«Nova política da língua, mas com que acordo?» [J.J.L., PÚBLICO, 05.01.2013]

JJLetria_Publico-05Jan2013Estudos e debates recentes vieram colocar a tónica no potencial da língua portuguesa também no quadro da recuperação económica do país e da sua internacionalização. É verdade que há cerca de 250 milhões de falantes do português em quatro continentes e que esta é hoje uma das línguas mais faladas do mundo, mesmo à frente do francês, do alemão e do italiano. Tudo isso é estimulante e gerador de novos desafios.

O Governo anunciou que vai existir uma nova “política da língua”, que envolve uma reestruturação do Instituto Camões, o qual deverá passar a abarcar os graus de ensino primário e secundário, para além do universitário. E é justamente aqui que as grandes questões deverão ser formuladas: se a política tem ido, até agora, no sentido de encerrar leitorados devido aos reconhecidos constrangimentos orçamentais, como irá ser possível efectuar este investimento alargado perante uma evidente falta de recursos que a crise em curso veio agudizar?

Outra questão prende-se com o papel difusor da língua e da cultura portuguesas que deve estar cometido aos canais internacionais da rádio e da televisão pública, já que ninguém sabe, neste momento, o que irá sobreviver à fúria privatizadora do Governo neste domínio. Se não houver a conveniente articulação desta “política da língua” com as opções que irão prevalecer em relação ao serviço público de rádio e televisão, poderemos vir a ter gerações de lusofalantes em vários continentes sem disporem deste suporte essencial de comunicação, partilha e informação.

Por outro lado, estando a tónica a ser colocada no potencial económico desta “política da língua”, convém não esquecer a componente cultural que a deve suportar, sob pena de as pessoas ouvirem falar português não o associando àquelas que são a base da sua sustentabilidade e que passam pela literatura, pela História ou pela música, para só mencionar as mais óbvias.

Disto isto, vale a pena interrogarmo-nos sobre a modo como esta “política da língua” irá lidar com o cada vez mais intrincado “Novo Acordo Ortográfico”, sobretudo depois de se saber que o Governo brasileiro decidiu adiar para 2016 a obrigatoriedade da aplicação da nova norma, que estava programada já para o início de 2013. Tem também particular relevância a posição assumida pelas autoridades angolanas sobre esta matéria, que nada prenuncia de bom quanto ao futuro do Acordo.

Onde o Governo português sempre vacilou e adiou decisões, os brasileiros, apresentados pelos defensores do Acordo como os principais mentores desta reforma, decidiram assumir politicamente as divergências e as críticas internas, provenientes sobretudo de linguistas, e optaram por um adiamento de três anos. Em idêntico sentido vai a posição de Luanda, a avaliar pelo que sobre o assunto publicou o Jornal de Angola. Ignorar estas posições de fundo é fugir, perigosamente, à compreensão da realidade, com todas as consequências que daí podem advir.

Fica assim instalada a confusão, que deixa abertas as portas para a intensificação do debate sobre o tema em Portugal. O Acordo nasceu torto devido à forma como foi negociado, à exclusão de instituições fundamentais no processo de audição prévia e à arrogância com que o poder político o tratou, marginalizando o próprio Parlamento, e foi assim que por cá os “espectadores” se transformaram em “espetadores”, coisa de gosto no mínimo muito duvidoso.

Fica agora por saber qual vai ser a língua que o Governo se propõe internacionalizar e valorizar do ponto de vista dos mercados. Será a dos “espectadores” ou a dos “espetadores”? Será a que ia entrar em vigor em 2013 ou aquela cujas novas normas os brasileiros agora decidiram aprovar só em 2016? Será a que vários órgãos de comunicação já adoptaram como oficial, ou será uma outra que resultará de um renovado e alargado debate imposto pela importância inquestionável que o Brasil, a caminho dos 200 milhões de falantes, tem em todo este processo?

Enquanto estas questões não forem esclarecidas, andará coxa e vacilante a tal “política da língua”. Quem desencadeou, há anos, este processo abriu uma verdadeira caixa de Pandora, e eu duvido que este Governo tenha capacidade para a fechar, a não ser que lhe dê para privatizar também a língua portuguesa, em nome da redução da dívida (ou, neste caso, será da dúvida?) pública.
José Jorge Letria

Escritor, jornalista, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores

[Transcrição integral de artigo de  José Jorge Letria no jornal PÚBLICO de 05.01.2013. Links adicionados por nós.]

