«E Agora Num Português Totalmente Diferente» [Nuno Pacheco, revista “2”, 29.12.13]

fotoNP1Tem andado acesa, e ainda bem, a discussão em torno da grafia do português. Mas se neste campo ainda se esgrimem argumentos, há uma área onde o aviltar da língua se insinua, sorrateiro, sem que provoque escândalos de maior. Essa área é a da legendagem dos filmes. Não a legendagem pirata, que circula na Internet sem freio, mas a dos filmes no circuito comercial. Um exemplo: até aqui, havia apenas dois tipos de legendas classificadas como português”: as escritas em português europeu e as escritas em português do Brasil. Geralmente vinham identificadas. Agora raramente vêm, e a elas juntaram-se mais dois géneros: o “português” do acordo ortográfico, que circula apenas em Portugal, um “não-sei-quê-guês” que nos é impingido por editoras menos escrupulosas. Há muitos exemplos de erros, má tradução, palavras inexistentes), mas podemos cingir-nos hoje a apenas dois, ambos à venda em DVD: ‘O Processo’ (‘The Trial’), de Orson Welles, ‘1963’, uma edição de Cinecom; e ‘Estacion termini’ (‘Indiscretion of an American Wife’), de Vittorio de Sica, 1952, edição da Sogemedia. São editoras espanholas, mas convém ressalvar que há muito boas (e correctas) legendagens vindas de Espanha.

Comecemos por Welles. Nos primeiros minutos do filme, com Anthony Perkins e Jeanne Moreau, ouve-se o tiquetaque de um relógio e Joseph K. acorda com um homem de gabardina e chapéu a entrar-lhe no quarto, sem pedir licença. Agora leiam este diálogo fantástico: “Espera à Srta. Burstner?” “Não, que ocorrência. Não. Porquê?” “Como pronunciou o seu nome…” “Quando?” “No momento de entrar eu.” “Vinha você do seu quarto e eu… Que faz aqui? Quem és? Que faz no meu quarto?” “A Srta. Burstner entra de noite, por essa porta? Normalmente? “Não, senhor. Nunca. Essa porta está sempre fechada. A Sra. Grubhach tem a chave. O pode perguntar a ela. Onde está? Sra. Grubhach.” “Sem dúvida você espera à Sra. Grubach.” “Não espero a ninguém. E muitíssimo menos a você.” (“Onde vai?”, pergunta o intruso, mas não se deram ao trabalho de legendar.) “A Sra. Grubach se assombraria se soubesse que a gente se passeia tranquilamente por seu apartamento em plena noite.” Mais tarde, já no tribunal, K.(Perkins) diz: “Convido, publicamente, ao juiz de instrução a que dê as suas ordens em voz alta e em términos claros. Não haverá lugar a dúvidas, a minha detenção, as condições deste interrogatório e a razão de ser desta organização constitui-se nisto. Se elige a qualquer um, se lhe acusa e se lhe julga.” E, virando-se para a ruidosa audiência, tem esta tirada espantosa (só na legenda): “Quando me aplaudiais era para embaucar-me. A nao ser que vos proponhais burlar-vos de mim. Há mil e um exemplos. No fim, lemos: “Este filme está baseada num romance de Franz Kafka.” Pelos exemplos, não é difícil acreditar no “baseamento”…

Mudemos agora de bobina, perdão, de disco. No início de ‘Estacion Termini’, Jenniferjones está na estação central ferroviária de Roma e telefona ao sobrinho, dando-lhe um recado para a empregada: “Está? Paul, sou a tia Mary. Necessito a tua ajuda. Apanha uma das minha malas, a mais grande e diz-lhe à donzela [no inglês do filme ouve-se “maid”] que recolha tudo o que possa. Estou na estação. Vou-me. Não, não passou nada… Mas tenho que apanhar o avião de regresso em Paris. Ah! Não te esqueças do abrigo de peles. Saio no comboio das sete para Milão. Estarei esperando-te. Muito bem, mas dá-te pressa.” Quando Jennifer reencontra o amante italiano na gare (Montgomery Clift), chega o sobrinho a correr: “Tia Mary, tia Mary. O consegui. O fiz.” Ela responde: “Obrigado, Paul, és muito amável. Dá-lhe um beijo à tua mãe. E outro para ti também. Te quero muito.” “Que passou? Lhe passa algo ao tio Howard?” “Não, não. Todos estão bem.” “Subo a mala ao comboio?” “Não obigada querido, o moço se encargará.” Jennifer e Clift conversam na gare. Passa um homem a vender esferográficas. “Penas. Quer uma pena? Uma pena.” Ele manda-o embora. No final, ao descer do comboio, depois de (contra vontade) deixar Jennifer, Clift cai. Um homem acerca-se dele e pergunta-lhe (diz a legenda): “Maguou-se?” Ele levanta-se, diz-lhe que não.

E é verdade. Se houve aqui alguém ou alguma coisa que se magoou foi a língua portuguesa. Escrita, falada, pouco importa. Por este caminho, acabará num destroço. E sem a mínima salvação.

publico

[Transcrição integral de artigo publicado na revista “2” (suplemento do jornal “Público“) de 29.12.13, da autoria do jornalista Nuno Pacheco (director-adjunto do jornal).]

