«Antiga Ortografia» [Pedro Mexia, Expresso]

PMexia-Expresso-07012012Antiga Ortografia

Fulano escreve “de acordo com a antiga ortografia”, diz o aviso que acompanha estas crónicas. Eu agradeço que o “Expresso” me permita a objecção de consciência face ao chamado Acordo Ortográfico, e percebo que indique quem segue ou não as novas regras, para evitar confusões; mas suspeito que esta fórmula foi inventada por alguém que pretende colar aos dissidentes o vocábulo “antiga”, como se nós escrevêssemos em galaico-português. Como se a língua que a maioria dos portugueses ainda usa se tornasse por simples decreto “antiga”: antiquada, decrépita, morta.

Eu não sou pela “antiga ortografia” por caturrice. Estou contra o “acordo” porque me parece uma decisão meramente política e económica, sem verdadeiro fundamento cultural. Os legisladores impuseram aos falantes uma “ortografia unificada”, que, dizem, garante a “expansão da língua” e o seu “prestígio internacional”. Mas a expansão da língua passa por uma política da língua, que Portugal, por exemplo, não tem tido, ocupados que estamos em fechar leitorados no estrangeiro, em aplicar uma abominável terminologia linguística nas escolas, em publicar um lamentável Dicionário da Academia, em expulsar Camilo dos currículos enquanto o substituímos por diálogos das novelas. Quanto ao prestígio internacional, lamento informar que foi o sucesso económico, e não a “língua de Camões”, que transformou o Brasil numa potência.

Não é este “acordo” que vai trazer expansão e prestígio ao português. Contenta uns “acadêmicos espertos e parlamentares obtusos”, como escreveu um colunista brasileiro, e alguns editores, que têm bom dinheiro a ganhar com esta negociata. Mas é difícil imaginar que alguém acredite que vem aí uma “unificação da língua” só porque se legislou uma “unificação da grafia”. Um brasileiro continuará a falar uma língua muitíssimo diferente do português de Portugal, diferente em termos de léxico, de sintaxe, de fonética. Um português, com um exemplar do Acordo debaixo do braço, bem pode perorar em Iraguaçu, que alguém lhe continuará a perguntar “oi?”, pois não percebeu metade. E isso não tem problema algum, a “lusofonia” não vale pela unidade mas pela diversidade, pelo facto de haver um português europeu, africano, americano e asiático. E ninguém é dono da língua: nem os brasileiros por serem mais, nem os portugueses por andarem cá há mais tempo, muito menos uns académicos pascácios que dicionarizaram “bué” e “guterrismo”.

É significativo que o próprio “acordo” reconheça o fracasso do projecto de “unificação a língua”. Dadas as flagrantes diferenças entre o português e o brasileiro, os sábios são obrigados a admitir a existência de duplas grafias, uma cá, outra lá [África, para estes iluministas, é paisagem]. Pior ainda, introduzem uma “grafia facultativa” que estabelece como termos lícitos tanto “electrónica” como “eletrónica”, “electrônica” ou “eletrónica”. O linguista António Emiliano deu-se ao trabalho de enumerar em livro os erros, contradições, imprecisões e dislates desta lei iníqua. Leiam-no. E não digam que ninguém avisou.

A minha recusa deste “acordo” não é casuísta nem temperamental. Não se trata apenas de não gostar de ver os espectadores transformados em bandarilheiros “espetadores”; de não perceber como é que os habitantes do “Egito” não são “egícios”; de ficar estupefacto com o “cor-de-rosa” com hífen e o “cor de laranja” sem hífen; de prever os imparáveis espalhanços de um “pára” do verbo “parar” que perde o acento e talvez o assento. É isso mas é mais que isso: eu discordo veementemente do critério fundamental do “acordo”: a primazia da fonética sobre a ortografia.

É verdade que todos falamos antes de sabermos ler e escrever, mas quando aprendemos essas competências sofisticadas interiorizamos uma língua diferente da falada, que nalguns casos nem tem exacta correspondência fonética mas que se liga a uma memória histórica e cultural. Quando aprendemos a ler, fixamos a forma gráfica das palavras, uma forma que memorizamos e que nos acompanha a vida toda, de modo que nunca mais lemos letra a letra, mas reconhecemos de imediato uma grafia aprendida há muito, “antiga”, sim, muito antiga. A ortografia não é uma transcrição fonética, nem podia ser, dadas as variantes do português falado. Ou nas pronúncias regionais. Como escreveu Emiliano, não vamos criar uma “ortografia do Alto Minho” só porque a pronúncia de Caminha é diferente da pronúncia de Cascais. Ou de Curitiba.

