«Cor-de-rosa laranja» [Rui Cardoso Martins, “Pública”]

Do que gosto no novo Acordo Ortográfico, tão inclinado para o Brasil, é do seu lado português, como eu: um bocado feito em cima do joelho. Matou a paz da língua (e nisso está de acordo com o espírito económico e político do seu tempo, aspecto importante… espera, aspeto).

Já nem conseguimos olhar um pôr do Sol sem pensar como é que se escreve. Cheguei à conclusão, talvez precipitada, de que o… o pôr-do-sol… é uma coisa usual, uma vez que acontece todos os dias na minha terra, e todos os namorados, tristes ou felizes, falam dele e imputam-lhe responsabilidades, portanto devia manter os hífenes.

Espera aí, pôr do Sol já não tinha hífen antes do acordo. Malditos.

Vamos discutir o problema depois da descrição da viagem: vinha pela A6, do Alentejo, na auto-estrada que rasga o país de leste a oeste, paralela ao Tejo dos bravios penedos espanhóis, das portas de Ródão, da lezíria ribatejana, das tágides nuas de Lisboa, blá-biá, cai o Sol na planície alentejana e deixa-me ver, em recorte, a silhueta cabeçuda dos sobreiros, o quadrúpede pertil das vacas que pastam ao anoitecer. Extraordinária Natureza!, os tons do crepúsculo, brilhantes e contrastados, num céu que deixou de ser azul, persegue o púrpura mas ainda não é, pintado naquelas cores maravilhosas das flores, dos frutos, das mucosas frescas, rosa, laranja… é verdade, meninos, como é que se escrevem agora as cores, já vos ensinaram na escola?

– Cor-de-laranja perde os hífenes e passa a cor de laranja, mas cor-de-rosa mantém os hífenes.

-Hã?!

Como é que é? Há crianças a dar aulas aos colegas sobre mudanças concretas dá língua portuguesa, cada aluno explica uma regra nova do acordo (agora passam nisto os dias), e cor-de-rosa mantém o hífen porque é mais -usual”. Que base existe para este raciocínio, quem fez as contas mediu quantidades e valores? O cor-de-rosa é mais usual porquê? Será que existe em maior quantidade na gaveta das cuecas, no guarda-factos, espera, aqui é fatos, daqueles que formularam o acordo? Exemplo dos hifeníticos poderes de um sinistro “lóbi cor-de-rosa”?

Experimentei a Interner: cor-de-rosa também pode ser cor de rosa, escreve como te apetecer, pá, é a interessante variedade da língua portuguesa. Já cor-de-laranja está mesmo errado, não é um caso de racismo no arco-íris, trata-se decerto de uma coisa menos “usual”. Pego no livro do mestre Rómulo de Carvalho, “A Física no Dia-a-Dia” (ed. Relógio D’Água) e descubro leis universais da luz e dos prismas, explicados ao povo na base da amizade… “suponho que o meu amigo já viu o arco-íris, o chamado arco-da-velha”. “Às vezes o arco-íris é pouco visível, muito pálido, e há dificuldade em distinguir as cores mas, quando é intenso, notam-se bem nele sete cores. A que fica do lado de fora do arco é o vermelho e agora, olhando para o lado de dentro, é possível distinguir uma cor alaranjada que fica entre o vermelho e o amarelo, depois um verde, depois um azul que pouco a pouco se muda em roxo. A cor que fica entre essas duas, que não é azul nem roxo, costuma-se chamar anil (e também há quem lhe chame ‘índigo’). As sete cores do arco-íris são pois, pela sua ordem: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e roxo (ou violeta).”

O cor-de-rosa não é uma das cores de base da luz mas é mais “usual” do que o cor-de-laranja. Isto é ciência fonética e gramatical. Não vale a pena melhorar porque já está bom e acabou-se a conversa, ó conservadores passadistas bolorentos da língua. O poeta António Gedeão podia dizer, contra o cientista Rómulo de Carvalho, pela mesma boca, que o Acordo Ortográfico pula e avança e salta para onde lhe apetece e se calhar para onde estiver virado, como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Espera aí… mas cor de laranja já não tinha hífen antes do acordo! Malditos.

Rui Cardoso Martins
rui.cardoso.martms@publico.pt

[Transcrição de crónica da autoria de Rui Cardoso Martins. Revista “Pública” (do jornal “Público”), 04.03.12. Link disponível apenas para assinantes do jornal.]

Nota: os conteúdos publicados na imprensa ou divulgados mediaticamente que de alguma forma digam respeito ao “acordo ortográfico” são, por regra e por inerência, transcritos no site da ILC já que a ela dizem respeito e são por definição de interesse público.

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5 comentários

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    • Manuela Carneiro on 4 Março, 2012 at 19:08
    • Responder

    Muito bom!!!

    • Gonçalo Pinto on 4 Março, 2012 at 20:26
    • Responder

    É por causa deste tipo de cenas que recuso a adoPtar o acordo…

    Fora com os “iluminados” que se acham donos da lingua e fazem esta trapalhada de acordo.

  1. O Rui Cardoso Martins está a queixar-se de tudo ficar como dantes com o cor-de-rosa e o cor de laranja?! Enfim, já não há conservadores como antigamente!… 😉

  2. Caro Rui Martins,

    MUITO BOM!!
    COM TODAS AS LETRAS!
    Nem por aposta tinha colocado hoje mesmo um pequeno texto sobre a mesma temática no meu blog. Bem pequeno, em relação ao seu…, apesar de muito e do mesmo ter eu também a dizer….
    Assim, se me permitir poderei colocar o seu texto, com a devida referência, claro, no meu blog.
    http://evirgula.blogspot.com/2012/03/desde-janeiro-de-2012-que-tenho-uma.html

    Até breve.

    Cumprimentos,

    Carla Veríssimo

  3. Agora sim, encontrei o que sabia, já ter (muito) escrito sobre a matéria…
    http://www.evirgula.blogspot.com/2012/03/al-gures-em-2008.html
    😉

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