Carta de António de Macedo ao SEC

Exm.º Senhor

Secretário de Estado da Cultura,

A propósito do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), li no Público de 25 de Abril deste ano, conforme se pode ver no seguinte local:
http://www.publico.pt/Cultura/a-crise-a-pirataria-e-o-acordo-ortografico-discutidas-na-abertura-da-feira-do-livro-de-lisboa–1543433

– que V. Ex.ª teria dito:

“Não há revisão. O acordo é um instrumento legal e foi ratificado por parlamentos de diferentes países. O que pode haver, e isso está consignado na lei, é a possibilidade de se fazerem acertos no Vocabulário Ortográfico Comum. Será apresentada uma versão beta, ainda durante este ano, e até 2014 estará encerrado. Repare, ainda nem sequer estão incluídas no Vocabulário Ortográfico Comum as contribuições de Angola e Moçambique. Nessa matéria é que há abertura. Agora o AO está em vigor.”

Ora, no mesmo jornal Público, de 29 de Fevereiro deste mesmo ano, V. Ex.ª admitia a possibilidade de “aperfeiçoamentos” e “correcções”:
http://www.publico.pt/Cultura/viegas-admite-aperfeicoar-regras-do-acordo-ortografico-ate-2015-1535754?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+PublicoRSS+%28Publico.pt%29

Muito gostaria de saber o que são esses novos “acertos” e a “versão beta”.

Demasiadas vezes têm sido denunciados por ilustres estudiosos da língua portuguesa os erros, as incongruências, os absurdos e as confusões que tem estado a provocar (no Ensino e não só) a aplicação desenfreada e incrítica (para não dizer inconsciente) do AO90.

Bem sei que V. Ex.ª não manda nada no Governo, mas talvez possa ter a amabilidade e a cortesia de me responder à seguinte dúvida:

Segundo o AO90, os Brasileiros podem continuar a escrever (como sempre escreveram pela reforma ortográfica brasileira de 1943), por exemplo: acepção, aspecto, conjectura, perspectiva, decepção, detectar, excepcional, tactear, retrospectiva, percepção, intersectar,concepção, imperceptível, respectivo, recepção, susceptível, táctico…

Em Portugal, com o mesmo AO90, seremos obrigados a escrever: aceção, aspeto, conjetura, perspetiva, deceção, detetar,excecional, tatear, retrospetiva, perceção, intersetar, conceção, impercetível, respetivo, receção, suscetível, tático…

Ora, a ideia não era uniformizar?

Será que os Brasileiros não se vão rir quando virem, em escritos de Portugal, aberrações como deceção, recetivo, perceção…?

Se, como dizia Bernardo Soares pela pena de Fernando Pessoa: “Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida”, então por que é que ao menos nestes casos em que ambas as ortografias, portuguesa e brasileira, eram idênticas, não se mantiveram idênticas as grafias das referidas palavras? Qual a vantagem de em Portugal essas palavras passarem a divergir violentamente da grafia portuguesa de 1945 e da grafia que continuará a vigorar no Brasil?!

Corremos o risco, com a aplicação do AO90, de a lingua portuguesa passar a ter três ortografias:

– No Brasil escreve-se e continuará a escrever-se, por exemplo: ativo, adotar, direção, correto, eletricidade, aspecto, perspectiva,concepção, respectivo, recepção, conjectura, etc.

– Em Portugal passa a escrever-se: ativo, adotar, direção, correto, eletricidade, aspeto, perspetiva, conceção, respetivo, receção,conjetura, etc.

– Em Angola e Moçambique, que não ratificaram o Tratado, continua a escrever-se: activo, adoptar, direcção, correcto, electricidade,aspecto, perspectiva, concepção, respectivo, recepção, conjectura, etc.

Na sua qualidade de escritor da língua portuguesa, senhor Secretário de Estado da Cultura, poderá dizer honestamente que isto não lhe causa nenhuma impressão?

Muito agradecia a bondade e a gentileza da sua prezada resposta.

