«Um “acordo” cada vez mais “corruto”» [Nuno Pacheco, PÚBLICO, 13.01.2012]

Publico_NP-13Jan2013

Há boas e más maneiras de começar o ano. Entre as boas, conta-se a reabilitação das tradicionais Janeiras, que José Barros e os Navegante levaram ao Olga Cadaval, em Sintra, na véspera do Dia de Reis. Uma festa com temas tradicionais de Trás-os-Montes, Alentejo, Beira Baixa e Algarve, onde não faltou, no exterior, fogueira e prova de queimada galega, herança medieval de aguardente a arder (sim, com fogo mesmo). Quem assistiu aplaudiu com razão. Porque a memória de Portugal teve, ali, nota alta.

Entre as más, está a renitência em reconhecer o desconchavo do acordo ortográfico (AO). No início do ano, um jornal que até aqui (e bem) não o aplicava, o ‘Correio da Manhã’ (CM), cedeu. O pior está menos na cedência do que na argumentação. “A nossa prioridade”, escreveram dias antes, “é tornar a comunicação mais fácil”. Mas onde a trapalhada se insinua é quando, para garantir a tal “comunicação fácil”, o ‘CM’ escreve isto: “Nesse sentido, nas palavras que admitem dupla grafia, optámos por manter tal como na “escrita antiga” [sic].” Ah, e escreverão “pára” e não “para”, no verbo parar.

Querem ver a lista? É uma delícia. Escreverão, de futuro, ceptro e não ‘cetro’, amígdala e não ‘amídala’, espectador e não ‘espetador’; mas escolhem (porque a moderna “ortografia” é mesmo ‘a la carte’) ‘carateres’ em vez de caracteres,’receção’ em vez de recepção, ‘setor’ em vez de sector, ‘conceção’ em vez de concepção, ‘cato’ em vez de cacto. Grafia antiga? Fantástico. Mais fantástico ainda é confundir-se “duplas grafias” (mesmo ‘a la carte’) com grafias de uso corrente em Portugal e no Brasil há décadas. Ou seja, o ‘CM’ orgulha-se (para garantir a tal “comunicação fácil”) de escrever omnipotente, indemnizar, facto, subtil, sumptuoso, súbdito, académico, topónimo e não ‘onipotente’, ‘indenizar’, ‘fato’, ‘sutil’, ‘suntuoso’, ‘súdito’, ‘acadêmico’, ‘topônimo’, quando tais variantes não têm escolha possível. Por que motivo escreveríamos ‘Antônio’ ou ‘bebê’ se em Portugal dizemos António e bebé? Ou ‘sutil’, se dizemos e escrevemos subtil? Será isto uma “escolha”? Não, não é. Mas o mais inacreditável é o ‘CM’ dizer que escreverá aritmética e não ‘arimética’, corrupto e não ‘corruto’, fêmea e não ‘fémea’, dicção e não ‘dição’. Vamos por partes: no Brasil, apesar de alguns livrecos “modernos” consignarem tais “variantes”, diz-se e escreve-se aritmética e corrupto. Com t e p. Quanto a “dição”, existe na verdade, mas não tem nada a ver com dicção. Significa “domínio, autoridade”, enquanto dicção é o acto ou maneira de dizer ou de pronunciar. Já “fémea” só pode ser puro delírio de quem não sabe o que escreve.

A confusão entende-se. O acordo é que não se entende. Quem anda por aí a brincar ao “acordês” julga que basta tirar umas consoantes para respeitar o acordo (o dição ‘versus’ dicção deve provir dessa ideia peregrina). Ora, como prova um interessante documento entregue esta semana ao ministro Nuno Crato (o estudo é de Rui Manuel Ventura Duarte e um grupo de especialistas e a carta é subscrita por quase duzentas pessoas), nem mesmo os defensores do AO se entendem. Uma análise comparativa de várias dezenas de palavras em dicionários, vocabulários e no próprio AO mostra que a confusão é generalizada. O que nuns é imperativo noutros é facultativo, onde nuns há norma única, noutros há grafias duplas, onde uns assinalam PT e BR no uso das variantes (o que é correctíssimo, até porque identifica o uso real das grafias), outros ignoram tal distinção. Erros, falsidades, invenções, há de tudo um pouco para quem queira dar-se ao trabalho de conferir (http://fr.scribd.com/doc/119430003/Carta-a-Min-Educ-Nova).

Nem de propósito: esta semana também o PCP viu aprovada na Comissão de Cultura (e por unanimidade!) uma proposta sua no sentido de criar uma comissão para acompanhar a aplicação do AO, porque “o debate não está terminado e a utilização da grafia resultante do Acordo tem gerado inúmeros discensos entre a comunidade“. E a Sociedade Portuguesa de Autores emitiu um comunicado dizendo que “continuará a utilizar a norma ortográfica antiga nos seus documentos e na comunicação com o exterior, uma vez que o Conselho de Administração considera que este assunto não foi convenientemente resolvido e está longe de estar esclarecido“. Acordo, disseram? Se existe, está cada vez mais “corruto”. Com sorte, a “arimética” há-de ajudar…

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de crónica de Nuno Pacheco no jornal PÚBLICO de 10.01.2013.]

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14 comentários

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    • Vasco Freitas on 13 Janeiro, 2013 at 15:38
    • Responder

    Isto é uma autêntica bagunçada. Um País a cair nos penhascos da miséria e a gastar dinheiro e energia com acordos ortográficos, destruindo o pouco que resta do património nacional.

