«A língua ameaçada e os “corretores” ameaçadores» [Nuno Pacheco, “Revista 2”, 19.05.2013]

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Isto de grafias tem muito que se lhe diga. Não passa apenas por ser a favor ou contra o acordo ortográfico (AO), é preciso saber escrever. Por exemplo: a RTP, a propósito de uma vaga de despedimentos na empresa Kemet, exibiu no ecrã esta legenda: “Trabalhadores em greve contra intensão de despedimento colectivo de 150 trabalhadores”; mais tarde, a legenda surgiu refeita: “Trabalhadores em greve contra intenção de despedimento coletivo de 150 trabalhadores.” Ora descubram lá as diferenças… e os erros.

A recente edição de mais um livro sobre o AO, Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico’, assinado pelo jornalista Pedro Correia e em boa hora editado pela Guerra & Paz, é óptimo pretexto para voltar a um tema caro e que nos está a sair caro a todos, mesmo os que acham que não pagam nada para este “negócio”. Pedro Correia faz, no livro, uma resenha muito actual e essencialmente jornalística do processo que nos conduziu até aqui. As reformas do passado, as promessas dos paladinos da coisa, a ignorância e a avidez dos políticos. Se o acordo, entretanto inoculado em diversas instituições e nos nossos computadores como um vírus, servisse de facto para o que dele disseram, a língua portuguesa tinha à sua frente um futuro bem radioso. Sucede que não tem, bem pelo contrário. As “edições únicas que poderão entrar em vários mercados livreiros” (“isco” vendido nos Colóquios da Lusofonia com o alarido de uma revelação celestial) são uma mentira. Os editores, passada a onda das edições “divulgadoras” do AO, voltaram à estaca zero. Na ONU, o português não é ainda língua de trabalho nem se prevê que venha a ser (as seis línguas de trabalho na ONU, já agora, têm ‘todas’ entre 5 e 20 variantes ‘ortográficas’, não uma); em Fevereiro passado, o embaixador Seixas da Costa admitia que o português estava em risco de desaparecer como língua de trabalho na União Europeia; em 2011, Portugal perdeu a batalha do registo de patentes em português; em 2012, só muito a custo, e após uma campanha onde se destacou o deputado Ribeiro e Castro, foi possível manter o canal televisivo Euronews a emitir em português, ninguém sabe até quando; a 9 de Fevereiro deste ano, no PÚBLICO, o constitucionalista Jorge Miranda (como se sabe, um defensor do AO) clamava contra o perigo de, com cedências, ignorâncias e cada vez mais estrangeirismos em uso, estarmos a pôr em causa o direito à língua portuguesa; e finalmente o Brasil, com o pretexto de que os seus estudantes precisam de aprender outras línguas que não o português, cancelou as bolsas de estudo para Portugal.

A este panorama radioso, há que acrescentar o absoluto desnorte da escrita em Portugal, onde já “vigoram” várias “ortografias” a gosto do utilizador, com uns a tirar consoantes e outros a pô-las, cuidando que assim são pró ou contra o acordo. E com os “corretores” informáticos a fazerem o sinistro papel de imporem disparates mesmo contra a vontade de quem escreve. Pedro Correia, no seu livro, lembra (pág. 123) uma crónica escrita por Manuel António Pina, agastado com o “cavalo de Tróia” informático que se alojara no seu computador e que ele não conseguia desactivar. “Irrita-me saber que alguém vigia o modo como escrevo, pois, a seguir a isso, há-de vir também a vigilância sobre aquilo que escrevo.” Quantos escritores, jornalistas ou funcionários não se queixarão do mesmo? E o imbecil do “corretor”, além de impingir “fato” por “facto” (não tem coordenadas geográficas, coitado dele), já começou a emendar outras coisas. Ora tentem lá escrever UE, sigla da União Europeia, e vejam se ele não emenda automaticamente para EU…

Pois é. E enquanto nos querem pôr a escrever “protetor” é anunciado um serviço de telemóveis de uma das redes nacionais com o nome “Protect”. E um anúncio da Meo, recente, anunciava “outra vida”: “Mais cômoda. E mais económica” (ou seja, usava a grafia brasileira e a portuguesa europeia numa mesma linha). Querem pior? Há-de vir. Mas virá ao mesmo tempo que o português, renitente em reconhecer a diversidade já instalada no idioma e embevecido por uma “unidade” que jamais existirá, se for deformando até se tornar, de facto (com C), irreconhecível. Não é tarde para voltar atrás, apesar do caminho criminoso que se seguiu. É só preciso coragem. E alguma clarividência.

