Mentira(zita) e contradição(zita)

9. Por fim, quinta e última questão, a questão do espanhol e do inglês ou as comparações absurdas.
Ouço dizer: o Inglês  não tem acordo ortográfico e passa muito bem sem ele. Omite-se aqui que as oscilações ortográficas em Inglês (que, aliás, estão dicionarizadas) são muito reduzidas e também que, nele, a relação entre grafia e pronúncia é muito mais convencionada do que em Português; e falta  aprofundar  um pouco a questão, para chegarmos a uma resposta  óbvia: o Inglês não tem acordo ortográfico, porque simplesmente não precisa dele. E não precisa porque o seu esmagador poder linguístico é sobretudo um efeito de outros poderes que arrastam e praticamente impõem aquele poder linguístico: o poder político, o poder económico, o poder tecnológico, o poder cultural, etc. Numa palavra: o poder.

No caso do  Espanhol  importa ir um pouco mais longe e  lembrar que  a emancipação política da América Latina de colonização espanhola conduziu à fragmentação em cerca de uma vintena de países. Isso permitiu a sobrevivência de Espanha como uma espécie de “metrópole” europeia  com um certo ascendente  no plano linguístico; um ascendente que se reforça pelo labor de uma vigorosa política de difusão da língua, com a qual Portugal muito tem a aprender. Nessa política de língua intervém  a Real Academia Española, sendo inequívoco que esta última tem, no universo da Língua Espanhola, um prestígio normativo considerável: tenha-se em vista a capacidade de determinação e também de incorporação lexical que o Diccionario de la Lengua Española  possui, no vasto universo que cobre; uma capacidade de determinação que, evidentemente, vale por um amplo, tácito e respeitado acordo linguístico. Acresce a isto que, nos nossos dias, a Espanha é também uma potência económica, o que ajuda a fazer do Espanhol (e já não apenas naquele vasto espaço post-colonial, note-se) uma espécie de “inglês latino”.

Carlos Reis, in Ciberdúvidas

1. Incongruência(zita)

“as oscilações ortográficas em Inglês (que, aliás, estão dicionarizadas) são muito reduzidas”

Mas então o principal argumento não era a dos “apenas” 1,45%? Quer dizer: no Inglês, como são poucas as diferenças, não há necessidade de uniformização; já no Português, é necessário uniformizar porque as diferenças são poucas!

2. Lacuna(zita)

“a questão do espanhol e do inglês”

Então e o Francês? No MS-Word, existem 15 correctores ortográficos para Língua francesa: Suíça, Senegal, Reunião, RDC, Mónaco, Marrocos, Mali, Luxemburgo, Índias Ocidentais, Haiti, França, Costa do Marfim, Canadá, Camarões, Bélgica.

3. Ignorância(zita)

“o Inglês não tem acordo ortográfico, porque simplesmente não precisa dele”

Para Inglês, são 18 correctores ortográficos! E para Espanhol, são “só” 20!

4. Conclusão(zita)

Quanto ao Português… são 2!!! Apenas existem dois correctores, respectivamente para Português europeu (padrão) e para Português do Brasil.

Todos os diferentes glossários do MS-Word (como de qualquer outro processador de texto) incluem as variações ortográficas em conformidade com o país seleccionado. No caso de o utilizador importar ferramentas linguísticas (FLIP, por exemplo, no caso do Português europeu), também as variações sintácticas podem ser diferencialmente detectadas.

Assim como para o Inglês, o Francês e o Espanhol existe apenas um código de página (conjunto de caracteres), também para o Português existe apenas um (comando DOS: CHCP), 0 860.

Para ver as possibilidades de selecção de correctores, no MS-Word: Ferramentas/Tools, Idioma/Language, Definir Idioma/Select Language.

