«Avesso às “leis” mas não à alma» [Nuno Pacheco, “Público”, 12.10.14]

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O assunto tem andado morto — mal morto, reconheça-se — mas agora reanimou-se. A nova directora do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, vulgo IILP, achou por bem vir garantir que o acordo ortográfico (AO) “será aplicado em todos os estados” da CPLP, admitindo, rezam as notícias, que “cada um tem um ritmo próprio”. Sobre a utilidade da coisa não falou, como era de esperar. Nem poderia. Até agora, tirando a profusão caótica de grafias que por aí vai (com acordo, sem, meio por meio, supressão de letras a eito e até colocação de consoantes onde nunca existiram), ninguém foi capaz de se chegar à ribalta linguista e afirmar, com euforia: esta era a boa solução e provou-se!

Pelo contrário. Na mesma semana em que o IILP debitava a burocracia do costume, a assembleia de delegados do Pen Clube Internacional (com 58 centros ali representados) aprovou, por unanimidade, uma nova resolução (já o havia feito antes) apelando para que as autoridades reconheçam que há “problemas significativos” na aplicação do AO, refutando o argumento de que tal acordo “conduzirá a uma simplificação da língua com benefícios no plano da educação”; e defendendo a “liberdade dos escritores e tradutores” a “escolherem a opção ortográfica mais apropriada ao seu trabalho”. O problema é que o IILP é a “autoridade”, ou uma delas, movida a pretensões políticas, enquanto o Pen se “limita” a unir um grupo de profissionais que lidam todos os dias com a língua e a escrita, enfrentando os muitos problemas que estas lhes colocam. Não poderá, nunca, ser a mesma coisa.

E unificar é preciso. É? Vejamos dois exemplos curiosos de palavras iguais grafadas de modo diferente em Portugal e no Brasil, até porque “trocam” de letra na primeira sílaba: catorze em Portugal e quatorze no Brasil (onde se lê o “u”, tal como em quatro); quotidiano em Portugal e cotidiano no Brasil. O AO unificou-os? Não. Mas vários dicionários, antes até da entorse acordista, fizeram o que deviam: incluíram as quatro formulações, indicando as que vigoram cá e lá. Se isso tivesse sido feito com as muitas palavras mudadas à força sem ter em conta os códigos vocálicos de cada país, estaríamos bem melhor. Mas preferiram criar uma escrita só “nossa”. Desnecessária e inutilmente absurda.

Felizmente fora disto, no mundo onde se fala e escreve, respira-se sem sufocar com o mofo das falsas unanimidades. Esta semana, o cantor brasileiro Vitor Ramil trouxe-nos a arte de um velho poeta do Brasil do Sul, João da Cunha Vargas (1900-1980). Ora tentem lá “acordar” isto: “Sempre ao lado do ginete/ já me criei camperaço/ me lembro um porto picaço/ corcoveando num repecho/ sem uma corda no queixo/ que derrubei a mangaço// sempre metido em bochincho/ levei algum sofrenaço/ talhos de adaga, balaço/ é sina que desembesta/ mas já quebrei muita testa/ e nunca caí do braço.”

Muito mais a norte, no interior da Bahia, esse notável trovador que é Elomar Figueira Mello, nascido em 1937 em Vitória da Conquista, profundo conhecedor do português antigo e moderno, escreve (para dar conta da alma nordestina no tropel das palavras) canções assim: “Apois sim tá certo vamo/ cantá qualqué canturia/ num me deito nem me acamo/ prá arrotá sabiduria/ vamo cantá meu amigo/ as moda qui fô chegano/ num corremo assim o pirigo/ de tá sempre ispilicano/ prêsse povo qui eu digo/ inducado iscutano.”

Até Vitorino Nemésio, em Mau Tempo no Canal (1944) pôs na boca de Mariana do Pico, a velha ama, uma fala assim, para que o leitor sinta o som de certa expressão vocal açoriana: “Minha avó Joaquina era zambra dum ôlho, coitadinha… Dês le fale n’alma! Agarrava-se à canina de incher o caneco à bica, co aquêle bocal de corno (salvo seja!); ê lovava-a pola mão inté à soleta da porta, a espairicer. Morava na casinha de mê pai à Criação Velha, arriba da pedra do vigia. Pra chomar os homes às canoas assoprava-se o búzio. Ò tempo…” Como soa o português de tantas paragens e como rico e livre ele é. Avesso às “leis” mas não à alma.

O genial poeta brasileiro Manoel de Barros (com “o”, como o nosso de Oliveira) escreveu um dia uma pequena frase que a Caminho colocou na contracapa do volume Poesia Completa, que reúne todos os seus luminosos versos escritos até 2010 (ele nasceu em 1916): “A única língua que estudei com força foi a portuguesa. Estudei-a com força para poder errá-la ao dente.” Ainda o prendem.

[Transcrição integral de texto, da autoria de Nuno Pacheco, publicado na revista “2” do jornal “PÚBLICO” de 12.10.14. “Links” e destaques adicionados por nós.]

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