«Um Estado de torto» [V.G.M., DN]

2. A nossa língua tão acrisoladamente dinâmica, que se mais mundo houvera lá chegara, teve há poucos dias mais uns vislumbres de triunfal expansão. O Governo admitiu a hipótese de Portugal passar a exportar os seus tão habilitados professores para os quatro cantos do mundo, e, em especial, para as Áfricas e para os Brasis.

Parece todavia que esses ingratos países, aos quais nos tínhamos dignado dar a língua, a independência e a razão de ser, não apreciaram a oferta por aí além. E terão feito saber que passam bem sem o magistério assim prestimosamente disponibilizado de tantos agentes pedagógicos, tão lastimáveis quanto impreparados, ministrado naquela que, com pouca corrupção e alguma hiperbólica fantasia, os deuses costumavam crer que era a língua latina.

Foi uma atitude deveras displicente, tomada não apenas na quadra natalícia que atravessamos, mas numa ocasião em que se proclama, com base nos mais acurados estudos especializados em metafísicas do bláblá, que a língua lusitana, essa “última flor do Lácio”, só ela, imagine-se, vale nada menos do que 17% do PIB. Mas compreende-se:
Nem Angola nem Moçambique estão interessados em professores que se ponham a ensinar criancinhas e adultos analfabetos a escrever grafias suculentas como “perceção”, “receção”, “espetador”, “precetor”, e mais coisas assim, porque nos seus territórios nacionais está oficialmente adoptada a ortografia portuguesa e não um reles enxovalho para a língua comum.

Quanto ao Brasil, com todas as divergências já implicadas pela ortografia brasileira, o saudável país irmão também não está interessado em que as turmas escrevam “perceção”, “receção”, “espetador”, “precetor”, e coisas assim, que lhe desfiguram a maneira de escrever e de falar.

O resultado está bem à vista: o status quo ortográfico, no universo da língua portuguesa, vai manter-se com três grafias oficiais e divergentes: a portuguesa propriamente dita, a vigorar plenamente em Angola e Moçambique; a brasileira propriamente dita, institucionalizada e praticada no Brasil desde há décadas; e, last but not least, a imbecil, utilizada e imposta em Portugal por políticos que não sabiam nem sabem o que estão a fazer, que atropelaram a Constituição e a Lei e que só fazem jus ao qualificativo de irresponsáveis sem escrúpulos.

Duas conclusões neste fim de ano tão nefasto. O direito à greve não é um direito absoluto e o Acordo Ortográfico não está em vigor. Enquanto estas coisas não forem corrigidas, Portugal continua a ser uma vergonha sindical, uma vergonha cultural e um estado de torto.

Vasco Graça Moura

[Transcrição parcial de crónica da autoria de Vasco Graça Moura publicada no Diário de Notícias de hoje, 28.12.11.]

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1 comentário

    • Tomás Rosa Bueno on 31 Dezembro, 2011 at 21:20
    • Responder

    Mais um artigo bem escrito do Vasco Graça Moura contra a PNO, apoiado em motivos sólidos, apesar da fantasia generosa de que Portugal tenha dado às suas ex-colônias, além da língua, a independência.

    Que me lembre, com exceção da brasileira que na verdade foi um acordo entre irmãos, a independência dos países africanos teve de ser arrancada de Portugal à custa de muito sangue e miséria, dos dois lados.

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