Com os meus melhores cumprimentos

António de Macedo

Ex-cineasta, escritor, professor universitário
Doutorado em Sociologia da Cultura (FCSH-UNL)
http://en.wikipedia.org/wiki/Antonio_de_Macedo

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COMENTÁRIO DO REMETENTE — O Secretário de Estado da Cultura não respondeu a esta minha mensagem, e, sinceramente, nem eu esperava que o fizesse, por várias razões, entre as quais destaco duas.

Primeira — O distanciamente entre a governança e o chamado “povo” tem sido uma constante com tendência a acentuar-se.

Nos tempos salazarescos, o pensador e filósofo António Sérgio, inimigo declarado do regime do Estado Novo, já denunciava esse distanciamento que, se por um lado se devia ao cariz ditatorial do regime, por outro assentava em grande parte num fenómeno sociológico que hoje também se observa, e de uma maneira gritante: a governança, para se afirmar e consolidar, atende mais às “pedras mortas” das obras de fachada, ou do país virtual, do que às “pedras vivas do país real” (palavras de António Sérgio). Como consequência, nós, as “pedras vivas”, somos normalmente pisados porque apenas servimos como “pedras de calçada” para os bem-instalados pisarem nas suas viagens de negociatas e nas suas passeatas de pompa e circunstância.

Se é certo que vivemos em Democracia Constitucional, também é certo que a tendência da governança, na prática, é tornar-se cada vez mais autocrática e despótica — sirva-nos de exemplo, entre muitos outros noutras áreas, o método brutal, para não dizer selvagem, com que o AO90 está a ser imposto a uma Pátria inteira, por uma minoria surda a toda a lógica e a todo o bom senso porque, detendo o poder, só atende à gula dos lucros imediatistas.

Tenho observado que estas situações comportam geralmente três grupos (para além de uns poucos lúcidos que estão contra a instaladura e cujas vozes mal se ouvem): uma minoria de crápulas no topo da cadeia alimentar; um grupo bastante maior de oportunistas que aspiram tornar-se crápulas; uma larga base de carneirame acéfalo que aceita tudo o que vem de cima “porque sim”. É nesta vasta passividade acrítica que os primeiros alicerçam o poder que detêm.

Veja-se o êxito do perigosíssimo corrector Lince, que fácil e atractivo que é, carrega-na numa tecla, clique!, e já está: o texto fica “atualizado”! Que maravilha e que fácil! Por muito estranho que pareça, isto encanta de tal maneira a vasta camada não-pensante que aumenta de dia para dia o número de textos na Internet que o utilizam, para não falar na quantidade de editoras e de publicações que aderem cada vez mais a esta “evolução”.

Segunda — Apresentei vários exemplos, ao Secretário de Estado da Cultura, de palavras que em Portugal e no Brasil se escreviam da mesma maneira e que, como o AO90, passam em Portugal a escrever-se doutra, mantendo-se inalteráveis no Brasil. Por outro lado, há palavras que no Brasil se mantêm, e em Portugal passam a escrever-se como no Brasil (atual, direção, exceção, elétrico, objetivo, etc.).

Ou seja, iguala-se de um lado (atual, direção, exceção, elétrico, objetivo, etc.) e desiguala-se do outro, como nos exemplos que citei na minha mensagem ao SEC. No fundo eu estava perguntando, por outras palavras, o que é que lucrámos com isto, Portugueses e Brasileiros, perguntando também, implicitamente, se não seria mais simples deixar tudo na mesma — ao menos, já estávamos familiarizados com as igualizações e as desigualizações, em vez de termos de aprender outras novas sem nenhuma vantagem óbvia.

Só vejo uma resposta possível para esta dúvida, mas tão pobrezinha, mentalmente, que o SEC deve ter tido vergonha de a invocar, e que é o estafado e inconvincente apelo à fonética: no Brasil continua a escrever-se aspecto, perspectiva, concepção, recepção, etc. porque lá o “c” e o “p” se pronunciam. Ora, isto é uma falácia já por diversas vezes denunciada por distintos estudiosos da língua portuguesa: estamos perante um Acordo ortográfico, e não um Acordo ortofónico.

