«O reino da insensatez» [Vasco Graça Moura, DN]

Portugal vive em sério risco de bancarrota. A carga fiscal esmaga toda a gente. As pensões de reforma estão a ser gravemente afectadas. O Serviço Nacional de Saúde e a ADSE vão-se ressentir da crise em medida incalculável. O mesmo se diga do sistema de ensino e do funcionamento das escolas. O desemprego não pára de aumentar. O endividamento externo e as taxas de juro também não.

Todos os dias surgem novos problemas que parecem sem solução. É urgente dinamizar a economia, mas a inevitável palavra de ordem dos governantes é economizar o mais possível nas despesas do sector público e levar o sector privado a poupar o mais possível no tocante a hábitos de consumos incomportáveis…

Talvez já tenhamos todos perfeita consciência da série muito extensa e dramática de conflitualidades, de empobrecimentos, de custos, de asfixias financeiras, de apertos de cinto… Nada poderá ser como dantes e por muito tempo nem sequer se poderá viver numa mediania decente.

Nesse quadro de catástrofe anunciada, é preciso afirmar mais uma vez, alto e bom som, que esta não é a altura de aplicar em Portugal uma coisa obscena chamada Acordo Ortográfico!

Nem a economia, nem o desenvolvimento, nem a aprendizagem escolar, nem a qualificação, nem a formação profissional, nem o combate à crise, lucram seja o que for com ele. Pelo contrário.

Essa aplicação traria custos terríveis: as famílias teriam de gastar rios de dinheiro em novos livros, manuais, dicionários e outros materiais escolares; tanto professores como alunos sentiriam os maiores problemas de adaptação; os custos sociais, por exemplo, no tocante aos idosos e até a certos deficientes, seriam igualmente graves; os editores (e não apenas os do livro escolar) veriam os seus stocks inutilizados; quanto aos restantes custos económicos, o melhor é nem falar.

O desperdício seria chocante: iriam para o lixo milhões e milhões de páginas que servem perfeitamente para o ensino!

Eu penso mesmo que será de fazer chegar à troika, ou aos seus delegados que se deslocam regularmente a Portugal, um dossier demonstrativo desta situação escandalosa e perdulária.

Em 8 de Abril de 2009, a Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República aprovou por unanimidade o judicioso relatório de Feliciano Barreiras Duarte, mas dessa situação não foram tiradas consequências práticas, políticas, jurídicas ou pedagógicas.

Isto é tanto mais grave quanto é certo que o Acordo Ortográfico não se encontra em vigor. Só por aberrante raciocínio jurídico poderia aceitar-se o contrário, uma vez que o documento não foi ratificado nem por Angola nem por Moçambique, pelo menos. Logo não produz efeitos na ordem interna de nenhum dos oito países subscritores.

Não vale absolutamente nada um protocolo laboriosamente parturejado na CPLP, para forçar os países que não querem acordo nenhum a “engolirem” o dito, lá porque houve três ratificações.

Esse protocolo também não foi ratificado. E há onze anos que esses países mostram que não querem o acordo. Lembram-se de que, por cá, havia uns responsáveis da Cultura que há uns tempos andavam a anunciar triunfalmente a ratificação iminente dele por Angola e Moçambique? Era já para dali a meia dúzia de dias…

Em Portugal houve, da parte das instituições políticas, uma espécie de onanismo abortográfico, tão lamentável quanto apressado, que nos cobre de ridículo ante esses países. E eles estão a fazer mais pela defesa da nossa língua do que nós.

A “aplicação” do Acordo a que se vem assistindo em Portugal viola nada mais nada menos do que… o próprio Acordo, uma vez que se está a abrir a porta à divergência ortográfica ao abrigo do delirante princípio das facultatividades.

Foge-se à norma por aplicação absolutamente insensível e estúpida da base IV do documento: no Brasil nunca se escreveu aceção, perceção, deceção, receção, espetador, rutura, perentório… Basta consultar um qualquer dicionário brasileiro.

Em Portugal está-se a adoptar uma série deplorável de dislates e pelos vistos pretende-se que eles passem rapidamente para as escolas, acelerando a desaprendizagem da ortografia.

Toda esta trapalhada sem nome significa que é preciso pôr cobro a um crime contra a língua portuguesa.

E para além disso, numa altura em que se fala tanto em conter despesas, não suspender imediatamente a aplicação do Acordo Ortográfico seria consolidar duplamente o reino da insensatez!

Vasco Graça Moura

[Transcrição integral de artigo da autoria de Vasco Graça Moura publicado no jornal Diário de Notícias de 29.06.11.]

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10 comentários

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    • Maria José Abranches on 29 Junho, 2011 at 13:05
    • Responder

    Mais uma vez, o incansável Dr. Vasco Graça Moura dá a cara e a voz em defesa da nossa língua, contra este espúrio Acordo Ortográfico! Pelo seu empenho, que não esmorece, e pela sua coragem – e não é fácil ter coragem neste país – a minha profunda gratidão!
    Lembro-me dum debate na RTP, creio que em 1991, em que participou, assim como a Dr.ª Maria Leonor Carvalhão Buescu, ambos denunciando a insanidade e os perigos deste Acordo. Quis saber mais. Adquiri então fotocópia do Diário da República – I Série-A, N.º 193 – 23-8-1991, página 4370 a 4388, onde está publicado o Acordo, a Resolução da Assembleia da República n.º 26/91 e o Decreto do Presidente da República n.º 43/91.
    Li, analisei e continuo a reler tudo isso, coisa que a grande maioria dos que defendem o Acordo não fez certamente. Por isso se permitem dizer sobre ele as maiores aberrações.

