pessoa quadrada, obtusa, sem elasticidade de pensamento – procede do grego orthódoxos, pelo latim orthodoxu-, “que pensa correctamente”. Observe-se que ortografia é a grafia correcta. Radical – palavra da moda para designar um partidário do extremismo, seja reaccionário ou revolucionário, quando não um bombista – provém do latim radicale-, “de raiz”. Ir à raiz dos assuntos, dos problemas para tentar compreendê-los será modernamente algo deletério? Repare-se que usamos o verbo radicar no sentido etimológico, isto é, no sentido de algo que tem a sua raiz, a sua base – como usamos bem o verbo arraigar que, não por acaso, tem o mesmo étimo (do latim arradicare, formado de radicare). Fundamentalista é no idiolecto que por aí circula uma criatura incapaz de dialogar, com a verdade no bolso e o desejo de matar para a impor. Fundamentalista e fundamentalismo vêm de fundamental, que vem de fundamento, alicerce, base firme.

Ordinário, no seu significado corrente, extravasa largamente o étimo ordinãriu- e a acepção primeva “regular”. Pense na palavra extraordinário (extra + ordinário), o que salta da regra, do uso, do regular – positiva ou negativamente. Percalço, que todos utilizamos para incidente desagradável, é, acima de tudo, uma vantagem, um benefício. Procure num dicionário os primeiros significados e surpreenda-se. Ademais, percalçar é – em qualquer dicionário que o acolhe – lucrar, ganhar. E percalço é derivação de percalçar.

Propomos a aniquilação dos sentidos correntes dos termos inventariados? Preferimos dizer que sugerimos que se revitalizem – utilizando-as! – as adequadíssimas acepções que respeitam o étimo.

Casos há em que devemos guardar o étimo, sem permitir, enquanto é tempo, distorções danosas da consagração pelo uso (ou do erro a vencer pelo cansaço?). Brutal é adjectivo para bruto (como bestial é para besta) – brutal é, portanto, irracional, inculto, estúpido, cruel, desumano, muito rude e grosseiro. A sua omnipresença nas redes sociais e num público mais jovem vem disseminando-se a outras esferas e a outras idades. Quase tudo o que é muito bom – ou que provoca uma agradável sensação momentânea – é hoje brutal! Além do olvido do étimo, esta muleta verbal empobrece e afunila a língua portuguesa ao negligenciar a sua diversidade vocabular. “Bom será não ignorar nem esquecer que o português não precisa de mendigar indignamente das demais línguas. A um termo francês, inglês, etc., correspondem por vezes em português dois, três, quatro e até mais”, escreveu o mestre Vasco Botelho de Amaral no livro A bem da Língua Portuguesa.

[Transcrição integral de artigo da autoria de Manuel Matos Monteiro. Jornal “Público” de 20.02.15.]

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