«Dilma, rasgue o acordo ortográfico» [JP Coutinho, rádio Folha (Brasil)]

DE LISBOA

Como falante e escritor da língua portuguesa, o colunista da “Ilustrada” João Pereira Coutinho pede à presidente Dilma Rousseff que rasgue o novo acordo ortográfico. Para ele, esse acordo é fruto do deslumbre de alguns acadêmicos. Se os povos de língua castelhana ou os povos anglosaxofônicos não necessitam de um acordo ortográfico para nada, é ridículo que se imponha à língua portuguesa uma uniformização artificial.

 

 
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[transcrição]
«Foi notícia em Portugal a intenção do governo brasileiro de adiar para 2016 a entrada em vigor do acordo ortográfico. E foi notícia por uma razão básica: é que desde Janeiro deste ano de 2012 que o acordo já vigora oficialmente em Portugal, nas escolas públicas e nos documentos oficiais. Será que o Brasil se prepara para deixar Portugal sozinho na vigência do acordo? Esta pergunta adquire outra relevância quando se sabe que o adiamento no Brasil pode ir até 2018, sem falar dos que defendem, também no Brasil, a elaboração de um novo acordo. Pessoalmente, como falante e escritor da Língua portuguesa, a única coisa que eu esperava da Presidente Dilma Rousseff é que ela rasgasse o acordo; mais importante do que adiar um acordo é rasgar um acordo que ninguém pediu que não faz qualquer falta à Língua portuguesa. Em primeiro lugar, o acordo é o típico produto de académicos deslumbrados que acreditam que a Língua lhes pertence por direito divino. Acontece que a Língua não é propriedade de nenhuma comissão de sábios. A Língua portuguesa pertence a milhões de seres humanos nos quatro cantos do mundo e as variações fonéticas ou lexicais ou sintácticas, longe de serem um prejuízo para a Língua, são pelo contrário a expressão da sua vitalidade e da sua pluralidade. Se os povos de língua castelhana ou os povos anglo-saxónicos não precisam de um acordo ortográfico para nada, é no mínimo ridículo tentar impor à língua portuguesa uma uniformização totalmente artificial. E artificial porque o Português escrito não pode ser, como pretendem os defensores do acordo, uma mera transcrição fonética ou de pronúncia. Existem marcas etimológicas em certas palavras que fazem parte de uma Língua, de um povo, de uma História, de uma pronúncia; sem esta particular sensibilidade para as sensibilidades particulares de cada falante da Língua o acordo não passa de um documento autoritário. Por isso digo com todas as letras: Senhora Presidente Dilma Rousseff, faça um favor à Língua portuguesa e enterre, de uma vez por todas, a loucura do acordo ortográfico. Pode ser assim que Portugal siga o bom exemplo do Brasil e deixe a Língua portuguesa em paz. João Pereira Coutinho, colunista da “Ilustrada”, de Lisboa para a “rádio Folha”.»
[/transcrição]

Transcrição feita por ILC AO90. Copie e cole à vontade mas não se “esqueça” de citar a origem do trabalho.

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7 comentários

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  1. Os mais de quatrocentos milhões de falantes de espanhol teem uma ùnica ortografia, regida pela Associação de Academias da Lìngua Espanhola, cujo “òrgão oficial” é o dicionàrio da Real Academia Espanhola. Os anglòfonos, para manterem viva a ilusão do seu suposto “anti-autoritarismo”, não teem nenhuma autoridade ortogràfica; e graças a isto, principalmente e entre outras coisas, as diferenças de ortografia entre as diversas variantes são muito mais numerosas do que entre o portuguès do Brasil e o de Portugal. Apesar disto, todas as grafias são igualmente vàlidas e aparecem em todos os dicionàrios da lìngua inglesa.

    De todas as línguas ocidentais, o inglês é a *única* cuja ortografia não è regida por uma autoridade central. O portuguès tem não sò uma como vàrias autoridades centrais, que não conseguem pòr-se de acordo.

