“Para sempre uma preposição”

Alto e pára o baile!

Este é um caso excepcional. Não integrará o índice cAOs, pela simples (e nada surpreendente) razão de que não existe uma única ocorrência de “para para” na Internet; ou, melhor dizendo, as ocorrências de “para para” que se podem encontrar são todas de “explicações”, qual delas a mais esfarrapada, para tentar enfiar aos portugueses, goela abaixo, essa inacreditável treta de que expressões como “para para pensar” ou “alto e para o baile”, por exemplo, fazem alguma espécie de sentido.

Na primeira imagem temos, com “explicações” a tiracolo e tudo, a tese acordista das 2.ªs, 4.ªs e 6.ªs Feiras: ah, e tal, o contexto “distingue”.

Na imagem seguinte, igualmente com penduricalhos “explicativos”, podemos ler (com alguma dificuldade, porque é preciso não desatar a rir) a tese acordista das 3.ªs, 5.ªs e Sábados: ah, e tal, o contexto “evita a confusão” mas afinal não era preciso evitar a confusão porque não sei quê, há ali uns acentos que não são necessários, ou assim, se não é disso por outra coisa será, depois se vê, seja o que Deus quiser, ámen, adiante.

Na terceira imagem temos uma espectacular demonstração de como são mesmo esfarrapadas as “explicações” acordistas e de como as suas duas teses (das quais descansam ao Domingo, que é Dia Santo) não passam de tergiversações inconsequentes, verborreia tola travestida de paleio técnico a ver se com tais patranhas enganam alguma alminha mais distraída.

O facto é que no Brasil, tanto na “norma culta” como na “inculta”, pronuncia-se a preposição “para” e a forma verbal “pára” exactamente da mesma maneira, com os mesmos exactos sons. Porém, a preposição já caiu em desuso (ou seja, esta já não é uma “consagração pelo uso”, é uma “consagração pelo desuso”) e por isto mesmo os brasileiros eliminam a “confusão” escrevendo como falam. Não há “para para” coisa nenhuma, o que há é “para pra”.

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parapara
«Assim, a forma verbal “para” deixa de ter acento gráfico, embora conserve a vogal inicial aberta e passa a ser o contexto a distingui-la da preposição simples “para”.

Ora, regra geral, as palavras portuguesas são graves e, por isso, não necessitam de acento gráfico. Antes do novo acordo, acentuavam-se quase todas as que tinham uma correspondente homógrafa, de modo a serem distinguidas. Agora é apenas o contexto que as distingue (…)»
Jornal de Notícias

paraparaciberduvidas
«O sentido da regra é a simplificação. Pára tem tido acento para não se confundir com a preposição para, mas a verdade é que o contexto normalmente evita a confusão.

Tem de aceitar que as frases que apresenta são todas agramaticais, se considerarmos a grafia para sempre uma preposição.»
Ciberdúvidas

parapra
“Blog” O Divã Dellas

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2 comentários

    • Rui Valente on 3 Março, 2015 at 23:46
    • Responder

    O argumento do “contexto” é particularmente irritante. Lembro-me sempre do sorriso condescendente de Edite Estrela num qualquer programa de televisão: “Tira-se pelo contexto”, dizia ela. E o seu sorriso só podia significar uma coisa: “não é evidente?”.

    O que parece ser evidente é que ter livros editados é uma coisa, ser-se escritor é outra. Um escritor que se preze sabe que algo está mal quando é preciso “tirar pelo contexto”. Obrigar o leitor a debater-se com o signo para extrair um significado é sempre um sinal de escrita descuidada. Pode ser má tipografia ou má caligrafia… mas também pode ser má ortografia, pois claro.

    Pode um acordo ortográfico que potencia a asneira ser um bom acordo?

  1. Eis dois cabeçalhos que gostaria de ver nos jornais:

    1. Apalpadela para a condescendente Edite Estrela

    2. Ninguém para visitas a José Sócrates

    Tira-se pelo contexto… não é verdade? Se calhar nem lendo o resto das notícias.

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