 

Print Friendly, PDF & Email
Share

Link permanente para este artigo: https://ilcao.com/2008/09/12/mentirazita-e-contradicaozita/

8 comentários

8 pings

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • Prof. Machado on 2 Fevereiro, 2011 at 17:25

    Gostaria de parabenizar a “Rádio e Televisão Pública de Portugal – RTP”, bem como ao “Jornal Record” pela excelente iniciativa de colocar em prática o que foi estabelecido pelo Acordo Ortográfico. Aos que não gostaram do A.O resta-lhes lembrar que o império português acabou já faz algum tempo e o pouco reconhecimento que a Língua Portuguesa possui se dá graças à posição brasileira no cenário econômico mundial. Atualmente está a crescer, ainda que a passos curtos, o interesse pela L.P, mas o interesse é na variante brasileira. Fato semelhante acontece na Rússia e foi notícia na RTP no dia 11/11/2010. (http://tv1.rtp.pt/noticias?article=390697&&headline=20&visual=9&tm=7&amp😉
    Dessa forma, de nada adiantará alguns portugueses ficarem a se desfazer do Brasil e sua fala e usar termos xenófobos como “brasileirês” e etc. Dentro de pouco tempo toda a geração escolar portuguesa atual já estará escrevendo com a nova ortografia e a rir-se da anterior, como fazíamos nós nos tempos de escola quando víamos coisas do tipo “PHARMÁCIA”.
    Portugal deveria fazer algo semelhante a Inglaterra ) que aproveitou a projeção americana no mundo) e comemorar a difusão de sua língua e lucrar com isso.
    CURIOSIDADES:
    Embora muitos se façam não entender o que um brasileiro escreve (ou fala) tenho certeza que SE esse comentário for aprovado para postagem não faltarão comentários de portugueses a contestarem. A pergunta é; se isso não é português como contestam? Como entendem o que é dito/escrito?
    O Prêmio Camões de Língua Portuguesa em suas 22 edições premiou curiosamente 9 autores BRASILEIROS e 9 autores PORTUGUESES (e um ANGOLANO nascido em Portugal que aliás, recusou). Se o Brasil não possui nem produz língua portuguesa de qualidade por que tantos autores/obras brasileiros (as) são premiados com prêmios dessa magnitude?
    Abraços a todos os portugueses, angolanos, moçambiquenhos, caboverdianos, timorenses … que como F. Pessoa tem mais amor a língua do que ao próprio país, pois senti-se em casa em qualquer terra em que se falasse português. Adoro o portugues de meus avós portuguesese amo nosso sotaque brasileiro. VIVA A LUSOFONIA!

    • Manuel Gonçalves on 9 Fevereiro, 2011 at 14:48

    Este comentário não se afasta muito do que eu penso a propósito do acordo ortográfico.
    Com a excepção de que embora eu admita o acordo, não penso que alguém
    se deva considerar o dono da língua. A língua é de quem a utiliza e não vamos nem discriminar nem sobre-avaliar ninguém. Temos óptimos autores da língua comum de várias nacionalidades. Continuemos a considerá-los e a ler os seus livros, bem como a fazer uso da que aprendemos e certamente a fazer as revisões adequadas, bem como a respeitar, nas Escolas as orientações definidas quanto ao seu ensino. Para mim esta questão não é razão para contendas.Entendamo-nos, é o que importa.

    • David Pinto on 13 Dezembro, 2011 at 15:57

    Prof. Machado…
    Por falta de tempo, não me vou poder estender neste comentário, mas não quero deixar passar esta oportunidade para lhe fazer um par de correcções que me parecem demasiado necessárias:

    Enquanto Brasileiro, pode até ser normal que gozassem (porque em Português de Portugal, “gozar” não é uma expressão sexual) com a palavra “Pharmacia”, até porque gozar com os Portugueses a quem pela frente chamam de “irmãos” e outras hipocrisias está demasiado enraizado na vossa cultura. Pessoalmente, e apesar de nunca ter escrito “Pharmacia” com “Ph” a não ser para efeitos de demonstração, como neste comentário, nunca gozei com o Português antigo que tanto me enche de orgulho.

    Passando à frente, que estou a ficar sem tempo, faço a segunda correcção:
    Não dizemos que seja outra língua por não vos entendermos. Aliás, chegará rapidamente à conclusão que os Portugueses são dos que mais facilmente compreendem as outras línguas “irmãs” (como o Castelhano, o Italiano ou o Português do Brasil) por oposição à tarefa hercúlea que a maioria dos Espanhóis, Italianos ou Brasileiros fazem parecer representar a simples compreensão da oratória Portuguesa.

    Não me lembro de necessitarmos, por exemplo, de legendas para ver as vossas telenovelas, mas sei que bastou um actor Português ir para o Brasil participar numa para ele ter, não só de adaptar a sua forma de falar – “abrasileirando-a” -, como de ver a sua participação acompanhada de legendas, como se estivesse a falar Esloveno.

