«O petróleo desta nossa relação» [Nuno Pacheco, “Público (2)”, 02.09.12]

Dito na obscuridade de um quarto de hotel podia soar a coisa erótica: “A língua é o petróleo desta relação.” Ele não precisava de ser um milionário texano, nem ela uma estampa de calendário barato, para compor a história. Mas foi dito noutro local, neste caso em Timor-Leste, e por um ministro, português para azar nosso. Sem outra tirada eloquente sobre o que lhe inspiraria aquela terra que a tantos inspirou por bem mais nobres razões, Miguel Relvas foi-se à língua, a mais recente descoberta dos que amiúde a espezinham. E disse isto: “Aquilo que nos une a todos é a língua e a língua é o petróleo desta relação, é o que nos dá força, é o combustível desta relação e nós temos de continuar nesse caminho” (a citação é, ipsis verbis, da agência Lusa). Que língua? Que combustível? Que caminho? Já se encontraram face a face, como deveriam, o português e o tétum? Já se olharam de igual para igual? Ah, pois, a lusofonia, os milhões a falar todos da mesma maneira, a conversa vadia do costume. Querem saber? Antes o quarto de hotel. Porque, entre a vacuidade dos gorjeios petrolíferos, são arautos assim que não se cansam de bombardear os poços e atear incêndios no tão maltratado “combustível”.

Relvados à parte, há no entanto exemplos de como se pode tratar bem uma qualquer língua falada e escrita. O mirandês, por exemplo. Ainda há dias o Jornal de Negócios (24/8) traçava o perfil de um homem, Amadeu Ferreira (por sinal também ligado a coisas da economia – mas não do petróleo – já que é agora vice-presidente da CMVM), que ao longo da sua vida tem sido um paladino inexcedível da defesa do mirandês. Nasceu em 1950, em Sendim, Miranda do Douro, de pai sapateiro (e peleiro) e mãe camponesa, numa família onde só se falava mirandês. Isto lembra o Negócios enquanto lhe percorre os passos vitais. Para abreviar, diga-se que Amadeu Ferreira, sem precisar de quarto de hotel, se tornou “bígamo”, como ele próprio diz. Gosta imenso do português (que usa no seu trabalho diário) e do mirandês (que usa e defende na terra, em família, em livros). Devido à sua persistência, o mirandês tornou-se reconhecido por lei, em 1999. Assim: “O Estado Português reconhece o direito a cultivar e promover a língua mirandesa, enquanto património cultural, instrumento de comunicação e de reforço de identidade da terra de Miranda”, reconhecendo-se ainda “o direito da criança à aprendizagem do mirandês“. Tal como o espanhol convive com as línguas basca, galega e catalã, também o português e o mirandês passaram a conviver e a respeitar-se. Sem petróleos.

É certo que o mirandês se restringe a uma minoria, sete mil falantes, mas a riqueza que representa ter-se-ia perdido se não tivesse defensores à altura. Como Amadeu Ferreira (que teve uma coluna mensal em mirandês no PÚBLICO), tradutor para a “Ihéngua” mirandesa de obras de Horácio, Virgílio, Catulo ou Camões. É dele (sob o pseudónimo de Fracisco Niebro) a tradução de Ls Lusíadas, a partir da edição de 1572, num bonito volume editado pela Âncora em 2010. Começa assim: “Aqueilhas armas i homes afamados/ Que, d’0ucidental praia Lusitana,/ Por mares datrás nunca nabegados,/ Passórun par’alhá Ia Taprobana,/ An peligros i guerras mui sforçados/ Mais do que permetie Ia fuorça houmana/1 antre giente de loinge custruírun/ Nuobo Reino, que tanto angrandecírun.”