Como Português, não sei nem me interessa como é que os Brasileiros pronunciam as palavras, não estou no Brasil, estou em Portugal, e nem sequer vejo telenovelas brasileiras na TV. Por outro lado sei como escrevem, porque leio livros brasileiros e mantenho correspondência com amigos brasileiros. No caso de um Acordo “ortográfico”, a escrita é determimante, e querer basear esse Acordo num princípio “fonocêntrico” é absurdo por diversos motivos, entre os quais avulta o facto incontornável de a pronúncia da mesma palavra poder variar de país para país, de região para região e até de pessoa para pessoa. Eu, por exemplo — e outras pessoas que conheço — sempre pronunciei o “c” de trajectória (trâjèktória), mas o AO90 quer-me obrigar a escrever trajetória, que em bom português se pronuncia trâj’tória.

Por estas e por outras razões, podemos fazer as perguntas que quisermos que a governança, do alto do seu despotismo iluminado, jamais se dignará responder.

António de Macedo

___________________________________

[Conteúdos recebidos por email, directamente do autor, com autorização expressa para publicação.]

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5 comentários

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    • Joaquim Monteiro on 3 Maio, 2012 at 15:14
    • Responder

    Caro Sr. António de Macedo,

    É nestas ocasiões que sinto orgulho de ser Português! Quando, perante um asfixiante cinzentismo imposto por governantes oportunistas, impreparados para assumir os mais altos desígnios da Democracia e demais camarilha que se arrasta subserviente e cínica em seu redor – surgem manifestações de verticalidade das pessoas sérias do País – dos estudiosos, dos cidadãos preocupados, dos que mesmo perante a adversidade e a falta de espaço mediático, insistem – porque entendem ser seu dever -, auxiliar os demais cidadãos (grupo no qual me incluo) a reflectir, a partilhar, a comentar e a reagir a esta verdadeira devassa de um património tão vasto e rico.

    Pelo facto de não ter conhecimento suficientemente aprofundado das questões técnicas subjacentes a uma qualquer alteração da ortografia, não quer dizer que não tenha um entendimento mínimo dos efeitos práticos que as alterações impostas, envoltas em justificações torpes, produzem no nosso quotidiano e, tendo em conta certas pressões que adivinho, só posso temer o pior.

    De resto, na senda de um dado sr. Aníbal, então primeiro-ministro do meu País, que exibia com um quase indisfarçável orgulho há uns anos atrás, a sua ignorãncia, referindo que apenas lia cinco minutos por dia, o que mais se pode esperar?

    Bem haja pela sua carta, que revela o empenho de quem não se sujeita nem se conforma: uma inspiração para todos nós.

    Cordialmente,

    Joaquim Monteiro

    • Maria José Abranches on 3 Maio, 2012 at 16:37
    • Responder

    Caro Professor António de Macedo,

    Muito obrigada pela sua tomada de posição e pela acutilância das suas palavras, que subscrevo inteiramente!

    E, já que os nossos governantes se dão ao luxo de exprimir opiniões antes de chegarem ao poder, para depois se auto-renegarem uma vez lá chegados, porque deixam de ter “opiniões” (!!!), permito-me fazer um apelo aos intelectuais deste país, em especial aos professores universitários: por favor, mobilizem-se, denunciem esta situação, combatam este “desastre nacional”, unam-se, independentemente das simpatias políticas e dos interesses imediatos de cada um, por mais respeitáveis que possam ser!

    Vejo frequentemente debates franceses, com os mais diversos intervenientes do universo da política, do saber e da cultura: é constante a preocupação com a preservação da língua e o conhecimento da História de França, pelo que isso implica em termos de definição da própria identidade nacional. E é também cada vez mais audível a crítica às pedagogias que, nos últimos anos, desleixaram esses aspectos, verdadeiramente estruturantes para qualquer ser humano.

