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Set 12 2008

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Mentira(zita) e contradição(zita)

9. Por fim, quinta e última questão, a questão do espanhol e do inglês ou as comparações absurdas.
Ouço dizer: o Inglês  não tem acordo ortográfico e passa muito bem sem ele. Omite-se aqui que as oscilações ortográficas em Inglês (que, aliás, estão dicionarizadas) são muito reduzidas e também que, nele, a relação entre grafia e pronúncia é muito mais convencionada do que em Português; e falta  aprofundar  um pouco a questão, para chegarmos a uma resposta  óbvia: o Inglês não tem acordo ortográfico, porque simplesmente não precisa dele. E não precisa porque o seu esmagador poder linguístico é sobretudo um efeito de outros poderes que arrastam e praticamente impõem aquele poder linguístico: o poder político, o poder económico, o poder tecnológico, o poder cultural, etc. Numa palavra: o poder.

No caso do  Espanhol  importa ir um pouco mais longe e  lembrar que  a emancipação política da América Latina de colonização espanhola conduziu à fragmentação em cerca de uma vintena de países. Isso permitiu a sobrevivência de Espanha como uma espécie de “metrópole” europeia  com um certo ascendente  no plano linguístico; um ascendente que se reforça pelo labor de uma vigorosa política de difusão da língua, com a qual Portugal muito tem a aprender. Nessa política de língua intervém  a Real Academia Española, sendo inequívoco que esta última tem, no universo da Língua Espanhola, um prestígio normativo considerável: tenha-se em vista a capacidade de determinação e também de incorporação lexical que o Diccionario de la Lengua Española  possui, no vasto universo que cobre; uma capacidade de determinação que, evidentemente, vale por um amplo, tácito e respeitado acordo linguístico. Acresce a isto que, nos nossos dias, a Espanha é também uma potência económica, o que ajuda a fazer do Espanhol (e já não apenas naquele vasto espaço post-colonial, note-se) uma espécie de “inglês latino”.

Carlos Reis, in Ciberdúvidas

1. Incongruência(zita)

“as oscilações ortográficas em Inglês (que, aliás, estão dicionarizadas) são muito reduzidas”

Mas então o principal argumento não era a dos “apenas” 1,45%? Quer dizer: no Inglês, como são poucas as diferenças, não há necessidade de uniformização; já no Português, é necessário uniformizar porque as diferenças são poucas!

2. Lacuna(zita)

“a questão do espanhol e do inglês”

Então e o Francês? No MS-Word, existem 15 correctores ortográficos para Língua francesa: Suíça, Senegal, Reunião, RDC, Mónaco, Marrocos, Mali, Luxemburgo, Índias Ocidentais, Haiti, França, Costa do Marfim, Canadá, Camarões, Bélgica.

3. Ignorância(zita)

“o Inglês não tem acordo ortográfico, porque simplesmente não precisa dele”

Para Inglês, são 18 correctores ortográficos! E para Espanhol, são “só” 20!

4. Conclusão(zita)

Quanto ao Português… são 2!!! Apenas existem dois correctores, respectivamente para Português europeu (padrão) e para Português do Brasil.

Todos os diferentes glossários do MS-Word (como de qualquer outro processador de texto) incluem as variações ortográficas em conformidade com o país seleccionado. No caso de o utilizador importar ferramentas linguísticas (FLIP, por exemplo, no caso do Português europeu), também as variações sintácticas podem ser diferencialmente detectadas.

Assim como para o Inglês, o Francês e o Espanhol existe apenas um código de página (conjunto de caracteres), também para o Português existe apenas um (comando DOS: CHCP), 0 860.

Para ver as possibilidades de selecção de correctores, no MS-Word: Ferramentas/Tools, Idioma/Language, Definir Idioma/Select Language.

