Carta à Sociedade da Língua Portuguesa [Eng. Miguel Casquilho]

Cara Amiga e Presidente Elsa Rodrigues dos Santos,

(Qua, 06Jun2012, 22h30) Decidiu a SLP adoptar (adotar, adutar, etc.) o famoso Aborto Hortográfico. Com (sincera) mágoa, venho desligar-me de todas as actividades da SLP, inclusivamente como sócio, neste seu (da SLP), vosso e (ex-)nosso dificílimo momento. De facto, não quereria ser conotado –eu, que sempre o abjurei– com este atentado linguístico e, principalmente, científico.

Fico, no entanto, ainda, ao dispor para “passar o testemunho”, se assim o entenderem, quanto ao sítio Internet da SLP, que gratuitamente construí e mantive com gosto, no sentido, eventualmente, de vos sugerir alguém ou alguma entidade para dele cuidar.

Creia, amiga Elsa –assim continuarei a considerá-la–, que é com desgosto que tomo esta decisão, mas desgosto e vergonha maior é ver-vos, a si e à Sociedade, enveredar por esta degradação e subserviência.

Cordiais saudações,

Miguel Casquilho

[carta enviada pelo Eng. Miguel Casquilho à SLP e reproduzida com a autorização do autor. Cópia recebida por email.]

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11 comentários

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  1. Ora aqui está! É disto que precisamos. E não pára aqui. Honra ao Eng.º Miguel Casquilho.
    Cumpts.

    • Maria José Abranches on 8 Junho, 2012 at 15:35
    • Responder

    Muito nos honra, e a Portugal, Sr. Eng.º Miguel Casquilho! Um português de têmpera, “d’antes quebrar que volver”, para quem a dignidade da nossa língua nacional é incompatível com a “degradação e subserviência” a que o AO90 a submete!

    • Hugo X. Paiva on 8 Junho, 2012 at 17:17
    • Responder

    Quem cala,consente.

    • Jorge Castro on 8 Junho, 2012 at 22:10
    • Responder

    Ainda há homens no meio de tanta carneirada. Não se pode desistir de lutar pela Língua Portuguesa.
    Não à usurpação violenta da nossa identidade!

    Sempre contra o Aborto Hortográfico.

    Bem Haja!

  2. Entretanto más novas. Moçambique enveredou pelo aborto. Dizem que não queriam ser uma ilha. Diz que o Mia miou que sim. Ao diabo!
    Somos nós que contamos. Assinar a I.L.C. é que devemos.
    (Ao que havia Portugal de chegar, chiça!)

    • Luís Ferreira on 9 Junho, 2012 at 16:29
    • Responder

    Logo Moçambique, que até queria/quer, se a memória não me atraiçoa, ter como língua oficial o inglês.
    Quanto ao Mia… tão modernaço, tão criativo que ele é com língua…

    • Pedro Marques on 9 Junho, 2012 at 22:38
    • Responder

    Meus caros Luís e Bic, nós temos então que levar os povos da CPLP a condenar este acordo, já que os Ministérios e os Governos estão a favor, nós temos que chegar aos povos.

  3. @ Pedro Marques
    É um equívoco. Raciocina num paradigma de «lusofonia». Não interessa. Angola não tarda a atascar-se no dejecto. Se o não fizer o caso muda de figura. Mas é coisa de governos (pouco letrados). As massas não ajudam, nem cá nem lá (lá muito menos; mas isto é um caso com Portugal; os outros, é lá com eles; não me imponham eles nada porque não lhes impõe Portugal já mais nada — aliás, começa por aí: o Brasil deu-se a arrogância de ignorar o Acordo de 1945 e subversivamente acabou por arregimentar traidores para nos impor o crioulo).
    Do ponto de vista linguístico, só gente mìnimamente alfabetizada e com massa crítica pode entender o caso. As massas de analfabetos ou de nativos africanos que nem português falam, por conseguinte… já vê.
    Não. Isto é caso de sermos nós a massa crítica e, não sendo possível chamar à boa razão as cavalgaduras que tomaram Portugal de assalto (uma impossibilidade física e metafísica, infelizmente), resta esforçarmo-nos cá e forçar pelos meios desses tratantes que passam por portugueses nos órgãos de soberania. Neste caso é dar ao projecto da I.L.C. força de lei, pois que com leis civis desfazem a ordem natural. Os outros, os ultramarinos, que se amanhem. Portugal é cá; há muito que acabaram com ele lá. Ora sendo assim que quiseram e fizeram, ainda não chega? É preciso acabar com Portugal cá? Também é contra isso que me revolto. Não me submeto de boamente a humilhações ignóbeis. É isso que o eng.º Casquilho demonstra aqui, também.
    Cumpts.

