«O Acordo, outra vez» [V.G.M., DN, 21.11.12]

As questões de fundo relativas à aplicação do Acordo Ortográfico continuam por resolver. Não entrou em vigor, mas há sectores, tanto oficiais como privados, em que vigora sem rodeios especiais o princípio do faz-de-conta. Faz-se de conta que o Acordo já se aplica de pleno e estropia-se alegremente a nossa língua. Jornais e editoras continuam a fazê-lo da maneira mais bárbara. Há já alguns livros importantes que saem cheios dos correspondentes aleijões. E eles só não vieram ainda afectar uma série de clássicos da língua pela razão singela de que cada vez menos se cura de editá-los e pô-los ao alcance de toda a gente.

Ninguém parece ter sequer acordado para a necessidade de uma revisão. As duas grafias coexistem, porque, felizmente, um quotidiano importante e uma grande parte dos colaboradores da imprensa lusitana se mantêm fiéis à grafia anterior e esta é, por enquanto, a única que, legalmente, pode e deve ser aplicada. Toda a gente sabe que é assim e não vale a pena repeti-lo.

É possível que o lobby das editoras, depois de se ter precipitado na adopção do Acordo em livros escolares, manuais, dicionários e agora noutras publicações, procure impor essa coisa sem nome em todos os sectores da vida nacional, em especial no escolar. Também é possível que o poder não saiba lá muito bem o que fazer, seguindo e alimentando, neste aspecto, a desorientação das escolas.

Os partidos políticos com assento parlamentar têm vindo a pactuar, sem excepção, com esse estado de coisas. Ninguém lucra absolutamente nada com ele. Mas tudo isso redundaria apenas num simples exercício de humor de gosto discutível, se não se traduzisse numa violência quotidiana contra a língua. E o certo é que, se as coisas continuarem assim, dentro de uma geração ninguém conseguirá pronunciar correctamente a língua portuguesa tal como ela é falada deste lado do Atlântico.

Por outro lado, o que interessa, para além da questão jurídica e cultural de fundo, é uma questão política assaz bizarra. E a questão política actualmente resume-se a isto: estão a ser aplicadas não uma, mas três grafias da língua portuguesa. A correcta, em países como Angola e Moçambique, a brasileira (no Brasil) e a pateta (em Portugal e não se sabe em que outras paragens). Os representantes dos Estados-membros na CPLP, esses, devem dar pulinhos de corça alvoroçada e do mais puro regozijo com tão portentoso contributo que a organização deu para unificar a grafia do português.

Enquanto se anda nestes preparos, toda a gente se esqueceu do famigerado vocabulário ortográfico comum. Onde pára o dito? Dele, ninguém sabe dizer nada, como da formosa Mariquinhas… Até agora, o vocabulário peca pela inexistência pura e simples e ninguém se preocupou com a superação de tão momentosa dificuldade. Ora não parece que actualmente, com as restrições que afectam tantas áreas da investigação e da diplomacia, haja qualquer possibilidade de ele ser concretizado.

Entre as consequências relevantes dessa inexistência conta-se a impossibilidade de aplicar o Acordo de cuja entrada em vigor o vocabulário comum é condição prévia, por muito que isso pese ao Prof. Evanildo Bechara, que lê a exigência correspondente como se ela unicamente se reportasse ao vocabulário técnico e científico. É de lamentar que, na pessoa do ilustre académico, a interpretação jurídica não consiga acompanhar o saber do linguista emérito.

Alem disso, é muito de estranhar que, no ano em que o Brasil se apresenta em Portugal e Portugal se apresenta no Brasil com tanta pompa e circunstância, nenhum dos países interessados tenha feito qualquer reparo à maneira como a grafia do português, que se pretende oficial e oficiosamente seja agora adoptada em Portugal, consagra uma série de enormidades que não estão, nem podem estar, a ser aplicadas no Brasil e que aumentam a desconformidade com a maneira como a língua se escreve de um lado e do outro.

Talvez tenhamos de esperar que se realize um ano de Angola em Portugal e de Portugal em Angola para o problema merecer atenção. E então não será de estranhar que tenhamos de agradecer aos angolanos um rigor na grafia da nossa língua de que, por cá, nós portugueses já não somos capazes.

Vasco Graça Moura

[Transcrição integral de artigo de opinião da autoria de Vasco Graça Moura, in “DN”, 21.11.2012.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

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3 comentários

    • Maria José Abranches on 21 Novembro, 2012 at 15:22
    • Responder

    Muito bem, Sr. Dr. Vasco Graça Moura! E mais uma vez, obrigada! A sua energia, cultura e clarividência é-nos indispensável nesta luta pela nossa língua. Oxalá a sua verticalidade e coerência possam contagiar a vergonhosamente apática “intelligentsia” nacional e sobressaltar aqueles que, eleitos por nós, preferem ignorar-nos, particularmente os nossos deputados à Assembleia da República. Estão ao serviço de quem estes senhores deputados? Não resta por aí ninguém que tenha a hombridade, a cultura e a decência suficientes para defender a língua de Portugal contra este AO90, que a desvirtua e que nos está a ser ILEGALMENTE imposto?

    • Inspector jaap on 21 Novembro, 2012 at 18:48
    • Responder

    Subscrevo entusiasticamente o teor do comentário da Srª Drª Maria José Abranches e faço apenas um reparo ao Sr. Dr. Graça Moura: não desperdice tão elegantes adjectivos com tão fraco bichoco, pois que são, no caso vertente, totalmente imerecidos.
    Cumpts

    • Maria Miguel on 23 Novembro, 2012 at 17:58
    • Responder

    Professor, o Senhor acaba de reactivar, em mim, a esperança
    de ver, brevemente, o anedótico crime preparado por encomenda (ao), em Tribunal.
    Por favor, não faça muitos intervalos. O Senhor sabe bem que não está sozinho! Até o Brasil o honra, por não ter adoptado o pacote do vírus que teima em fazer adoecer as nossas palavras.

    Tanto em Portugal como no Brasil, só os grosseiros (académicos iletrados e respectivos lacaios), aqueles que nunca perceberam o Padre António Vieira, que nunca entenderam a Mensagem de Fernando Pessoa e que nunca ouviram, com a alma, o som que emitem, é que constituirão o grupo que se distância desta nobre missão em defesa da Língua Materna.
    Quanto aos Lusos de pouca escolaridade, que, na verdade, não sabem interpretar por não terem sido bafejados por sortes de nascimento e de percurso, estão absolvidos, como absolvido foi o Parvo no Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente.
    Bem Haja!

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