 

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8 comentários

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  1. Prof. Machado

    Gostaria de parabenizar a “Rádio e Televisão Pública de Portugal – RTP”, bem como ao “Jornal Record” pela excelente iniciativa de colocar em prática o que foi estabelecido pelo Acordo Ortográfico. Aos que não gostaram do A.O resta-lhes lembrar que o império português acabou já faz algum tempo e o pouco reconhecimento que a Língua Portuguesa possui se dá graças à posição brasileira no cenário econômico mundial. Atualmente está a crescer, ainda que a passos curtos, o interesse pela L.P, mas o interesse é na variante brasileira. Fato semelhante acontece na Rússia e foi notícia na RTP no dia 11/11/2010. (http://tv1.rtp.pt/noticias?article=390697&&headline=20&visual=9&tm=7&amp😉
    Dessa forma, de nada adiantará alguns portugueses ficarem a se desfazer do Brasil e sua fala e usar termos xenófobos como “brasileirês” e etc. Dentro de pouco tempo toda a geração escolar portuguesa atual já estará escrevendo com a nova ortografia e a rir-se da anterior, como fazíamos nós nos tempos de escola quando víamos coisas do tipo “PHARMÁCIA”.
    Portugal deveria fazer algo semelhante a Inglaterra ) que aproveitou a projeção americana no mundo) e comemorar a difusão de sua língua e lucrar com isso.
    CURIOSIDADES:
    Embora muitos se façam não entender o que um brasileiro escreve (ou fala) tenho certeza que SE esse comentário for aprovado para postagem não faltarão comentários de portugueses a contestarem. A pergunta é; se isso não é português como contestam? Como entendem o que é dito/escrito?
    O Prêmio Camões de Língua Portuguesa em suas 22 edições premiou curiosamente 9 autores BRASILEIROS e 9 autores PORTUGUESES (e um ANGOLANO nascido em Portugal que aliás, recusou). Se o Brasil não possui nem produz língua portuguesa de qualidade por que tantos autores/obras brasileiros (as) são premiados com prêmios dessa magnitude?
    Abraços a todos os portugueses, angolanos, moçambiquenhos, caboverdianos, timorenses … que como F. Pessoa tem mais amor a língua do que ao próprio país, pois senti-se em casa em qualquer terra em que se falasse português. Adoro o portugues de meus avós portuguesese amo nosso sotaque brasileiro. VIVA A LUSOFONIA!

  2. Manuel Gonçalves

    Este comentário não se afasta muito do que eu penso a propósito do acordo ortográfico.
    Com a excepção de que embora eu admita o acordo, não penso que alguém
    se deva considerar o dono da língua. A língua é de quem a utiliza e não vamos nem discriminar nem sobre-avaliar ninguém. Temos óptimos autores da língua comum de várias nacionalidades. Continuemos a considerá-los e a ler os seus livros, bem como a fazer uso da que aprendemos e certamente a fazer as revisões adequadas, bem como a respeitar, nas Escolas as orientações definidas quanto ao seu ensino. Para mim esta questão não é razão para contendas.Entendamo-nos, é o que importa.

  3. David Pinto

    Prof. Machado…
    Por falta de tempo, não me vou poder estender neste comentário, mas não quero deixar passar esta oportunidade para lhe fazer um par de correcções que me parecem demasiado necessárias:

    Enquanto Brasileiro, pode até ser normal que gozassem (porque em Português de Portugal, “gozar” não é uma expressão sexual) com a palavra “Pharmacia”, até porque gozar com os Portugueses a quem pela frente chamam de “irmãos” e outras hipocrisias está demasiado enraizado na vossa cultura. Pessoalmente, e apesar de nunca ter escrito “Pharmacia” com “Ph” a não ser para efeitos de demonstração, como neste comentário, nunca gozei com o Português antigo que tanto me enche de orgulho.

    Passando à frente, que estou a ficar sem tempo, faço a segunda correcção:
    Não dizemos que seja outra língua por não vos entendermos. Aliás, chegará rapidamente à conclusão que os Portugueses são dos que mais facilmente compreendem as outras línguas “irmãs” (como o Castelhano, o Italiano ou o Português do Brasil) por oposição à tarefa hercúlea que a maioria dos Espanhóis, Italianos ou Brasileiros fazem parecer representar a simples compreensão da oratória Portuguesa.

    Não me lembro de necessitarmos, por exemplo, de legendas para ver as vossas telenovelas, mas sei que bastou um actor Português ir para o Brasil participar numa para ele ter, não só de adaptar a sua forma de falar – “abrasileirando-a” -, como de ver a sua participação acompanhada de legendas, como se estivesse a falar Esloveno.