Como escrever bem o mirandês? Com normas ortográficas, claro. Amadeu Ferreira escreve na sua biografia online: “Partecipei na purparaçon i çcuçon de Ia purmeira adenda a Ia Cumbençon Ourtográfica. Nada ye purfeito, mas acho que se cunseguiu un modo de melhor aquemodar todas Ias bariadades de l mirandês na mesma scrita.” Sucede que tal convenção, desenvolvida a partir do levantamento feito por Leite de Vasconcelos em fins do século XIX, percorreu caminhos inteligentes. Na grafia, por exemplo: “Quando existiam várias opções de escrita para um dado som, optou-se geralmente pela de mais antiga tradição na língua ou mais frequente nos diversos autores (y em palavras como you, yá; i na conjunção i).” Não a mais simples, não a-da-língua-que-está-sempre-a-mudar, mas sim a que melhor fixa o verbo e o torna inteligível, respeitando-lhe a raiz. Disto não sabem os senhores do petróleo, os tais que andam sempre com a língua a arder.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco. In jornal “Público” (suplemento “2”) de 02.09.12. Link disponível apenas para assinantes do jornal “online”. “Links” inseridos por nós.]

[Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito (quando dizem ou se dizem) e são por definição de interesse público (quando são ou se são).]

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4 comentários

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  1. Aprecio o Mirandês. É o que sobra do Leonês. Tem um sabor muito antigo. É de mérito querer-se elevá-lo a língua literária e felizmente que se o leva a cabo. Julgo, porém, sem mesprezo de nada, que nesse propósito foi descabido elevá-lo a língua oficial da em Portugal. Uma bizantinice desnecessária, dessas que os aprendizes da politiquice cometem não separarando o essencial da propaganda. Exactamente como com o «coiso» cacográfico, sem tirar nem pôr. O que rege os idiomas é a Gramática, sòmente, não poder legislativo.
    Nada do que digo fere o argumento de Nuno Pacheco.
    Cumpts.

    • Sérgio Conceição on 4 Setembro, 2012 at 10:45
    • Responder

    Parabéns a Nuno Pacheco e a Amadeu Ferreira. Um pelo excelente texto, outro pelo trabalho realizado. Dito isto, cabe-me apenas dizer que apoio fervorosamente toda a diversidade existente na Língua Portuguesa. Por isso ser completamente contra qualquer acordo que vise a uniformização da escrita e defensor da diversidade, aplaudo de pé a criação e manutanção do mirandês como língua oficial, assim como subscrevo qualquer intenção de criação do “brasileiro”, dos “crioulos” e demais dialectos em África em deterimento do Acordo Ortográfico. Nós não somos todos iguais, como a moda da Globalização nos quer fazer crer. Somos diferentes, sofremos influências diferentes, vivemos contextos diferentes e evoluimos de formas diferentes. Devemos resistir hoje e sempre à formatação de que somos alvo. Quer seja no vestuário que as grandes cadeias internacionais nos impõe, quer na moeda que a UE pensou ser uma grande solução, quer nas quotas agrícolas e pesqueiras a que nos sujeitamos, etc. Sejamos diferentes! E a Língua Portuguesa deve seguir a mesma linha. Não há necessidade de uniformização. Em Portugal definimos o Português-padrão e quem quer adopta, quem não quer que adopte outra língua. Não podemos cometer erros como a supressão das consoantes mudas em Portugal e mantê-las no Brasil, submetendo-nos às ideias de pseudo-linguistas Brasileiros que acham que se deve privilegiar a oralidade.

    • Jorge Teixeira on 5 Setembro, 2012 at 13:06
    • Responder

    Não sei se terá sido bom para o Mirandês ser reconhecido como língua oficial. Ao Português, de que serve ser língua oficial? Só tem servido para os governos o tentarem dobrar aos seus interesses através de legislação, um exemplo de tudo o que não deve ser a relação entre um Estado e uma língua. Eu não falo Mirandês, mas temeria a fúria legisladora dos nossos políticos que não sabem ocupar o seu lugar nem entendem quais as esferas em que, pura e simplesmente, um Estado nunca deve legislar.

    • Inspector Jaap on 5 Setembro, 2012 at 16:03
    • Responder

    Caro Nuno Pacheco:
    Que nunca a voz (pena) lhe doa… faz bem à alma ler os seus escritos; o meu bem –haja por eles.
    Cumpts

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