E não me digam que são pouquíssimas as palavras alteradas: procure quantas vezes neste jornal aparece ação, ator, atual, coleção, coletivo, diretor, fato, letivo, ótimo, e repare que são algumas das mais usadas. É por isso que o cavalo de Tróia das “consoantes mudas” deve ser denunciado. Em primeiro lugar porque não são mudas coisíssima nenhuma: abrem as vogais precedentes, e numa língua danada por fechar vogais. Depois, porque não são inúteis, ajudam a distinguir termos homógrafos e indicam a etimologia de palavras afins. Fazem sentido, ao contrário do “acordo”.

Dizem os acordistas que a nova ortografia “simplifica” e “facilita a aprendizagem”. Toda a gente sabe o que significa “facilitar a aprendizagem”, e os resultados que isso deu no ensino. E se a intenção é “simplificar”, que tal escrevermos todos em linguagem de telemóvel? Por mim, continuarei antigo.

Artigo da autoria de Pedro Mexia publicado na edição de 14.01.12., no jornal Expresso.

 

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9 comentários

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  1. Precisamente. Acertou em cheio em todos os pontos fulcrais. Dá gosto ler e reler. Lindo!

    • Diogo Borges on 20 Janeiro, 2012 at 15:55
    • Responder

    100% de acordo com tudo.

    • Inspector Jaap on 20 Janeiro, 2012 at 17:08
    • Responder

    “Ganda” Pedro… se não fosse cá por coisas, dir-lhe-ia que o seu excelente artigo era “bué da fixe? fiche?”
    Cumprimentos e não esmoreça que nós precisamos, e muito, de gente assim, a ver se isto ainda tem salvação; a acontecer o contrário, será um retrocesso de séculos, hão-de ver.

  2. Bem escrito e explicação dada com toda a clareza. Também eu continuarei a escrever correctamente.

    • Portuense9 on 14 Fevereiro, 2012 at 17:40
    • Responder

    Concordo em absoluto. Com tudo. Este absurdo ortográfico não faz qualquer sentido. E eles, os que o assinaram, forçaram a sua aplicação ou o defendem, sabem-no bem. Tão bem que quem se opõe ao mesmo o faz com rigor, identificando precisamente tudo o que não faz sentido no mesmo, desde a origem filológica das palavras ora alteradas até ao ponto de discutir a sua validade no nosso ordenamento jurídico, seja pela falta de ratificação do dito acordo por alguns, seja pela regra que impede que uma resolução do conselho de ministros se sobreponha a um Decreto-Lei por ser hierarquicamente inferior. Eles, os que o defendem, não têm outros argumentos do que adjectivar os que se lhe opõem apelidando-os (permitam-mo: “nos”) de velhos do restelo, reaccionários, avessos à mudança, etc, etc, etc, e não conseguem apresentar outro argumento para o apoiar a não ser o da simplificação e uniformização (uniformização? Os autocarros vão passar a ser ônibus ou os ônibus autocarros? O mesmo para os trens e os comboios? Ou vamos passar a iniciar uma sindicância em vez de abrirmos um inquérito – ou vice versa? E os nossos detidos vão passar a ser detentos? E os nossos bengaleiros vão passar a ser cabideiros como por lá, ou o contrário? E tenho até medo do que pode acontecer se alguém pedir um orçamento para que lhe pintem os tetos – talvez seja melhor deixar cair os tectos; este absurdo não vai simplificar ou uniformizar coisa nenhuma. Mas vai fazer-nos perder a única coisa que ainda nos identificava como portugueses (depois de perdida a autonomia e a independência económico-financeira). Mas talvez fosse essa a ideia, afinal…).
    Houvesse mais exemplos como o do Vasco Graça Moura. Nas empresas e organismos públicos (eles sabem que podem resistir a uma ordem ilícita, não sabem?), nas nossas escolas e universidades, nos bancos, nas grandes empresas privadas que fazem a diferença mas também nas pequenas. Se a recusa a utilizar esta grafia agora inventada fosse geral, jamais a conseguiriam implementar.
    Eu continuarei a resistir e resistirei sempre. Sou uma anónima que não conta para coisa nenhuma? Alguma coisa farei. Compro o Público, por exemplo, e não os jornais ou revistas que se renderam. Compro os livros onde vem expressamente dito que os autores se recusaram a que fossem impressos na nova grafia. Deixei de ser sócia do Círculo de Leitores porque a ela aderiram (e era-o há mais de vinte anos e muito boa cliente). Comigo as editoras que editam os livros na nova grafia não ganham um cêntimo – não compro. E assim se gora o tal propósito económico. Ou goraria, se todos fizessem como eu.
    Temos que resistir. Adoptar o absurdo ortográfico? Jamais.
    Diz-se que burro velho não aprende línguas… Talvez seja por aí. Embora eu gostasse de aprender mais línguas. O que isto não é. É a subversão da língua e da identidade de um povo. E isso eu não faço.