[Transcrição integral de texto, da autoria de Nuno Pachecopublicado na “Revista 2”, suplemento do jornal “PÚBLICO” de 19.05.13. “Links” adicionados por nós.]

 

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10 comentários

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  1. ” (….) É só preciso coragem. E alguma clarividência.”

    É preciso também ter amor ao País, ter respeito ao seu povo e nunca esquecer que o voto não é um cheque em branco. Os políticos precisam parar de vender o país ou eles querem que os portugueses desapareçam do mapa?

  2. “Os políticos precisam parar de vender o país ou eles querem que os portugueses desapareçam do mapa?”

    Recordo que os políticos não chegam ao poder sozinhos…

  3. o decreto já mandou e quem quiser manter-se conservador pode continuar a escrever como diz ser o correto. Procurarei entender o que eu vier a ler esteja escrito como estiver, grato pela diversidade que mais informação me dá, apiedado de quem possue acesso à educação sem que contribua em benefício duma comunicação melhor.

  4. Não entendo como uma grafia que admite mais palavras homógrafas, suprime acentos diferenciais, força a uma maior aplicação de contexto para intuir sobre a pronunciação das palavras e esconde a etimologia das palavras mais usadas pode ser considerada como um contributo para uma comunicação melhor.

  5. Oh! Mas que alma ‘piadosa’. Sabe é pouco de leis. Enfim, como os do governo…

    • Jorge Teixeira on 20 Maio, 2013 at 13:33
    • Responder

    @JJTavares “o decreto já mandou” uma pinóia. O “decreto” só impõe o AO90 aos organismos da administração pública, e a mais nenhuns. E mesmo assim é de legalidade duvidosa.

    • Jorge Teixeira on 20 Maio, 2013 at 13:36
    • Responder

    @Afonso Loureiro: A explicação está nas “escolas” de pensamento das pessoas que o congeminaram, que são o exemplo mais acabado de Imposturas Intelectuais. O Olavo de Carvalho explica-o de forma absolutamente lapidar aqui: http://youtu.be/BDSygoCbe0M

  6. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” … “continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança”. Este fim-de-semana, a palavra Coadoção foi das mais usadas pela imprensa escrita, a propósito de qualquer coisa que a A.R. aprovou.
    Ou melhor, adoçou, já que a finalidade é adoçar a boca aos principais interessados, presentes e vindouros…

    • Maria José Abranches on 21 Maio, 2013 at 22:26
    • Responder

    Um notável balanço da brilhante política de língua levada a cabo pelos responsáveis políticos e académicos nos últimos anos! Obrigada, Nuno Pacheco, mais uma vez!

    E quem não vê e não entende o que se está a fazer ao Português ou tem interesses pessoais, económicos ou outros, ou é completamente ignorante e estúpido! Não bastava sermos “bons alunos” da Europa e da Troika, também tínhamos de sê-lo da CPLP!!! E aqui eu peço desculpa aos verdadeiros bons alunos, como professora que sou! Nada em comum com este conceito agora em voga: gente acéfala, acrítica, bajuladora dos grandes e prepotente com os mais fracos, repetindo e aplicando estupidamente a cartilha imposta pelos “professores” e “manuais” do momento!

    E quanto ao resto, é muito simples: “diz-me como escreves, dir-te-ei quem és”! Não leio o que está mal escrito, nem livros nem jornais nem opiniões nem estudos nem “projetos”! Se escrevem para analfabetos, faço-lhes a vontade, não os leio! Não há projecto nacional que se aguente sem a defesa e a preservação da nossa língua! Os “modernaços”, velhos e novos, deveriam estudar um pouco mais! E aprender com as políticas de língua da França (Alliance Française, Crédif, Belc…) ou da Inglaterra, por exemplo. Não é com Acordos Ortográficos que se promovem as línguas com vocação internacional! Só mesmo os saloios nacionais para se embevecerem com uma ideia destas!

  7. Parabéns ao Nuno Pacheco por mais um excelente artigo. É notável o seu exemplo de resistência face a esta barbárie tortográfica.

    E subscrevo inteiramente as palavras de Maria José Abranches. De facto é constrangedor constatar que a vaidade ignorante e provinciana dos promotores deste acordo contagiou gente da qual, à partida, esperaria um pouco mais de bom senso e verticalidade.

    Na passada quinta-feira na primeira página do JN vi escrito: “Camas de Hospitais entra em rotura”. Não acreditei no que lia!

    Um jornal com uma história respeitável… enfim

  1. […] «A língua ameaçada e os “corretores” ameaçadores» [Nuno Pacheco, "Revista 2", 19.05.2013] […]

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