    • Maria Miguel on 13 Janeiro, 2013 at 16:38
    • Responder

    Mais um texto Memorável. Aplausos ao Senhor jornalista, Nuno Pacheco.
    Constatamos que só há uma forma de resolver o assunto: voltar à escrita de 1945. Data que assinala, não só o nascimento de portugueses Brilhantes, como o fim de uma desastrosa guerra entre alemães e o mundo.

    Pensar nesta data, simbolicamente, é trazer de volta muita coisa, mas fiquemos pelo desejo de que seja libertado o Português (de 1945) aprisionado por esquemas idiotas, nascidos de ignorâncias, de espíritos rendidos e vendidos ao exterior e a lucros, tão desastrosos como desastrosas são sempre as próprias guerras.
    Notemos que, sempre que os políticos se deixam ludibriar, enganar e comprar pelo exterior, é Portugal que se vê ultrajado, conforme no-lo narra a História. Neste caso do (ao), agradeço ao Brasil ter recusado os contratos que combinou. É mais uma prova de que Portugal tem que assumir que não são os contratos fraudulentos, material e espiritualmente, que nos levarão a “Que se Cumpra Portugal”.

    Agradeço à infantilidade do CM – motor a ajudar-nos a caminhar. Se houvesse alguma coerência naquela dita decisão, os defensores do Português teriam menos razão.
    Obrigada

  1. O que ainda não me foi explicado, é o seguinte : Em português, a sílaba tónica, salvo acentuação em contrário ou excepção, é sempre a penúltima silaba de cada palavra. Sendo assim, como se lerá espectáculo, quando cai o C ? Creio que se deverá ler ‘esp’táculo’, não será ? .É o que me acontece nesta e noutras palavras, quando estou a ler um texto, e me aparecem estes abortos do AO.

    • Maria do Carmo Vieira on 13 Janeiro, 2013 at 19:58
    • Responder

    Perante tudo o que foi cuidadosamente apresentado pelo jornalista Nuno Pacheco, que argumentos poderão apresentar os Acordistas e os infelizes do CM que tão «pedagogicamente» tentaram explicar a sua decisão?
    O que nos surpreende é tanta estupidez! Até quando? Até quando?

    O grande problema é sem dúvida alguma a falta de Cultura que grassa estrondosamente por aí… Aliás, ao escrever a forma verbal «di-lo-ão», chamaram-me convictamente a atenção para o erro que eu cometera. E é assim!
    Um imenso bem-haja ao Nuno Pacheco!

    • Hugo X. Paiva on 13 Janeiro, 2013 at 21:42
    • Responder

    Palavras para quê?
    Qual a instância de Direito onde se pode recorrer?
    Vive-se em estado de insanidade colectiava, nesta e nas demais coisas da Nação.
    E à bandidagem não lhes acontece nada.
    Que se pode esperar do amanhã, quando se continua a cavar, mais e mais, o buraco em que Portugal se enterra?
    Este texto de Nuno Pacheco, é motivo mais que suficiente pra uma intervenção da autoridade, para uma justificação pública acompanhada de atestado de junta médica.e o que é que temos?
    Nada de novo a Oeste!

    • Manuela on 13 Janeiro, 2013 at 22:17
    • Responder

    Tinham que acabar com esse furdúncio.

    • Hugo X. Paiva on 13 Janeiro, 2013 at 23:09
    • Responder

    colectiva,bem entendido.

  2. Outro excelente texto do jornalista Nuno Pacheco. Que se junta aos de Vasco Graça Moura, Maria José Abranches, António de Macedo, Octávio dos Santos, Rocío Ramos, Helena Buescu, Maria Alzira Seixo e de tantos outros que, por esse país fora, escrevem em jornais e revistas. Mais do que nunca é preciso denunciar a “fantasia ridícula”, o delírio chamado AO, que fere de morte a língua portuguesa. Mais do que nunca é necessário levantar a voz contra os políticos (com assento parlamentar e não só) que aprovaram e insistem em aprovar esta anedota.

    • São Vieira on 15 Janeiro, 2013 at 18:38
    • Responder

    Desculpem, mas acho um total desconhecimento quando erradamente o jornalista o jornalista não sabe as regras do novo acordo. Isto nada tem a ver se eu concorde ou não com este. Escreve-se corruPto porque esta consoante não é muda ou seja pronuncia-se. A regra geral é que todas as consoantes mudas não se escrevem e está correto. Pois se nós não as pronunciamos para que a escrevemos? Já agora, por que razão não escreve PHarmácia? Há situações bem mais complicadas e esta regra está correta. Cada letra serve para simbolizar um som. Ele não existe, logo a letra também não.

    1. eheheheheheheheheh

      Boa piada. Excelente. Conte mais dessas!

  3. Hahhaahahahah!! Impagáveis, estes acordistas 😉

    • Hugo X. Paiva on 15 Janeiro, 2013 at 20:45
    • Responder

    Os mais acérrimos seguidores do “acordo” regra geral,quase sem excepção,não fazem ideia do que andam a falar. Uns têm no “acordo” uma oportunidade para dar nas vistas,para terem de que falar, sem interessar para nada se sabem ou não da matéria. Como regra geral a audiência é lorpa, saem deixando no ar aquele ar de duvida que eles tanto apreciam.São os sabonetes lá do bairro, da colectividade,da hora da bica. Outros lambem botas!

    • Jorge Teixeira on 15 Janeiro, 2013 at 22:58
    • Responder

    Para mim é um mistério as pessoas que confundem letras com sons. Uma letra não é um som. Uma letra é um símbolo, um desenho, um risco. As vogais e as consoantes não são letras, são sons.

  4. Pois eu digo pharmacia com phi grego. Aprendi com o meu visavô.

    Cumpts.

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