  4. Escrevo este comentário num dia 10 de Junho, Dia de Portugal (?) com a mágoa de saber cada vez menos o que isso significa.
    Já se disse tudo quanto havia a dizer contra o mal azado AO90, sobre as suas absurdezas, incongruências, falhas, incompetências e inúmeras confusões que provoca.
    Mas a governança não desarma, apesar da oposição confessa de alguns dos seus ministros, que não concordam mas dobram o espinhaço e submetem-se.
    Mediante uma sistemática desinformação maliciosa, a ortografia do AO45 anda a ser designada por “antiga ortografia”, não obstante continuar em vigor porque segundo o juiz do 2.º Juízo Cível do Tribunal Judicial de Viana do Castelo, este acordo não entrou em vigor na ordem jurídica portuguesa.
    Em vigor ou não, somos todos os dias bombardeados, para não dizer violados, pela enorme quantidade de abjecções que nos entram pela casa adentro através dos 200 e muitos canais da TV por subscrição, cheios de filmes legendados num pseudoportuguês-palhaço que não é nem “portugalês” nem “brasilês”, que desnorteia quem quer entender o que se passa no pequeno ecrã, como num filme que vi há dias (entre muitas outras aberrações) onde havia um receptador de antibióticos traficados, e alguém dizia referindo-se a ele: «Fulano recetava antibióticos», e eu, com a rapidez das legendas, li «receitava», porque nós lemos por síntese, e fiquei desorientado porque Fulano não era médico nem a situação tinha a ver com receitas médicas, e só depois se me fez luz — o que lá deveria ter estado era: «Fulano RECEPTAVA antibióticos»!
    Mas a desgraça não se fica por aqui, ainda temos de nos defrontar com a infeliz tendência portuga de ser mais papista que o Papa, e nos inúmeros casos de dupla grafia, em que tanto em Portugal como no Brasil o AO90 prevê e admite duas formas, como por exemplo espectador/espetador, ou sector/setor, os jornais e as televisões, em Portugal, preferem escrever sempre espetador e setor, talvez porque pensem que assim é que está bem e mais de acordo com a nova moda!
    Perdemos a moeda, perdemos a soberania face à Europa e à troika, perdemos a língua com a descaracterização dalgumas das suas mais marcantes matrizes etimológicas… Qualquer dia os Descobrimentos Portugueses passarão a designar-se EURO-DESCOBRIMENTOS, conforme já vaticinava o antropólogo Miguel Vale de Almeida no seu romance EuroNovela (1998), e não falta muito para que nos livros escolares de História de Portugal se façam as emendas apropriadas, dizendo por exemplo que o rei EUROPEU Afonso Henriques conquistou aos Mouros um RECANTO DA EUROPA de gente acomodatícia e clima aprazível.
    É sucessiva a onda de editoras e de publicações, quer em papel, quer na Internet, que enfileiram neste servil tráfico ignóbil, e o que vemos é uma generalizada passividade indiferente por parte da população, que passa ao lado de anúncios, folhetos de supermercado, tabuletas, cartazes, painéis, onde se lê p. ex. “poupe eletricidade”, “coleções de inverno”, “seleção nacional”, etc., etc. e nem nota a diferença – será que estamos a assistir ao requiem do que resta de dignidade pátria e nada há que possa travar este cancro avassalador cujas metástases já tudo invadem e sufocam?

  5. Continuemos na defesa do nosso triste Português.

    Ainda julgo que tudo isto não passa de um mau sonho e que amanhã, ao acordar, ouvirei falar Português.

    • Paulo Alves on 11 Junho, 2012 at 3:35
    • Responder

    Premonitório.

    “Numa das notas de rodapé de História Secreta de Portugal, Telmo, a partir do horóscopo traçado por Pessoa para Portugal, chama a atenção para uma mutação na orientação do país entre 1980 e 1990. Verdadeiramente, o acontecimento mais significativo é a adesão à Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia («Quando dizem adesão utilizam um eufemismo!»). É a quarta descida aos “Infernos”. «A perda de independência vai-se sentindo aos poucos e vai tendo a sua expressão no social, como os casos de pedofilia que têm vindo a público demonstram.» Mas a questão que se coloca é a seguinte: quando se desce, tende-se a subir? «Não necessariamente. Há entre uma fase e a outra de renovação um hiato, um vazio que se faz, um nada que se faz, que é completamente tremendo. A partir daí é que pode surgir uma nova renovação. Não acredito que na continuidade do que está possa haver qualquer coisa de novo…» E como se define o vazio? «Quando há um trânsito, têm de haver uma passagem pelo não-ser, uma morte; é como na hora da morte: dá-se um nada. E a esse nada é que se segue uma outra coisa. Toda a transição tem um momento como se nada existisse.»

    http://aeterna.no.sapo.pt/lusophia/lusophia40-sm.htm

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