«Lição de casa» [Antônio Delfim Netto, “JC Net” (Brasil), 09.02.13]

logo_novoJCUma geração inteira sem fazer o “dever de casa” é como se conta a história surreal do Acordo Ortográfico Brasil-Portugal, firmado em Lisboa em 16 de dezembro de 1990, que deveria ter sua vigência plena a partir de 1 de janeiro de 2004, sucessivamente adiada para 2009, depois 2012 e agora, “finalmente”, mais uma vez, programada para primeiro de janeiro de 2016!

Para brasileiros e portugueses, não é novidade a inquestionável alegria que toma conta de todos os governos ao decidirem patrocinar projetos de singular visibilidade, geralmente de aparência gratuita. Não tenho competência para avaliar se o Acordo Ortográfico é uma necessidade e se vai estimular o enriquecimento linguístico ou o florescimento maior da já excelente literatura brasileira e portuguesa.

O que desejo é chamar a atenção para o que ocorre quando os governos (do Brasil e de Portugal) são estimulados a “meter a mão” numa tarefa que deveria ser deixada às respectivas Academias de Letras. Quando estas (se isso for possível antes do fim do Mundo) chegarem a um compromisso e publicarem o Vocabulário Ortográfico Universal da Língua portuguesa, adeririam a ele, com o tempo e se o desejassem, todos os Estados da comunidade lusófona.

Diz o Acordo de 1990: 1º) até 1º de janeiro de 1993 os Estados signatários produzirão o vocabulário ortográfico comum e 2º) em 1º de janeiro de 1994 ele entrará em vigor em todos eles. Como era de se esperar tudo isso era apenas encenação e conversa! Em setembro de 2008 (como nada tinha acontecido) o presidente Lula assinou um decreto determinando que em 1º de janeiro de 2009 o acordo começaria a funcionar e que em 31/12/2012, as duas grafias seriam uniformizadas. Gastou-se um rio de dinheiro público (foi publicado um dicionário escolar e um Vocabulário Ortográfico, ajustou-se a escrita de livros, jornais etc.). Produziu-se apenas uma enorme confusão e uma bem vinda barreira de críticas pertinentes.

Vou tomar emprestada a imagem construída pelo professor de literatura Hélio de Seixas Guimarães, da Universidade de São Paulo, em artigo no caderno “EU, Fim de Semana” , edição de 1/3 de fevereiro do jornal Valor Econômico, quando faz uma abordagem muito interessante sobre as “estranhezas e desconfianças recíprocas” que existiram ao longo da história das relações linguísticas e editoriais entre Brasil e Portugal. Comentando o destino reservado às publicações de obras de escritores brasileiros em Portugal (dentre os quais o grande Machado de Assis), diz o professor que muitas vezes “elas descreviam a trajetória das pedras lançadas ao poço: um pequeno ruído seguido de um silêncio sepulcral”.

É algo próximo da trajetória do desvalido projeto do Acordo Ortográfico. Felizmente a presidente Dilma Rousseff em boa hora adiou (pena que não “sine die”) mais uma vez, para 1º de janeiro de 2016 (depois de uma geração…) o “Des(Acordo)” nascido de genitores duvidosos e “colocado na roda” em Lisboa, nos idos de 1990! É o que resulta da ação dos Governos quando insistem em meter a mão no que não devem.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

[Transcrição integral de artigo da autoria de Antônio Delfim Netto publicado no “Jornal da Cidade” em 09.02.13.]

[Via Paula Blank]

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