«Da “Nossa Clara Língua Majestosa”» [Nuno Pacheco, Revista “2”, 16.03.14]

NP_Revista2_16032014No sempre recorrente debate sobre o acordo ortográfico (AO), há dois “argumentos” que começam a tornar-se insuportáveis: 1) “Ninguém é dono da língua”; 2) “A minha pátria é a língua portuguesa”, este citando Pessoa. Comecemos pelo segundo.

A citação parte do trecho 259 (belíssimo trecho, aliás) do Livro do Desassossego, que Pessoa escreveu como Bernardo Soares (a que se segue é do site Ciberdúvidas que, defendendo o AO, transcreve o trecho na ortografia usada originalmente por Pessoa): “As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. […] Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo.” E mais adiante: “Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa que me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão. ‘Fabricou Salomão um palacio…’ E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes — tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica.” Finalmente, a repetida citação enquadrada no texto: “Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

À parte a provocação aos patriotas, a referência à língua como pátria é a defesa de um reduto de excelência. O ódio expresso de Pessoa não vai para quem escreve mal português, nem para quem não sabe sintaxe, nem sequer (alegrem-se, ó gentes do acordo!) para quem escreve em ortografia simplificada, vai sim contra a transformação de tudo isso em página: mal escrita, com sintaxe errada e ortografia “sem ípsilon” (ou seja, sem rigor nem elegância). Porque, diz Pessoa, “a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida”. Pois é neste “vista e ouvida” que se dividem as opiniões. É que muita da palavra “vista”, cumprindo-se o AO, hesita na forma de se fazer “ouvir”, já que, não tendo havido alterações no nosso sistema vocálico actual, o arbítrio nas regras escritas despreza os danos na fala. Citar Pessoa e insistir na “página mal escrita” é não apenas um contra- senso mas uma clara demonstração daquilo que, na essência, merecia o “ódio verdadeiro” do poeta.

E aqui chegamos ao outro ponto: “Ninguém é dono da língua”. Ora se ninguém é dono da língua para que servem então os paladinos do acordo, que se arvoram em únicos donos daquilo que não tem dono? Fizeram contestadíssimas regras, que nem eles respeitam convictamente, e dizem com desplante: não há donos. Deviam dizer: não há donos além de nós. Era mais honesto. Ou “onesto”, se preferirem. Mas deixem de nos enganar com malabarismos verbais. Porque se há “pagina mal escripta”, glosando a ortografia pessoana, é a do próprio acordo. Convinha lerem-no bem, outra vez.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo publicado na Revista 2, da autoria de Nuno Pacheco, director-adjunto do jornal “Público”, em 16/03/2014. “Links” adicionados por nós.]

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