    Bastaria ler, no Anexo II (pp. 4383-4384), o ponto 4.2 – Justificação da supressão de consoantes não articuladas [Base IV, 1.º, b)] para ficar com uma ideia do rigor científico que presidiu à elaboração deste documento… Destaco apenas duas alíneas:
    « e) Uma outra razão, esta de natureza psicológica, embora nem por isso menos importante, consiste na convicção de que não haverá unificação ortográfica da língua portuguesa se tal disparidade não for resolvida;»
    « f) Tal disparidade ortográfica só se pode resolver suprimindo da escrita as consoantes não articuladas, por uma questão de coerência, já que a pronúncia as ignora, e não tentando impor a sua grafia àqueles que há muito as não escrevem, justamente por elas não se pronunciarem.»

    Aproveito para chamar a atenção para outro aspecto revelador do “rigor” com que o Acordo foi feito e também do cuidado com que foi assinado, aprovado e ratificado, por quem de direito.
    No 2.º parágrafo do Artigo 4.º e último do Acordo diz-se:
    «(…) aprovam o presente Acordo, redigido em língua portuguesa, (…)»
    Ora, o Anexo I, que apresenta as XXI bases do Acordo, está escrito com uma ortografia à data (1990) inexistente, visto que aplica as normas do próprio Acordo!…
    Melhor: a Rectificação n.º 19/91, da Assembleia da República, de 15 de Outubro de 1991, vem corrigir as “inexactidões” da Resolução da A. da R. n.º 26/91, entre as quais se encontra o ponto 8 do Anexo II, cujo título é então modificado, acrescentando-se ainda um “terceiro parágrafo”:
    «8- Estrutura e ortografia do novo texto» (antes não constava o termo “ortografia”);

    «Por último, dado que melhor se pode compreender e aprender um extenso Acordo como o presente através de um texto integral na nova ortografia, optou-se por que o texto do próprio Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) desde já a utilizasse.» (terceiro parágrafo acrescentado).

    Dá trabalho ler, analisar, compreender, é verdade! Mas, numa sociedade altamente alfabetizada como a nossa, é o único meio de sabermos para onde vamos…

  1. Existe uma desorganização no serviço público. Isso custa e muito.Esse Acordo Ortográfico é uma bagunça sem limites.

  2. Muito bom o comentário do Vasco Graça Moura.

    • Fátima Rocha on 29 Junho, 2011 at 16:02
    • Responder

    Gostei do comentário do Vasco Graça Moura e subscrevo a não concordância com o acordo ortográfico

  3. SALIENTE-SE DO TEXTO EM QUESTÃO:
    Essa aplicação traria custos terríveis: as famílias teriam de gastar rios de dinheiro em novos livros, manuais, dicionários e outros materiais escolares; tanto professores como alunos sentiriam os maiores problemas de adaptação; os custos sociais, por exemplo, no tocante aos idosos e até a certos deficientes, seriam igualmente graves; os editores (e não apenas os do livro escolar) veriam os seus stocks inutilizados; quanto aos restantes custos económicos, o melhor é nem falar.

    (…) Reflectindo um bocado nestas palavras, apenas me pergunto qual é o pensamento coerente deste Ministério da Cultura/Educação, em implementar um Acordo Ortográfico que tem como medida sã (?) a inutilização de stocks de livros já existentes para reinvestir (numa época de grave crise económica) em novos livros que para além de mal escritos irão trazer um custo suplementar deveras pesado a inúmeras famílias Portuguesas.

    • João Carlos Rodrigues on 11 Julho, 2011 at 15:49
    • Responder

    “Stocks?”
    O mais incrível é ver alguém que se declara “defensor” da língua portuguesa usar de anglicismo ao defendê-la.
    A propósito, após as últimas mudanças ortográficas, quantos estoques de livros em bibliotecas e livrarias foram queimados ou simplesmente inutilizados?

    Cumpts

  4. Incrível é ver alguém tão crítico dos estrangeirismos achar a ILCAO um desperdício.

    • Alves Pereira on 15 Julho, 2011 at 11:33
    • Responder

    Caro Graça Moura: que a sua vontade indómita nunca lhe feneça; é bom saber que há gente da sua estatura intelectual que pensa como eu. O meu bem-haja.
    Entretanto, pergunto-me: porquê esta cruzada do demo contra a Língua Portuguesa? que interesses obscuros estarão por trás de tudo isto? sim que é de dinheiro e não de cultura que se está a falar… quem ganha com tudo isto? procurem os abutres e terão uma resposta, quiçá inesperada… ou talvez não.
    Resta-me a esperança de ver o Sr. Primeiro-Ministro ser coerente com o que tem dito a este respeito, e acabar de vez com esta ignomínia.

    • Joaquim Faias on 15 Julho, 2011 at 12:07
    • Responder

    Bravo!

  5. Ainda bem que hà individualidades que se revoltam a esta tourada chamada AO. OBRIGADO Dr. por esta posição de patriotismo. Não vejo a Inglaterra passar a escrever americano; a França a escrever como no Quebeque etc. Na realidade os fenomenos do Entroncamento não fazem parte so desta vila mas do paìs inteiro. Quem foram os TRAIDORES da lingua de Camões que assinaram esta M…

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