O Mostrengo Lince [Madalena Homem Cardoso]

O “corretor” lince que eu não quis instalar
Varreu o ecrã, ergueu-se a voar;
À roda do texto veio três vezes,
Roubou três letras a chiar,
E disse: «Quem ousa desafiar
As minhas razões que nem eu entendo,
Meu lápis invisível infecundo?»
E ao leme da tecla eu disse, tremendo:
«Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»

«De quem são as letras de que troço?
De quem o linguajar que leio e ouço?»
Disse o “corretor” lince, e arrotou três vezes,
Três vezes arrotou imundo e grosso.
«Quem vem escrever como não posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
Instalado no medo, mas do nada oriundo?»
E ao leme da tecla tremendo, eu disse:
«Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»

Três vezes do teclado as mãos ergui,
Três vezes ao leme de mim escrevi,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Tremo com fúria, sou mais do que eu:
O que este Povo escreve não é teu;
Mais que o raivoso lince que me a alma pisa
Mutilando palavras furibundo,
Mandam as raizes que erguem a divisa,
Séculos de Língua Portuguesa no Mundo!»

Madalena Homem Cardoso

«Versão de “O MOSTRENGO” (de Fernando Pessoa), dedicada ao “CORRETOR”/”CONVERSOR” LINCE»
(Publicado no Facebook em 26.10.11.)

Foto: recorte de original publicado no blog “Fotos Incompletas”.

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5 comentários

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    • Vitriólica C. O. R. Rosiva on 27 Outubro, 2011 at 17:25
    • Responder

    Subscrevo inteiramente! (ao contrário do AO90)
    (um belíssimo texto!)

    • Eduardo Guerra on 27 Outubro, 2011 at 22:32
    • Responder

    original ideia!…. estou totalmente de acordo

  1. Agradável surpresa, temo que fora do alcance dos vendilhões promotores do AO!!

  2. A propósito da utilização que fiz deste poema, convém fazer aqui uma CITAÇÃO DE FERNANDO PESSOA:
    “A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual.
    O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compeli…r-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.
    No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite.
    Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.”
    Fernando Pessoa in “Pessoa Inédito”
    (ed. com orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes; Lisboa: Livros Horizonte, 1993)

    Envio um grande abraço a todos os “resistentes ortográficos”! :)))

    • Celene Revez on 18 Maio, 2012 at 18:41
    • Responder

    Só hoje “dei” com este seu bonito e agradável poema. Tomei a liberdade de partilha-lo no meu FB e agradeço que me considere uma “resistente ortográfica”.
    Obrigada.

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