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7 comentários

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    • Luís Ferreira on 29 Dezembro, 2013 at 20:07
    • Responder

    Quem leu 1984 (George Orwell) e Fahrenheit 451 (Ray Bradbury) reconhece neste artigo o sentido da História e percebe que estamos numa fase de transição e que é agora que devemos lutar. Devemos lutar para evitar chegar aos extremos que são descritos nas obras acima mencionadas e que não são nada de estranho ou impossível.

    Hoje, já há palavras que são substituídas por outras que sejam “politicamente correctas”.
    Hoje, já há livros que se extinguem, porque deixam de ser lidos, passando a haver, em seu lugar, resumos manipulados.
    Hoje, já há a alteração empobrecedora na forma de escrever, mutilando a língua e limitando a capacidade de transmitir ideias.
    Hoje, já há alteração na forma de falar.
    Hoje, já há um corte de comunicação entre as diferentes gerações, por via da língua.
    Hoje, já há a incapacidade de ler textos antigos.

    A rotura com o passado criará um homem estranho, vazio, pobre. O pensamento só se expressa pela língua. A Filosofia pode falar-se, mas é escrita que permite ser melhor entendida, estudada, aprendida, pensada. A História tem de ser escrita. A História falada é o documentário televisivo. Quer a História, quer a Filosofia, foram, há anos, atacadas no ensino básico e secundário.

    Este processo é gradualista. A seu tempo, se nada for feito, se chegará onde ELES querem que se chegue. Os mestres já disseram como vai ser.

    • Bazinga on 31 Dezembro, 2013 at 2:07
    • Responder

    Não querendo ter uma perspectiva tão “Orwelliana”, transmito apenas o meu ponto de vista enquanto tradutora e legendadora.

    Defendo que o que deve ser “revisto” são, efectivamente, os tradutores. Porque há Tradutores e (peço desculpa, desde já, pela frontalidade) desempregados e licenciados em línguas que acham que estão habilitados para fazer traduções. Depois, há empresas de tradução e legendagem. Uns Tradutores, oferecem um preço e os outros fazem quase de borla. Obviamente, ficam com o trabalho.

    Portugal é dos países onde mais se lê. Isto deve-se ao facto de não termos o costume de dobrar (excepto os documentários da vida animal ao Domingo antes do Telejornal e os desenhos-animados), mas sim de legendar. Isto requer, obrigatoriamente, que o Português esteja bem escrito. Calinadas, todos damos. Erros de tradução, todos cometemos. Erros gramaticais, nós tradutores/legendadores, deveríamos contribuir para que os outros não os cometam.
    Se o pessoal acha que pode/deve legendar sem ter habilitações para tal, então força… que eu amanhã vou abrir um consultório de medicina dentária… ouvi dizer que dá uns trocos fixes!

  1. @Bazinga: tem toda a razão. Na tradução, como em tudo, há os profissionais e os outros… O resultado está bem à vista nos exemplos acima.

    Os tradutores e legendadores deveriam ser os primeiros a contribuir para a correcção e a qualidade na escrita, a todos os níveis. Consequentemente, no que ao AO90 diz respeito, deveriam ser igualmente os primeiros a recomendar/insistir/exigir que não fosse utilizado. (Sou tradutora também e é o que faço todos os dias.)

    • Maria José Abranches on 31 Dezembro, 2013 at 12:37
    • Responder

    ‘Para quem é bacalhau basta’! Qualquer coisa serve num país em que a classe política, a ‘elite’ (!) e os profissionais da palavra – professores, tradutores, escritores, editores, jornalistas, ‘media’ e outros – se comprazem no analfabetismo promovido por uma política de língua centrada no AO90! Só analfabetos, empertigados ou submissos, mas sobretudo ignorantes, podem defender, aplicar e ‘ler’ sem reacção tal violência imposta à nossa língua!

    • Luís Ferreira on 31 Dezembro, 2013 at 17:37
    • Responder

    Maria José, é isso tudo!

    Dói-me a submissão com que os pseudo-intelectuais aceitam prostituir-se na língua que deviam jurar defender, pelos trocos que o establishment lhe atira para o chão, junto aos pés. E não percebem, e não vêem, e não querem saber, porque o poder amante lhes promete o que sabe não lhes querer dar, como qualquer proxeneta, reles e corrupto.

  2. Diz Nuno Pacheco que “por este caminho (a língua portuguesa) acabará num destroço. E sem a mínima salvação”. Acrescento apenas que num destroço já ela está… e que da sarjeta onde se encontra muito dificilmente sairá. Um bom ano de 2014 para todos!

  3. Ainda há pouco tempo vi “inteleto” na TV. Até fui confirmar ao VOLP, mas nada.

    Há um ano o Brasil adiava e estavámos todos com grandes esperanças depositadas em 2013. Houve desenvolvimentos, mas que 2014 traga mesmo o fim deste (des)acordo. Bom ano!

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