    Uma reforma ortográfica unificadora *competente*, ao contràrio do monstrengo abortogràfico do AO90, deveria começar justamente pela consagração da validade universal das grafias duplas, para depois ocupar-se de chegar a uma grafia comum onde não houver controvèrsias, por exemplo pela adopção de um acento tònico ortoepicamente “neutro”. Mas este seria um processo muito mais lento e gradual, totalmente insatisfatòrio para as vaidadezinhas acadèmicas.

    • Rui Augusto on 25 Dezembro, 2012 at 21:54
    • Responder

    Eu recomendo vivamente que os brasileiros aprendam primeiro a escrever e a ler português, depois falamos. Cinquenta anos de socioconstrutivismo na Educação do Brasil estão à vista. É hora de parar com este disparate do AO90. Lembrem-se no entanto que há alunos a aprender o erro chamado AO90, temos que eliminar o problema rapidamente, os professores e os alunos não merecem esta tortura. Em relação aos Encarregados de Educação, na sua grande maioria, já se deveriam ter indignado junto das Direcções das escolas contra a implementação do AO90, os seus filhos estão a ser cobaias e os professores não são a pessoa certa para apresentar reclamações sobre o AO90.

    • Bruno Lopez on 26 Dezembro, 2012 at 1:46
    • Responder

    A ortografia do espanhol não está unificada como você pressupõe.

  2. Este é um caso típico de se estar certo pelos motivos errados, baseados numa dupla ignorância: da férrea autoridade ortográfica central do Dicionário da Língua Espanhola da RAE, fruto do consenso entre as academias dos 22 países de língua oficial espanhola, e do estatuto jurídico do AOLP em Portugal e no Brasil: nos dois países, o acordo está em vigor, mas ainda não é obrigatório.

  3. Já discutimos isto alhures, Rui Augusto: o número de analfabetos plenos e de analfabetos funcionais é igual no Brasil e em Portugal. Nenhum português pode dar lições de moral linguística aos brasileiros, menos ainda tendo tido mil anos para remediar a situação.

    E, Bruno, a ortografia do espanhol sim está *ferreamente* unificada. A autoridade unificadora é a Associação de Academias da Língua Espanhola, e o Dicionário da Real Academia Espanhola tem caráter normativo.

    Da “Apresentação” do Dicionário da Língua Espanhola, da Real Academia Espanhola (destaque meu): “As línguas mudam continuamente, e fazem-no de modo especial no seu componente léxico. Por isso, os dicionários nunca estão terminados: são uma obra viva que se esforça para refletir a evolução registrando novas formas e acompanhando as mutações de significado.

    “Especial atenção há de dar a isto o Dicionário acadêmico ao que se outorgue um VALOR NORMATIVO em todo o mundo de fala espanhola. A Real Academia Espanhola e as 21 Academias que com ela integram a Associação de Academias da Língua Espanhola trabalham de comum acordo ao serviço da unidade do idioma tratando de melhorar e atualizar um dicionário de caráter pan-hispânico. Tudo quanto aparece no DRAE é fruto desse estudo e da aprovação colegiada.”

    Sítio do **dicionário normativo”” da língua espanhola:
    [http://lema.rae.es/drae/]

    Sítio da Associação de Academias da Língua Espanhola:
    http://www.asale.org/ASALE/asale.html

    • Bruno Lopez on 30 Dezembro, 2012 at 0:03
    • Responder

    Ok Tomás se você garante vou confiar. Mas,que tenho comprado livros,edições de Espanha,Argentina e México,têm por vezes(claro que está,não muitas) ortografias diferentes para mesmas palavras,deduzo então que ando a ser enganado…

    • Pedro Marques on 3 Janeiro, 2013 at 2:36
    • Responder

    Que situação é que devia ter sido remediada senhor Tomás Bueno?

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