«Lusofonias» [Duarte Branquinho, semanário “O Diabo”, 14.08.12]

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Fui este ano pela primeira vez ao Rio de Janeiro, cidade de uma beleza natural espantosa que já foi capital de Portugal. Observando as pessoas e os seus hábitos, houve algo que me deixou perplexo. Mesmo sabendo que o brasileiro comum não entende bem a nossa pronúncia, não deixei de ficar chocado – a palavra é mesmo esta – com o facto de a maioria deles não perceber sequer que língua é que falamos! Perguntaram-me se eu era italiano ou argentino e alguns responderam-me em espanhol (por este termo entenda-se o castelhano com sotaque e termos sul-americanos)!
Claro que basta abrir as vogais, mudar o tempo verbal para o gerúndio e usar alguns termos locais para se ser entendido. Mas a adaptação tem que ser nossa.
Estabelecida a comunicação, verifica-se que há um carinho e uma admiração por Portugal. Mas não nos deixemos iludir.
O cidadão comum conhece muito pouco do país que lhes levou a língua e onde um dia aportou uma corte europeia, algo único na História. Apesar de demonstrar curiosidade e interesse.
Esta experiência pessoal leva-me à questão de fundo da lusofonia. Conceito a partir do qual quase tudo se tem defendido. Incluindo o famigerado Acordo Ortográfico, que em nada aproximou, nem aproximará, os países lusófonos.
Este é um assunto de elevada importância que não deve ser descurado. A lusofonia é uma área de influência geopolítica natural de Portugal e que deve por nós ser utilizada na afirmação da nossa cultura e posição internacional, mas há que recordar que não pode ser deixada a outros. Nunca pela lusofonia devemos submeter-nos a interesses alheios. Pelo contrário, devemos ter sempre presente que a nossa gloriosa gesta lusa foi mais uma das projecções da Europa. Não podemos esquecer o poder e amplitude da forma como locámos o mundo, mas o que não podemos mesmo fazer é esquecer o nosso país e o nosso povo em nome dessa projecção.

Duarte Branquinho
“O Diabo”, 14 Agosto 2012

[Editorial da autoria de Duarte Branquinho no semanário “O Diabo” de 14.08.2012. Transcrição copiada do Facebook.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

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12 comentários

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    • Luís Miguel on 15 Agosto, 2012 at 17:08
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    Em português correcto abaixo da imagem seria “Clique na imagem para aumentar”. Click é inglês e defender a língua não passa só por não querer escrever à brasileiro. passa por não usar palavras estrangeiras desnecessariamente.

    1. Isso depende do “sófetuér” e também, por vezes, do “árduér”. Neste computador ambas as coisas estão em Inglês.

    • Alexandra on 15 Agosto, 2012 at 17:19
    • Responder

    Concordo com o Luís Miguel. E não vejo onde é que está o problema em admitir o erro, as pessoas de boa vontade também erram…

    1. Não há erro algum para “admitir”. Há é opiniões diferentes sobre uma absoluta insignificância. Este “site” é de propaganda contra o AO90, não um “mural” de fundamentalistas da Língua Portuguesa.

    • Alexandra on 15 Agosto, 2012 at 17:36
    • Responder

    No comments…! :s

  1. Em boa verdade, melhor é premir na imagem e ler o artigo.
    Cumpts. 🙂

  2. “O software está em inglês” significa… que o software está em inglês. Um blog é uma base de dados complexa, escrita em php ou noutra impenetrável linguagem qualquer. O sítio onde se clica é preenchido à mão, naturalmente em português, mas palavra “click” só pode ser alterada mexendo no código. Deduzo eu, que gosto de deduzir coisas.

    • O plánêta netúno on 16 Agosto, 2012 at 0:18
    • Responder

    Há 8 anos atrás, Portugal tinha 80% do espaço de tradução para Português. Todas as distribuições Linux incluíam -OFICIALMENTE- PT (Portugal), e algumas tinham como acrescento programas em PT-BR.
    Até esse tempo, o google não traduzia ‘BUS’ para ‘ônibus’, ou ‘YOU’ para ‘você’. Nem o flash vinha semi-traduzido (semitraduzido), ou no telemóvel aparecia ‘discando’, ou qualquer outro programa.

    Portugal tinha mais cibernáutas que o Brasil.

    E digo mais: -Regra geral os brasileiros são uma vergonha quando escrevem/ comentam. Basta irem ao youtube. -E não é só a ‘troçar’ dos Portugueses. -É de tudo!

    Se o youtube é um dos sítios mais visitados da WWW, se a WWW é a porta de entrada para a Língua Portuguesa, ela anda cheia de.

