«Devemos continuar a resistir…» [Pedro Correia, semanário “O Diabo”, 21.05.13]

odiabo210513A oposição ao Acordo Ortográfíco (AO) continua, demonstrando que esta imposição de um disparate linguístico não deixa os portugueses indiferentes. Desta vez, coube ao jornalista Pedro Correia a publicação de mais um livro que denuncia este atentado contra a Língua Portuguesa, intitulado “Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico” e publicado pela Guerra e Paz. O DIABO, jornal que se opõe ao AO, entrevistou-o.
DUARTE BRANQUINHO

O DIABO – O que o levou a escrever um livro contra o AO?
Pedro Correia – A necessidade, que eu próprio senti, de enquadrar, contextualizar e de algum modo historiar toda a questão. Numa linguagem clara e acessível, sem linguajar académico nem aparentar uma erudição que aliás me falta pois não sou especialista no tema. Procurei informar-me, esclarecer-me, ler tudo quanto havia sido publicado sobre a matéria, e a partir daí dirigir-me ao cidadão comum que é confrontado com regras que lhe estão a ser impostas, enquanto utente da língua, e não faz ideia como tudo isto surgiu.

Há vários livros contra o AO, mas a favor nem por isso…
E um sinal evidente do absurdo de toda esta situação. Os defensores do acordo não se ouvem porque na verdade são em número muito diminuto. Basta folhearmos livros que vão sendo publicando de escritores das mais diversas tendências, das mais diversas escolas estéticas e de todas as gerações para se perceber que fazem questão em escrever as suas obras na ortografia anterior ao acordo ortográfico de 1990. O mesmo sucede nos jornais: mesmo naqueles que aplicam o acordo, aliás cada qual a seu modo, não faltam colunistas e articulistas que insistem em escrever na ortografia pré-AO. Em todos os sectores da sociedade portuguesa a rejeição das normas acordísticas é claríssima. E maior seria ainda se não houvesse a imposição de adoptá-las na administração pública, incluindo nas escolas, onde são largos milhares os professores que se opõem às regras ortográficas emanadas do AO. A estes professores, tal como a todos os utentes qualificados da língua portuguesa, devia ser garantido o estatuto de objecção de consciência.

É a prova que o AO foi feito contra a opinião de especialistas e “nas costas” dos portugueses?
É uma prova claríssima. As alterações ortográficas em quase todas as outras grandes línguas do mundo ocidental – inglês, francês, espanhol, alemão – resultam de alterações que vão sendo sedimentadas ao longo de gerações e de largos consensos sociais estabelecidos através das décadas. E são sempre pontuais, plasmadas em dicionários e não tomadas obrigatórias mediante portarias governamentais. Em Portugal passou-se tudo ao contrário: dúzia e meia de académicos, reunidos num salão de um velho edifício em Lisboa em poucos dias, tiveram a veleidade de modificar regras ortográficas que abrangem 200 milhões de pessoas em nome de uma “unificação” utópica do idioma na sua versão escrita. E chamo-lhe “utópica” porque jamais se alcançará.

Esta decisão política faz algum sentido?
A decisão procurou ser justificada em nome da “lusofonia”, uma entidade abstracta que permanece adormecida numa gaveta e que de vez em quando é tirada dessa gaveta quando dá jeito por algum motivo e volta a ser lá colocada na primeira oportunidade. Afirmou-se que ou haveria uma ortografia da língua portuguesa em Portugal que confluísse com a norma brasileira ou o nosso idioma jamais se conseguiria impor nas instâncias internacionais. Chama-se a isto tentar vender gato por lebre: a implantação da língua portuguesa no mundo, onde é já o quarto idioma de navegação na internet, em nada depende da “unicidade” ortográfica. De resto, britânicos e norte-americanos escrevem de forma diferente e esse facto nunca impediu o inglês de se expandir continuamente nos mais diversos domínios. As diferenças, em matéria cultural (e nenhuma matéria cultural é tão relevante como a língua), são enriquecedoras.