    Assim, não falamos do “Brasileiro” como quase uma língua (ou dialecto, mais correctamente) diferente por qualquer dificuldade nossa de o entender, mas pela dificuldade que os seus falantes nativos têm de entender o Português de Portugal.

    Viva a Lusofonia, sim! Vivam as diferenças que a tornam tão única, inclusive as diferenças linguísticas que este Acordo Ortográfico está a tentar matar!

    Saudações Lusitanas.
    Abraço!

  4. Joaquim Rodriques

    @David Pinto
    Pelo amor de Deus, brasileiros entendem aos portugueses! É falácia dizer o contrário. Se não entendessem a um português inúmeros desses não participariam em telenovelas brasileiras. O que falta aos brasileiros é a vontade de entender. Se dublam/dobram os filmes é porque não gostam do sotaque português. Aliás, se não entendessem, também, não assistiriam a canais de TV como a RTPi e a SIC Internacional.
    Agora se o AO90 é bom ou ruim? Com toda a certeza ele é PÉSSIMO!
    Cumpts.

  5. Manuel Patricio

    Boa tarde, venho desta forma prestar o meu apoio a esta iniciativa, em defesa de uma língua, que se construiu com o saber dos de antanho e dos novos, todos eles amantes da palavra e da história.
    Manuel Patrício

  6. José Silva

    A bondade deste famigerado acordo tem sido sobejamente demosntrada por individualidades competentes e que, curiosamente, nunca foram tidas nem achadas sobre a matéria em causa. E concordo plenamente com David Pinto — o Acordo é mesmo PÉSSIMO!
    Já quanto aos brasileiros não gostarem do sotaque português, ignoro em que bases se apoiou David Pinto para chegar a uma tal conclusão. Talvez nas mesmas que me permitem a mim afirmar que muitos brasileiros consideram o Português “europeu”, especialmente o falado, muito superior ao Português “brasileiro”. Por mim, tenho perfeita consciência de que a minha afirmação não reveste qualquer rigor científico, dado tratar-se da minha observação pessoal resultante dos contactos e das afirmações de menos de uma centena de brasileiros. Talvez a opinião de David Pinto seja melhor fundamentada que a minha.
    Não estariam em causa, neste “acordo”, questões de pormenor que pudessem, apesar disso, ser modificadas com evidentes vantagens, de um lado e do outro, no sentido da “unificação” possível. Recordo, por exemplo, a opinião divulgada por um técnico português, lamentando que não tivesse sido julgada útil e necessária uma maior aproximação na terminologia científica que muito melhoraria a clareza dos relatórios e projectos preparados num país para serem lidos e analisados por técnicos de outro país. Este sim, seria um contributo de utilidade imediata no crescente intercâmbio empresarial entre os membros da CPLP. Infelizmente, o facto de uma tal aproximação nem sequer ter sido considerada atesta, indubitavelmente, quanto à razoabilidade e à competência do “acordo” – ou quanto à falta destas.
    Nesta mesma linha de pensamento, é oportuno citar aqui o segundo parágrafo do texto do acordo:
    “Considerando que o texto do acordo que ora se aprova resulta de um aprofundado debate nos Países signatários”…
    Aprofundado debate nos países signatários? Em quais? A julgar pelo que se passou em Portugal, nem aprofundado nem aligeirado – não houve NENHUM debate! Daqui será lícito inferir a “profundidade” do que terá ocorrido na Guiné, em Angola, em Moçambique, em Timor… ou no Brasil.
    Mas o mal está feito. Torna-se agora imperioso agir para que a medida seja revogada.

  7. Baresi88

    Não é Espanhol é Castelhano.

  8. Helga Shermann Schmidt

    Olá, pessoal!

    O vocábulo ”Gozar”, no Brasil, além de ter sentido sexual também é usado como sinônimo de ‘bebochar’. Portanto, ‘gozar com os brasileiros’ seria o mesmo que ‘debochar dos brasileiros’! Aliás. é muito comum ouvir: “Estás gozando com a minha cara?/Estás de gozação?/ Etc.

    Abraços anti-acordistas!

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