    -Sobre o ‘click’: foi só pra chatear, não foi?
    -Não teria sido mais positivo apontarem os problemas -a sério- do Português na rede eléctronica?
    -Acham que não?
    Contra-argumentem com argumentos! 😀 😛 (Não existem, eu sei!) 🙂

    …’ciberespaço’ (parece Alemão mas é Português…)
    ‘contrargumentem’

    • Mário, odivelas on 16 Agosto, 2012 at 10:30
    • Responder

    Eu gosto de ler e escrever (misturado com Português) palavras outras que não as nossas, é uma maneira bonita de estar grato a essas Línguas, que alias também o
    fazem. Eu gosto de ler e escrever, por exemplo: atelier, dossier, penalty, fax, click, tonner, etc., e pelo contrário não parece-me tão bem escrever, dossiê, ateliê, penálti (nova forma de dizer penalidade (?)), etc., mas isto sou eu.

    • Jorge Teixeira on 16 Agosto, 2012 at 15:38
    • Responder

    “Clique na imagem para aumentar” -> Este mito de que é correcto “traduzir” “Click” para “Clique” é algo que está completamente errado.

    “Click” não é um substantivo nem um verbo. “Click” é uma onomatopeia. Uma onomatopeia que pretende transcrever o “barulhinho” emitido pelo botão do rato quando recebe um toque. Como tal, para grafar essa onomatopeia em Português pode-se utilizar “clic” ou então “click” (o “k” nunca deixou de fazer parte do Português para termos importados de outras línguas).

    Esta onomatopeia *nunca* pode ser transcrita como “clique”. “Clique” tem duas sílabas e “clic” (ou “click”) apenas uma sílaba, o som não é idêntico: “Cli-que”/”clic”.
    “Clique” é diferente de “clic(k)”.

    O uso de “clique” é incorrecto, é uma importação das “traduções” apressadas típicas do Brasil e verdadeiramente insuportáveis (“alcoólatra”, “parabenizar”, “clique”…).

    Além de que estes termos são tão voláteis que nem vale a pena perder tempo a produzir uma adaptação Portuguesa. Com o advento das interfaces tácteis em inglês já se fala em “tap”. Provavelmente daqui a meia dúzia de anos já ninguém usa “click” porque os dispositivos do tipo rato já nem existem. E os senhores do “clique”, para esta nova onomatopeia, vão propôr o quê? “Tape”???!

  3. «Tapear» vai ser o que o Brasil há-de parir para esses novos «clics» (já agora à francesa que é mais «chic»). A par de «tapear», que já pariu por «indróminas»…

    « Que parece esta sandice ao leitor circumspecto, que tem o seu estomago na devida consideração, e crê que isto de poesia e poetas, de idealismo e espiritualismo, são o que realmente são: indróminas? Pois é verdade […]»
    Camillo Castello Branco, «Scenas da Foz», 2. ed., Porto, 1860.

    Claro que não é preciso ler Camilo para se não deixar indrominar com a necessidade de «tapear» em português. Mas lá que ajudava, ajudava.

    Cumpts. 🙂

    • J.Gervásio on 17 Agosto, 2012 at 11:29
    • Responder

    Eu tenho dúvidas.

    Em 1º lugar, está a ser dito que o português do Brasil é o único que pode ser entendido por todos, portanto, é uma espécie de plataforma comum do português, mais ou menos como o baixo-alemão está para todas as variantes do alemão, porque o bávaro, o alemão-suíço e o alemão-austríaco não são entendidos na maior parte da Alemanha. Não aceito.

    Em 2º lugar, dizer-se que a lusofonia serve apenas para Portugal expandir a sua cultura. Mas qual cultura? Nem sequer somos capazes de manter c e p na ortografia actual e temos cultura? Nós, que tomámos a iniciativa de dar um grande pontapé na ortografia clássica em 1911? Mas que cultura, onde?
    Outra coisa: ainda há quem ache que os africanos nos olham como pais ou bons patrões, como se lia nos livros em que eu e os meus filhos estudámos? Não olham nada, e sobretudo não olham se lerem que nos achamos seres superiores e admiráveis pelos ex-colonizados.

    Meu Deus, a bem desta causa, haja juízo.

  1. […] via «Lusofonias» [Duarte Branquinho, semanário "O Diabo", 14.08.12] – ILC contra o Ac…. […]

  2. […] Um saite português contra o Acordo Ortográfico. Dos artigos de lá, que eu li, o que mais me chamou a atenção e me levou a escrever esse texto foi esse aqui: http://ilcao.com/?p=7073 […]

  3. Portugez ow brazileyru?…

    Oji deskobrí un sayti ki nawn konnesia: http://ilcao.com/ Un sayti portugez kontra u Akordu Ortográfiku. Dus artigus di lá, ki ew lí, u ki máys mi xamow a atensawn i mi levow a eskrever esi testu foy esi akí: http://ilcao.com/?p=7073 Òl…

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