O actual Governo tem várias figuras que eram contra o AO, como Paulo Portas. Porque é que não há vontade de o suspender ou revogar?
Julgo ter-se criado uma situação de inércia: não se mexe no AO porque existem outros problemas, considerados prioritários. Mas o AO é, só por si, um problema. As alterações normativas contidas neste acordo, contrariando a esmagadora dos pareceres científicos, são um acto de lesa-património de consequências gravíssimas, que estão aliás à vista de todos até em documentos oficiais, até nas páginas do “Diário da República”, onde há palavras que são escritas de várias maneiras diferentes, como se a grafia passasse a depender do critério arbitrário de cada um. Ponho, no entanto, alguma esperança no relatório que resultará do grupo de trabalho entretanto constituído na Assembleia da República para avaliar eventuais alterações ao AO. E considero indispensável que seja aprovada uma moratória para a aplicação do AO com carácter obrigatório – isto é, para além da data já fixada, que é 2015. Recordo, aliás, que foi isso mesmo que já aconteceu no Brasil, onde também não faltam objectores ao acordo ortográfico.

[…]

[Transcrição parcial de entrevista publicada no semanário “O Diabo” de 21.05.13. “Links” inseridos por nós.]

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5 comentários

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    • Jorge Teixeira on 22 Maio, 2013 at 17:40
    • Responder

    Não quero levantar aqui calúnias, mas já procurei este livro em várias FNAC na área do Porto, na Bulhosa e outras e ainda não o encontrei à venda. Até parece uma panelinha para que não se venda.

    1. O lançamento oficial do livro foi ontem, ou seja, há menos de 24 horas e… em Lisboa.

      Não é assunto que nos diga respeito mas sugiro contacte a Editora: guerraepaz@guerraepaz.net.

    • Jorge Teixeira on 22 Maio, 2013 at 19:11
    • Responder

    Ok, se calhar estou a ser precipitado. Vou dar mais alguns dias, depois logo digo se encontrei.

  1. Tal como milhares de portugueses, continuo a resistir à implantação do AO. Não escrevendo dessa forma, não lendo nem comprando jornais, revistas ou livros com essa ortografia deplorável. E sempre que folheio um livro que me interessa, mas deparo com o ‘aborto’, na altura do pagamento deixo-o sobre o balcão, explicando a razão desse acto. Esta é uma forma de resistência que, creio, está a ser adoptada por muitos portugueses.

    Outra forma de resistência tem a ver com a objecção de consciência. Se antes, por motivos políticos, religiosos ou filosóficos, era possível alguém livrar-se do serviço militar obrigatório, não será possível agora, por razões históricas, éticas e culturais, livrarmo-nos todos da obrigatoriedade do AO90?

    Uma última questão. Tenho um filho que em breve frequentará a escola. Será, portanto, ‘iniciado’ na nova ortografia, aquela que abomino, por a considerar “um acto de lesa-património de consequências gravíssimas”, ou seja, um crime. Sendo eu frontalmente contra este crime de traição à pátria, à verdadeira pátria – a Língua Portuguesa – como evitar que o meu filho escreva de acordo com os traidores?
    Poderei eu, recorrendo à objecção de consciência, e invocando razões de identidade cultural, impedir o professor de ensiná-lo a escrever dessa forma?

    • Jorge Teixeira on 1 Junho, 2013 at 22:08
    • Responder

    Bem, como prometido, volto aqui para dizer que encontre este livro à venda na Bertrand. Por curiosidade, acrescento que nos “supermercados do livro” Fnac, Bulhosa e Leitura books & living, tantos dias passados desde o lançamento, nem vê-lo.
    Não deixa de ser curioso, porque vendem outros títulos da colecção “livros politicamente incorrectos” da Guerra & Paz, um deles até era destaque na Fnac.
    Eu detesto de teorias da conspiração, mas não deixa de ser peculiar que estas lojas onde se quase se vende livro a peso e onde se encontram livros de todo e qualquer obscuro tema, desde a “auto-ajuda” até ao esoterismo, com a maior facilidade, e que com tanto esmero destacam a livralhada que “ensina” a “escrever” acordês suprima dos olhares as manifestações de opiniões contrárias.

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