«Taprobana, meu» [Nuno Pacheco, Público]

Disse-se aqui, na semana passada, que nem Saramago escapava ao acordo ortográfico. Não é verdade. Saramago foi, talvez, um pioneiro das adesões post mortem. Agora vêm outros, aliás com um argumento bastante singelo: o de que “a língua está sempre a mudar”. E assim Camões, Gil Vicente, Camilo e outros mais que se verá estão a ser implacavelmente traduzidos para a novilíngua nacional para venda a preços módicos, nas bancas já a partir de amanhã. O anúncio é bastante perspicaz. Para dar exemplo de que a língua “está sempre a mudar”, apelando ao potencial leitor que “não fique para trás”, alinham-se estes tratos, ao correr das épocas: “Vossa senhoria, vossa mercê, vossemecê, você, tu, pá, coisinho, meu”. E garante-se que na “coleção klássicos”, “a primeira coleção que respeita o novo Acordo Ortográfi co”, “recomendada pelo Plano Nacional de Leitura” e com “revisão atualizada pela Associação de Professores de Português”, hão de estar “26 obras fundamentais da literatura portuguesa”. Enfim: “Os clássicos como nunca os leu”.

Com K, claro. Isto não respeita lá muito a promessa dos acordistas quando garantiam que na literatura cada um havia de escrever como bem lhe apetecesse, que o acordo era para os políticos, coitados, que bem sofriam a tentar fazer comunicados conjuntos sem êxito, e para as escolas, para as pobres das criancinhas, coitadinhas, que tinham muita dificuldade em aprender. Pois esqueceram-se de dizer que essa tal liberdade de escrita só era válida para os vivos. Esses sim, podem escrever como lhes dá na gana, valter hugo mãe decidiu passar a Valter Hugo Mãe, resgatando as maiúsculas, e ninguém tem nada com isso. Mas Saramago já não foi a tempo. Luís Vaz muito menos. Por isso serão agora “atualizados”, para jamais sabermos como foi a sua envelhecida escrita. Por isso ouve bem, tu, pá, coisinho, meu: vais deixar de ler aquelas chatices monumentais com palavras difíceis porque o “acordês” está aí para te salvar. Quem sabe se limando as consoantes mudas e outras atrapalhações da escrita não lhes dá também para limar os “pera”, os “fermosa”, os “inda”, os “assi” e demais velharias, isto só para falar no Luiz Vaz, felizmente morto e “atualizável”. Porque se formos ao Gil Vicente, ao Eça, ao Camilo ou mesmo ao Pessoa, então tu, pá, coisinho, meu, também ganharás com este avanço civilizacional.

Não se percebe, aliás, por que temos de ler de Camões pieguices como “alma minha gentil que te partiste” quando tu, pá, coisinho, meu, lerias bem melhor “garina minha baril que te basaste”. Por que razão continuam a maçar-nos com os clássicos se os “klássicos” são muito mais “atuais”? E se têm o carimbo das altas individualidades e tudo? Secretaria de Estado, Instituto Camões, Biblioteca Nacional, Associação de Professores de Português, Plano Nacional de Leitura? Será esta gente doida? Será esta gente inculta? Como poderia? Não fiquem é por aqui, por favor. Peguem nas envelhecidas traduções que por aí há e “atualizem” tudo: Platão, Homero, Dante. E já viram a Bíblia, que “desatualizada” está?

Sejam rápidos. Havemos de ouvir, nas ruas: “Taprobana, meu!” “Taprobana? Tá-se!”

Nuno Pacheco, jornalista

[Transcrição integral de crónica da autoria de Nuno Pacheco publicada hoje, 31.10.11, no suplemento P2 do jornal Público. Link disponível apenas para assinantes.]

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6 comentários

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  1. Pois…

  2. E mais não há dinheiro.
    Cumpts.

  3. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra…

    • Guida Aguiar on 31 Outubro, 2011 at 20:00
    • Responder

    Com humor, uma crítica ao ponto crítico a que «isto» chegou,,,não se pode ser objector de consciência a este objecto da inconsciência nacional ? Parabéns ao autor

    • Paulo Ramos on 1 Novembro, 2011 at 2:14
    • Responder

    Texto excelente que põe a nu as incongruências de um (DES)acordo que já está a corromper os clássicos da nossa pobre literatura. Há alguém que está a tirar proveitos desta imbecilidade imposta à revelia do Povo.

    • Maria José Abranches on 2 Novembro, 2011 at 12:13
    • Responder

    Parabéns ao “Público” e obrigada, mais uma vez!

    Indigna-me profundamente que haja professores de Português, meus colegas, que aceitem e até aprovem este Acordo Ortográfico, que tudo condena e desaconselha do ponto de vista linguístico e que viola brutalmente a nossa língua materna!
    Como professores, temos a suprema missão de estudar, conhecer, respeitar e transmitir às gerações mais novas este património colectivo nacional, que herdámos, partilhamos, nos habita e nos estrutura. Os professores não estão ao serviço das editoras!
    Quanto ao papel desempenhado pela Associação de Professores de Português – que se assume como a nossa única, esclarecida e fidedigna representante – na conivente e cada vez menos silenciosa promoção deste AO, considero-o inadmissível e escandaloso! A rede de interesses que mina o Ministério da Educação e Ciência está intacta e segura: não mudou nada com o novo governo!

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