    Assim, não falamos do “Brasileiro” como quase uma língua (ou dialecto, mais correctamente) diferente por qualquer dificuldade nossa de o entender, mas pela dificuldade que os seus falantes nativos têm de entender o Português de Portugal.

    Viva a Lusofonia, sim! Vivam as diferenças que a tornam tão única, inclusive as diferenças linguísticas que este Acordo Ortográfico está a tentar matar!

    Saudações Lusitanas.
    Abraço!

    • Joaquim Rodriques on 13 Dezembro, 2011 at 20:21

    @David Pinto
    Pelo amor de Deus, brasileiros entendem aos portugueses! É falácia dizer o contrário. Se não entendessem a um português inúmeros desses não participariam em telenovelas brasileiras. O que falta aos brasileiros é a vontade de entender. Se dublam/dobram os filmes é porque não gostam do sotaque português. Aliás, se não entendessem, também, não assistiriam a canais de TV como a RTPi e a SIC Internacional.
    Agora se o AO90 é bom ou ruim? Com toda a certeza ele é PÉSSIMO!
    Cumpts.

    • Manuel Patricio on 27 Dezembro, 2011 at 14:34

    Boa tarde, venho desta forma prestar o meu apoio a esta iniciativa, em defesa de uma língua, que se construiu com o saber dos de antanho e dos novos, todos eles amantes da palavra e da história.
    Manuel Patrício

    • José Silva on 27 Dezembro, 2011 at 17:28

    A bondade deste famigerado acordo tem sido sobejamente demosntrada por individualidades competentes e que, curiosamente, nunca foram tidas nem achadas sobre a matéria em causa. E concordo plenamente com David Pinto — o Acordo é mesmo PÉSSIMO!
    Já quanto aos brasileiros não gostarem do sotaque português, ignoro em que bases se apoiou David Pinto para chegar a uma tal conclusão. Talvez nas mesmas que me permitem a mim afirmar que muitos brasileiros consideram o Português “europeu”, especialmente o falado, muito superior ao Português “brasileiro”. Por mim, tenho perfeita consciência de que a minha afirmação não reveste qualquer rigor científico, dado tratar-se da minha observação pessoal resultante dos contactos e das afirmações de menos de uma centena de brasileiros. Talvez a opinião de David Pinto seja melhor fundamentada que a minha.
    Não estariam em causa, neste “acordo”, questões de pormenor que pudessem, apesar disso, ser modificadas com evidentes vantagens, de um lado e do outro, no sentido da “unificação” possível. Recordo, por exemplo, a opinião divulgada por um técnico português, lamentando que não tivesse sido julgada útil e necessária uma maior aproximação na terminologia científica que muito melhoraria a clareza dos relatórios e projectos preparados num país para serem lidos e analisados por técnicos de outro país. Este sim, seria um contributo de utilidade imediata no crescente intercâmbio empresarial entre os membros da CPLP. Infelizmente, o facto de uma tal aproximação nem sequer ter sido considerada atesta, indubitavelmente, quanto à razoabilidade e à competência do “acordo” – ou quanto à falta destas.
    Nesta mesma linha de pensamento, é oportuno citar aqui o segundo parágrafo do texto do acordo:
    “Considerando que o texto do acordo que ora se aprova resulta de um aprofundado debate nos Países signatários”…
    Aprofundado debate nos países signatários? Em quais? A julgar pelo que se passou em Portugal, nem aprofundado nem aligeirado – não houve NENHUM debate! Daqui será lícito inferir a “profundidade” do que terá ocorrido na Guiné, em Angola, em Moçambique, em Timor… ou no Brasil.
    Mas o mal está feito. Torna-se agora imperioso agir para que a medida seja revogada.

    • Baresi88 on 29 Março, 2012 at 14:43

    Não é Espanhol é Castelhano.

    • Helga Shermann Schmidt on 30 Março, 2012 at 11:49

    Olá, pessoal!

    O vocábulo ”Gozar”, no Brasil, além de ter sentido sexual também é usado como sinônimo de ‘bebochar’. Portanto, ‘gozar com os brasileiros’ seria o mesmo que ‘debochar dos brasileiros’! Aliás. é muito comum ouvir: “Estás gozando com a minha cara?/Estás de gozação?/ Etc.

    Abraços anti-acordistas!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.