«Declaração de Amor à Língua Portuguesa» [Teolinda Gersão]

«E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.»

Teolinda Gersão faz uma declaração de amor à Língua portuguesa

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
11-06-2012

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.

No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.

No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?

A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.

E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

Teolinda Gersão, Junho, 2012

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Teolinda Gersão, reproduzido no “Observatório da Língua Portuguesa“.]
[Conhecimento do texto via Maria Alzira Seixo.

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9 comentários

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    • ana paula on 12 Junho, 2012 at 17:11
    • Responder

    Melhor é impossivel! Descrição completa da desordem no nosso português. Já agora, sou da velha guarda, e ainda escrevo: acção, secção, redacção, óptimo, etc.

  1. Excelente caricatura. A análise sintáctica é outro desastre nacional.
    Agora é que a depressão dos professores tem razão para correr ao médico mais próximo.

    A equipa que inventou tal nomenclatura estava a passar por efeitos estranhos… quanto ao orientador, estava lunático, cheio de fumos no espírito.
    Pergunto: o que podemos fazer para não deixarmos aos nossos descendentes esta vergonha? Por favor! Como agir? Nós comentamos e satirizamos, mas o excremento continua-diria Eça. Bem haja

    • Jorge Teixeira on 13 Junho, 2012 at 10:38
    • Responder

    “Pergunto: o que podemos fazer para não deixarmos aos nossos descendentes esta vergonha?”

    Emigrar.

    • Luís Ferreira on 13 Junho, 2012 at 16:45
    • Responder

    Ao Jorge Teixeira:

    1. – trabalhar para recolher assinaturas e encorajar outros a recolher assinaturas para arranjarmos umas boas dezenas de milhar. Se as levarmos à AR, talvez mudemos as coisas.

    http://ilcao.com/docs/ilcassinaturaindividual.pdf

    2. – desobedecer e continuar a usar o português pré-AO90.

    3. – embirrar e fazer todo e qualquer tipo de pressão sobre quem pensa que escreve de acordo com o acordo. A maior parte das pessoas nem sabe o que está a fazer. Fazem-no porque o processador de texto tem o conversor automático. São uns carneiros.

    4. – lutar, levantar a voz, tomar atitudes públicas, desmascarar, fazer do assunto tema principal de conversa.

  2. Sempre ouvi dizer que há 3 coisas que identificam um país, a saber:
    – A Língua
    – A Bandeira
    – A Moeda
    A moeda já foi, agora querem alterar a Língua Portuguesa!!!!!
    Aos 49 anos vou ter de voltar á escola primária e aprender a escrever português? só cá faltava mais esta… já agora mudem também a bandeira…

  3. Oh. Ele há muito que já mudaram a bandeira. Não vê a senhora as matrículas dos automóveis? É oficial. Cole uma bandeira portuguesa no lugar da rodela de estrelinhas se quere sentir a polícia a mostrar trabalho a Bruxelas.
    Portugal acabou. O que sobra são portugueses amestrados (vai ali um aos urros com uma coisa que agora chamam «seleção», raio o partam) e alguns teimosos que antes qubrar que torcer.
    Cumpts.

  4. Identifico-me perfeitamente com este texto. Sou professora de Português e vejo, todos os dias, como a nova gramática fabricada em gabinetes esterilizados e à prova de crianças dos nossos mui bem pagos ministros e secretários e secretários de secretários, todos os dias vai deixando os nossos filhos e alunos mais divorciados da nossa língua, dos nossos autores, da nossa história. Escrever é um risco, fazer testes e exames de Português uma aventura. Enquando isso, lá no país das maravilhas, que é cada vez menos o nosso país, alguns vão engordando com os fundos atribuidos aos departamentos do vamos lá fazer à pressa, e as editoras aplaudem. E nós deixamos …

    • maria bacelar on 23 Junho, 2012 at 17:01
    • Responder

    Pior que qualquer acordo ortográfico é mesmo a nomenclatura gramatical que obscurece em vez de iluminar. A questão dos complementos oblíquos em vez de serem nomeados de acordo com a sua indicação do tempo, do lugar, do modo, etc. faz perder por completo o sentido das coisas. Mas não é a primeira vez que senhores ou senhoras doutorados/as fazem destas habilidades obscurantistas dentro dos seus gabinetes: lembram-se da gramática generativa ensinada aos alunos dos 5º e 6º anos como se fossem estudantes de uma licenciatura de linguística?

    • Maria José Abranches on 24 Junho, 2012 at 17:40
    • Responder

    Dois aspectos que gostaria de salientar no âmbito desta discussão ( na minha qualidade de professora de Português):

    1.º Nada é pior do que o Acordo Ortográfico de 1990, que agora está a ser imposto em Portugal, designadamente no sistema de ensino e que, pouco a pouco, conforme já aqui foi várias vezes referido e documentado, não só vai destruindo a nossa língua, como a vai “apagando” (português.pt), da face da terra;

    2.º A promoção / imposição deste AO90 no sistema de ensino, nomeadamente na disciplina de Português, resulta também das “habilidades obscurantistas” (vd. Maria Bacelar) e criminosas de um feudo há muito instalado no Ministério da Educação e que se apropriou da língua portuguesa para dela fazer objecto das experiências laboratoriais de uns quantos adeptos de qualquer nova teoria linguística, pedagógica, didáctica ou outra! Sem respeito pela língua, mero pretexto para “outra coisa qualquer”, com total desrespeito pelas crianças e jovens cuja educação lhes foi confiadamente entregue!

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