    “Como poderíamos defender o francês fora das nossas fronteiras, se não o defendemos entre nós? Esse é o problema fundamental. A tarefa mais urgente é salvar a nossa língua do naufrágio. Desculpar-me-ão a ingénua simplicidade destas palavras: ser francês hoje é saber falar, escrever e compreender o francês. Ser francês hoje é também, sem dúvida, querer ser francês. É pertencer a uma colectividade de que nos orgulhamos porque a conhecemos. (…) O futuro só tem sentido porque sai dum passado. Ser francês hoje é ser fiel ao passado para melhor dominar um futuro que será completamente diferente.” (Jean d’Ormesson, de l’Académie française, “Saveur du temps”; traduzido por mim).

  1. Caro Sr. Joaquim Monteiro
    Muito obrigado pelas suas palavras, que são um estímulo para todos quantos, como eu e muitos de nós, se revoltam contra a prepotência de quem se deixou cegar pelo poder e, quiçá, inebriar pela miragem das vantagens (de vária ordem) que espera vir a lucrar.
    Trata-se de um assunto muito sensível porque, se há Portugueses e Brasileiros que estão irmanados nesta luta, por outro lado temos de ter em atenção que corremos o risco de resvalar para um deplorável neocolonialismo luso-brasileiro, com tendência para esquecer, senão mesmo ignorar, os restantes seis países de língua oficial portuguesa que geralmente só são invocados para estar presentes em reuniões da CPLP e assinar as actas e as declarações finais.
    Isto é grave, porque se há oito países na CPLP, todos devem ter uma palavra por igual, sem irem a reboque de uns quantos corvos que têm a habilidade de grasnar mais alto.
    Daí o meu apelo, para não cairmos no logro dos mais ou menos milhões de habitantes que este ou aquele país exibem, mas sim que saibamos fazer uso, correctamente (sobretudo neste caso do AO90), do “bom senso” e do “bom gosto” que Antero de Quental, tão lucidamente, invocava em 1865 na sua explosiva Carta a António Feliciano de Castilho.

  2. Prezada Senhora Maria José Abranches
    Compartilho inteiramente, e apoio, o seu apelo à classe docente deste país, dos ensinos básicos, secundários e universitários, pois dela depende muito — senão mesmo tudo — quanto concerne à importância da escrita e da correcta adequação entre o que se pensa e o que se transmite, quer oralmente quer por escrito.
    Infelizmente parece que os professores, em vez de reagirem em massa contra a monstruosa aberração do AO90, limitam-se a tomar iniciativas individuais de denúncia, sem dúvida louváveis mas na prática pouco eficazes por lhes faltar o amparo duma larga base de incentivo e apoio.
    Tenho ouvido professores queixarem-se que os sindicatos de professores evitam abordar o assunto do AO90, mantendo-se numa retraída abstenção em vez de promoverem uma ampla discussão aberta. Parece-me estranho mas não comento, porque reconheço que me faltam dados e informações para o fazer.
    Um dos casos mais lamentáveis é, por exemplo, o da Universidade de Coimbra, verdadeiro símbolo nacional, fundada em 1290 por D. Dinis, sendo a mais antiga de Portugal e uma das mais antigas do mundo.
    A página oficial da Universidade de Coimbra na Internet é uma desencorajante manta de retalhos, lá se encontram textos onde se lê “projectos”, “actividades”, “director”, etc., a par de outros onde abundam coisas como “objetivo”, “atividades letivas”, “atualizadas”, etc.
    Considero-me um espírito aberto e não sou contra o eclectismo, mas confesso que isto me deixa um pouco desorientado.

    • Elizabeth Pereira Gabas on 1 Julho, 2012 at 5:49
    • Responder

    Citando o Caríssimo Professor António Macedo, a quem, como modesta apoiante literalmente subscrevo-me…”mas sim que saibamos fazer uso, correctamente (sobretudo neste caso do AO90), do “bom senso” e do “bom gosto” que Antero de Quental, tão lucidamente, invocava em 1865 na sua explosiva Carta a António Feliciano de Castilho”…
    A propósito, aqui tem a carta em seu escrito original (uma deliciosa maravilha!!!)

    http://books.google.com.br/books?id=a64RAAAAYAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

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