O jornal Público e o AO90 – perguntas e respostas

O que se segue é uma colagem em sequência das perguntas de José Queirós, Provedor do Leitor, à Direcção do jornal Público e das respostas de Nuno Pacheco, Director Adjunto. Deste “diálogo” resultou o artigo «Os leitores, o PÚBLICO e o acordo ortográfico – Esta ainda não é a aldeia de Astérix», da autoria do Provedor, publicado a 26 de Junho naquele jornal.



Provedor A direcção considera sustentável manter a prazo a posição de não adoptar o acordo ortográfico, tendo em conta, nomeadamente a prevista adopção das novas regras na escolarização oficial?
Director adjunto Sim. Porque achamos que ainda é possível inviabilizar o acordo. Ainda hoje, por exemplo, muita gente escreve “lobby” ou “dossier” em vez dos já aportuguesados lóbi ou dossiê (inscritos como “lei” nos Dicionários Houaiss e da Academia das Ciências) e ninguém levanta qualquer problema. Mas só é possível mudar alguma coisa desde que a sociedade civil se mobilize e desde que os políticos acolham os argumentos sensatos de quem tem denunciado, há muito, as incongruências e erros manifestos do AO 90. Recordo que foi só em 1915 que a Academia Brasileira de Letras aderiu à primeira reforma ortográfica que Portugal decretou (unilateralmente, em 1911) acabando por, quatro anos passados, em 1919, revogar essa mesma decisão. Ou seja: o Brasil aderiu e depois desligou-se. Nenhum mal veio ao mundo por causa disso. No caso presente, o do AO 90, a pressão para um acordo veio de Portugal, não do Brasil, ao contrário do que alguns pensam e defendem. O Brasil foi arrastado para a “reforma”, achou que era politicamente correcto aderir e cedeu no trema e nalgumas modificações menores (os hífens, por exemplo, que estão a ser interpretados das mais variadas maneiras, uns livros garantindo que se mantêm, outros que afinal deixam de se usar nas mesmíssimas palavras). A forma como tal adesão se fez (contornando o texto inicial do próprio acordo, que obrigava “à ratificação de todos os Estados” para avançar, o que não sucedeu) mostra bem como o processo foi sobretudo político e não linguístico/científico. E os muitos argumentos denunciando as suas incongruências bastarão para reavaliá-lo.

Provedor Em Outubro do ano passado, numa resposta que transcrevi na minha coluna a propósito de um caso específico, dizia a direcção que, “no espaço noticioso, o jornal mantém como regra não acatar tal acordo enquanto tal for legalmente possível”. O que deve entender-se exactamente por isso?
Director adjunto O “legalmente possível” refere-se à ameaça, velada, de que o AO 90 terá forma de lei dentro de três anos, coisa que não lembrou a ninguém, nunca, em matéria de ortografia, mas que os defensores do AO brandem, à falta de argumentos consistentes. “Está aprovado, é lei, cumpra-se e pronto”. É o argumento da autoridade contra o argumento da razão. Haverá multas? Processos judiciais? Não se sabe. Daí o “legalmente possível”, embora a nossa determinação seja mantê-lo para sempre, porque achamos que só isso faz sentido.

Provedor Deve concluir-se que, na ausência de legislação efectiva nesse sentido, o PÚBLICO admitiria a hipótese de não alterar as regras ortográficas que segue, mesmo que a adopção das novas normas se generalizasse nos documentos oficiais, nas escolas, na comunicação social e na edição?
Director adjunto Ao longo dos anos, mesmo no acordo anterior, foi lenta a adopção das novas regras. A ortografia não é o código penal. Ainda hoje há quem escreva Eça de Queirós ou Eça de Queiroz, ou outras palavras em que, por regra, o S foi substituindo o Z. Ninguém se incomoda. E há quem ainda acentue os advérbios de modo, quando os “sábios” resolveram um dia tirar-lhes a acentuação por inteiro. Por isso, não é desadequado nem condenável escrever em português correcto (não “correto”), mesmo que possa ser considerado “antigo”.

Provedor O PÚBLICO admite a hipótese (sugerida pelo leitor Rui Valente) de assumir abertamente a “causa” da oposição ao acordo, “batendo-se” pela sua eventual revogação (já sugerida no editorial de 04.06.11)?
Director adjunto O PÚBLICO perderá crédito se, neste campo, se substituir à sociedade civil, assumindo qualquer proselitismo na matéria e tornando-se uma espécie de “jornal de combate” anti-acordo. Mas do ponto de vista editorial bater-se-á por isso, claro, no espaço de opinião, abrindo as suas páginas ao debate necessário. E às iniciativas que forem tendo lugar na sociedade civil, onde o caso deverá resolver-se.

Provedor Existe algum conhecimento sobre as preferências dos leitores neste domínio?
Director adjunto O conhecimento é empírico, nunca foi feito qualquer inquérito. Mas é sintomático que todas as cartas ou mensagens que recebemos sejam contra o AO 90 e não a seu favor. Tal como é sintomático que apenas dois cronistas (Vital Moreira e Rui Tavares) tenham feito questão de escrever segundo as novas regras (o que aceitámos, referindo isso mesmo; podíamos ter recusado, mas não o fizemos porque prezamos acima de tudo a liberdade.). Uma pequena nota: quando editamos textos provenientes do Brasil não mexemos na ortografia nem na construção do texto. Ninguém precisa de artifícios para ler português, seja ele escrito na variante portuguesa europeia, na brasileira ou em qualquer outra. Ora como há tantas, e ainda bem, era desnecessária mais uma, híbrida, contraditória e inconsequente: a “variável” AO 90.

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