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3 comentários

    • Hugo X. Paiva on 6 Janeiro, 2013 at 21:20
    • Responder

    Sábado, 05 de janeiro de 2013 12:00 am

    O remendo

    Acordo Ortográfico (CB)
    José Horta Manzano
    Empresário, criador do blogue BrasildeLonge.wordpress.com
    A língua portuguesa escrita não está longe de completar um milênio. Nos primeiros séculos, escrever não estava ao alcance de qualquer um. Só os eclesiásticos e os bem-nascidos eram letrados. Naquele contexto, a grafia das palavras dependia do gosto do freguês. Cada escriba manejava sua pluma da forma que melhor lhe aprouvesse.
    Hoje e oj eram equivalentes; ver e veer também; coraçon e
    corazon eram aceitos indistintamente. A escrita não estava codificada, nem muito menos normatizada. Era o paraíso dos escritores, que, livres e soltos, não precisavam consultar dicionários, nem gramáticas. O distinto público leitor era, de qualquer modo, minguado. E dicionários e gramáticas ainda não haviam surgido.
    O tempo passou, Gutenberg redefiniu a arte de imprimir, a escrita pôde enfim se popularizar. A estagnação medieval foi perdendo sua característica de imutabilidade das gentes e das coisas. Copérnico e Galileu movimentaram planetas, e o universo deixou de ser estático.
    O uso de nossa língua também se acelerou. Num movimento espontâneo, a grafia foi-se fixando. Na ausência de normas, a escrita se propagou por imitação. Oj, veer e corazon foram rareando, suplantados pelos modernos hoje, coração e ver.
    O 7 de setembro nos separou da metrópole, mas não influenciou a língua. Durante os 50 anos seguintes, famílias abastadas continuavam a mandar seus rebentos a Coimbra. Mesmo assim, a distância linguística entre Portugal e o Brasil foi aos poucos se alargando.
    No limiar do século 20, tanto lá quanto cá, muita coisa havia mudado. A produção literária se avolumava. A instrução pública havia dado alguns passos tímidos na difusão da alfabetização. A população brasileira crescia a taxas elevadas e já havia superado a de Portugal. Nossa imprensa, refletindo o falar nacional, já tomava certas liberdades com relação ao rigor da escrita lusa.
    Parecia importante que a escrita dos dois países seguisse o mesmo diapasão. No entanto, entre reformas e acordos, o que se viu foi uma inacreditável sequência de contrarreformas e desacordos. De 1907 para cá, a história registra desencontros tais como: reformas impostas aos brasileiros mas não aos portugueses (1971), reformas impostas aos portugueses mas não aos brasileiros (1973), acordos cumpridos pelo Brasil mas não por Portugal (1943), acordos cumpridos por Portugal mas não pelo Brasil (1945), acordos ignorados por ambos (1931). Uma verdadeira casa de mãe joana.
    Em 1990, foi costurado um enésimo «acordo», surpreendentemente tímido, confuso e ambíguo. As aberrações se exacerbam quando se chega ao capítulo dos hífens. Sabia o caro leitor que maria-sem-vergonha deve ser escrita assim, com hífen, enquanto maria vai com as outras não admite o tracinho? Sabia que para-choque se escreve separado, enquanto paraquedas se escreve de uma tacada só?
    O governo brasileiro, no apagar das luzes de 2012, adiou por 3 anos a obrigatoriedade da nova escrita. A meu ver, fez muito bem. Poderia fazer melhor ainda: deixar o dito pelo não dito e simplesmente revogar esse famigerado «acordo».
    Já tivemos reformas suficientes estes últimos 70 anos : 1943, 1971, 1990. Um cidadão de 80 anos está enfrentando seu quarto aprendizado de escrita. Quem tem mais de 50 anos está aprendendo a escrever pela terceira vez. É muita coisa.
    O inglês da Inglaterra difere consideravelmente do inglês americano. Há diferenças lexicais, sintáticas, prosódicas e, last but not least, gráficas. Isso não impede que o inglês seja, de facto, a língua universal.
    A argumentação dos que alinhavaram nossa nova reforma era de unificar a escrita dos dois lados do Atlântico. No entanto, o volume de exceções é tão grande que a justificativa inicial perde a força. Com ou sem acordo, a escrita de lá será sempre diferente da de cá.
    Outra alegação era de que a unificação nos facilitaria a obtenção de cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU. Balela. Nem que a escrita fosse idêntica ― o que não está previsto no acordo ― nosso País estaria em condições de ser aceito naquela confraria. Há outras condições que, infelizmente, não preenchemos.
    Quando o remédio parece pior que o mal, como é o caso do AO90, é melhor deixar como está para ver como fica. Se nunca nos pusemos de acordo antes, por que nos poríamos agora? Com acordo ou sem ele, teremos sempre diferenças gráficas entre as duas variantes de nossa língua.

    Deixemos que o tempo faça seu trabalho. O que não tem remédio remediado está. No próximo século, voltamos ao assunto.

    (artigo publicado no Correio Braziliense de hoje)

    • Maria Miguel on 7 Janeiro, 2013 at 12:14
    • Responder

    Aplausos!
    Eu queria este texto a circular frente aos olhos de todos os portugueses. Todinhos!
    JM

    • Jorge Teixeira on 8 Janeiro, 2013 at 11:10
    • Responder

    Sim, um texto melhor do que discutir “políticas da língua”. A “política da língua” é um animal mítico nunca observado e o “valor económico da língua” e respectivos estudos não passam de masturbações intelectuais.

    A única política referente à língua alguma vez seguida pelos governos Portugueses é destruir o ensino do Português para que os alunos possam ter boas notas continuando analfabetos. E pelo pouco que conheço desta temática no Brasil, atrevo-me a dizer que essa política também tem sido aplicada pelos governos Brasileiros.

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