    • João José Martins Tavares on 4 Março, 2012 at 18:27
    • Responder

    É a lingua e muitos portugueses que alavancam a economia brasileira, porque assim se compõe o povo brasileiro. A economia rege tudo. Desde um sem abrigo a uma família e desde a mais simples casa a uma cidade, um país, à global aldeia.
    A gramática, tal como a aprendi na escola primária da Nhareia teve a terminologia toda alterada muito antes do acordo ortográficohohohohohoh meus senhores. Isto sim, exercício político inútil.
    O acordo nada mais é que um tentativa de ajustar as regras ao evoluir da etimologia e da língua. Ou considerais a etimologia e a língua, mortas?
    A considerar de outra maneira, e os textos contrários ao acordo dificilmente conseguem evitar transparecer, as opiniões contrárias revelam xenofobia, medo, confronto, atitudes em nada construtivas. Quantos de nós ainda terão aprendido a escreve pharmácia e facultativamente farmáciahahahahahahaha?
    Quantos anos vão da Carta de Caminha aos Lusíadas e quão diferente a escrita daquela é da do Camões. De Camões ao Fernandinho vão muitos mais anos e surge uma nova variável, comunicar.
    A lingua serve o comunicarmos da melhor forma uma ideia, de forma a que entendam a nossa mensagem, o mais inteiramente que conseguirem. Ora, se nesse caminho estivermos a olhar aos erros, a descuidar do foco, a ceder a vaidades que levam a escrita a aborrecer, a mensagem definha, a lingua deixa de ter o seu fim, e, os seres ficam a falar sozinhos como soía nas assembleias mais democráticas, até há minutos.

    • Luís Ferreira on 4 Março, 2012 at 20:30
    • Responder

    @João José Martins Tavares

    deixe-me dizer-lhe uma coisa, por bem, claro: por mais lindas que sejam as penas do pavão, ele não põe ovos.

    – primeiro argumento: economia. Põe-se um problema simples aos portugueses: o que mais interessante para Portugal, Angola ou o Brasil? Angola não aceita o AO.

    – segundo argumento: evolução. A evolução não se faz cortando raízes. A evolução faz-se deixando evoluir… naturalmente. Foi assim que ensinou o Darwin. Não faz sentido com o argumento da evolução cortar as raízes que a alimentam.

    – terceiro argumento: “xenofobia, medo, confronto, atitudes em nada construtivas”. Não me quero meter aqui. Está a convidar-me para o lamaçal. Não obrigado.

    – quarto argumento: pharmacia. Ainda estou por perceber que mal viria ao mundo se eu escrevesse pharmacia. Os ingleses escrevem pharmacy e os franceses pharmacie. Não me parece que uns e outros tomem antidepressivos por causa disso.

    – quinto argumento: Camões escrevia de forma diferente. Pois escrevia. Está por demonstrar a bondade da alteração ortográfica de 1911 (creio). Se não fosse esse disparate jacobino, talvez entendêssemos melhor Camões.

    – sexto argumento: a função da língua. Aqui não há ponta por onde pegar, dada a concentração de falácias, que não me apetece estar a descoser.

    Finalmente, deixe que lhe diga que, se não mexerem na língua portuguesa, o português torna-se língua morta quando morrer o último português. Veja o que acontece com o mirandês ou o galego.

    • JJTavares on 20 Abril, 2013 at 19:33
    • Responder

    Luis Ferreira, por ordem vou tentar pôr ordem:
    – o mais interessante para Portugal será informar-se e deixar de imaginar domínio sobre que país algum
    – o mais evoluido é quem se adapta melhor às mudanças
    – a ética manda que se discuta, argumente-se
    – que me interessa lá o que façam gauleses ou shakespirados com a fonética e a forma deles escreverem, santa eugenía
    – Camões tornar-se-há objecto apenas de estudos especializados com AOs ou sem eles
    – a falta de argumentos reflete falta de leitura e leva a esquecer a lingua e Camões
    – já há muito estrangeiro a falar e a entender-se em bom Português e nada admira que se continue a falar em Português por séculos além do passamento do último Tuga puro sangue.

    1. @JJ Tavares, este seu último comentário foi aprovado porque é genuína e espantosamente estúpido (além de inacreditavelmente mal escrito, mas quanto a isso paciência, o que se há-de esperar de um provocador profissional e ainda por cima sendo de um acordistazito), logo, pode o mesmo servir como objecto de estudo caso alguém decida utilizá-lo para esse fim. Note a expressão “este seu último comentário”.

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