«Vamos a “Pârich”? Ou a “Páriss”?» [Nuno Pacheco, “Revista 2”, 14.04.2013]

NP-rev2_14Abr2013Quem for de Algés para Belém, há-de encontrar do seu lado direito um vistoso edifício com o seguinte dístico, em letras grandes e brancas a erguerem-se da relva: Champalimaud Centre for the Unknow. Pormenor: se este centro tivesse sido edificado, por exemplo, na América Latina, chamar-se-ia certamente, Center for the Unknow. Porque “center” é a grafia usada nos Estados Unidos, do outro lado do Atlântico, e “centre” a usada em Inglaterra, do lado de cá. Ninguém tem ou teve, jamais, o mínimo problema com isso e, como se vê por cá, até os não anglófonos escolhem a grafia que mais lhes convém – ou simplesmente a que mais lhes apetece.

Outro exemplo. Peguemos numa palavra simples, conhecida de todos e com a mesma grafia em várias línguas: Paris. Se pedirmos a um lisboeta que a leia, ele dirá: “Pârich”. Se fizermos a mesma experiência com um espanhol, dirá “Párís”. Um brasileiro lerá “Páriss”, um catalão “Párríss”, um alemão “Párriss” e um francês, parisiense ou não, dirá “Párrí”.

O que importa isto? Importa em dois sentidos. Primeiro, comprova (se ainda fosse preciso fazê-lo) que há divisões ortográficas naturais num mesmo idioma, derivadas da sua adopção por diferentes povos, que vão modelando a língua e criando novas variantes. Segundo, que uma mesma palavra é pronunciada de diferentes formas consoante os sistemas vocálicos existentes em cada país, distrito ou mesmo região. Paris não muda de grafia quando é pronunciada “Pârich” ou “Páriss”, embora noutros idiomas tenha assumido forma gráfica diversa. Os italianos, por exemplo, escrevem Parigi.

Assim, não é por má vontade ou deficiência que um português lerá “ef”tivo” quando lhe põem à frente a palavra “efetivo”, palavra que um brasileiro lerá como “êfétjivo”. Isto é simples, muito simples, e qualquer criança percebe. Já“efectivo” obriga um português, pela presença do C antes do T, a abrir o E mesmo que o C não se “ouça” na fala. Não é uma regra arbitrária: é, além do respeito pela etimologia, pela raiz da palavra (do latim ‘effectívu’, ou “activo que produz”), o respeito pelo sistema vocálico próprio do português europeu.

Isto vem a propósito de duas coisas: a recente entrevista (ao PÚBLICO, 8 de Abril) de Francisco José Viegas (F.J.V.), escritor e ex-secretário de Estado da Cultura; e a edição da obra completa do Padre António Vieira com a aplicação do polémico acordo ortográfico de 1990 (AO90). Na entrevista, F.J.V. diz que lhe faz impressão tirarem um C a coleccionador. No entanto, o seu mais recente livro chama-se ‘O Colecionador de Erva’. Pelos vistos, ao contrário do que defendia outrora F.J.V., os escritores não são tão livres assim: o seu livro foi “transcrito” segundo as normas do AO90; e Vieira, séculos depois de morto, teve o mesmo tratamento. Ah, dirão, mas esta é a grafia unificada, aquela que vai ficar para o futuro! É? Não parece. Os autores do AO admitem que ele terá de ser revisto; Vieira não diz nada porque morreu há muito; e Viegas não só diz que haverá certamente alterações como acrescenta, na citada entrevista, que “é possível, dentro das várias comissões científicas, alterar o que quisermos”. Extraordinário: estamos a imprimir livros numa grafia que vai ficar desactualizada muito mais depressa do que qualquer outra das que a antecederam; mais: que já está desactualizada no próprio momento da impressão porque os vocabulários e livros “acordeiros” não se põem de acordo entre si e as diferenças, além de muitas, são inacreditáveis. Portanto, corrigindo a frase: estamos a assassinar livros, dando-lhes uma ortografia errada, desconexa, incongruente e, às vezes, mesmo imbecil.

Dito isto, não era só com a grafia de “colecionador” que Viegas devia impressionar-se, mas sobretudo com a forma como os portugueses lerão a palavra: “col”cionador”. Os brasileiros não terão esse problema, claro. Mas, como sabemos (e o próprio autor admite), no Brasil, “erva” quer dizer outra coisa, pelo que, em edições “lusófonas”, o livro deveria “traduzir-se” talvez para “O Colecionador de Maconha” (Brasil), “O Coleccionador de Liamba” (Angola; e com dois CC porque o país não aplica o AO) e “O Coleccionador de Suruma” (Moçambique, que também não aplica o AO). É uma idiotice? Claro que é. Mas o AO é uma idiotice bem maior. A propósito: sabem que muitos materiais didácticos brasileiros falam das obras de “Padre ‘Antônio’ Vieira”? Como se resolve isto numa obra una, hã?

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco publicado na revista “2” (suplemento do jornal “Público”) de 14 de Abril de 2013, página 40.]

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3 comentários

  1. Resolve. Crismam-se todos os antónios em antônios. Porque os antônios são a maioria.
    Cumpts.

  2. Mais um excelente artigo de Nuno Pacheco.

    Obrigado pela sua persistência, que é a de todos nós, os que rejeitamos visceralmente esta aberração do AO90.

  3. Outro texto lúcido de Nuno Pacheco, denunciando as incongruências do AO90. Quem não estava lúcido na altura em que engendrou toda esta macacada foi Malaca Casteleiro. Provavelmente devido a qualquer substância tomada… Se o livro de F.J.V. fosse “traduzido” para hindi por aquele professor, tomaria certamente o nome de “O Colecionador de Ganja”.

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