«Adeus Português» [Alberto Gonçalves, DN]

Adeus, português

É fascinante que um pequenino bando de ociosos tenha decidido corromper a língua de milhões. O fascínio esvai-se quando se percebe que os ociosos atingiram os intentos. O Acordo Ortográfico, criação de arrogantes com uma missão, é oficial e está aí, perante a complacência dos poderes públicos em princípio eleitos para defender o país e não para o enxovalhar deliberadamente.

Até hoje não se percebe a serventia do dito Acordo. A partir de hoje, também não se irá perceber. Ao que consta, a ideia seria “unificar” a escrita de todos os países de expressão portuguesa. Naturalmente, ficou muito longe disso. Ainda que não ficasse, onde estaria o ganho? Por mim, os brasileiros e os moçambicanos são livres de adoptar o húngaro sem que eu os censure ou sequer note a diferença. Não sou brasileiro nem moçambicano. Sou português e, não fosse pedir demasiado, dava-me jeito redigir na língua em que cresci. À revelia da proclamação gratuita de Fernando Pessoa, a minha pátria não é a língua portuguesa. Mas a minha língua é.

Em abono dos Malacas Casteleiros e restantes conspiradores do Acordo, é verdade que semelhante aberração não caiu do céu. A repugnância que esses senhores dedicam às palavras, e que os leva a esventrá-las sem escrúpulos, encontra um ambiente hospitaleiro na sociedade em geral, a começar pelos políticos que avalizaram a vergonha lexical em curso. Dificilmente os sujeitos cuja retórica é um amontoado de “alavancagens” e “empoderamentos” travariam a degradação do vocabulário.

E o resto não melhora. Da televisão às SMS, do Facebook à escola, pouco, quase nada, nos lembra que comunicamos no mesmo idioma do referido Pessoa. Assistir a um “telejornal”, ler um texto produzido pelo universitário médio ou espreitar os padrões do romance contemporâneo indígena é descer a jargões e graus de analfabetismo abjectos, com ou sem “c”. Porém, se os maus-tratos à língua já eram habituais, não eram obrigatórios. E essa é a diferença entre temer pela vida de um moribundo e assinar, oficial e urgentemente, o respectivo óbito.

Alberto Gonçalves

[Transcrição parcial de crónica da autoria de Alberto Gonçalves publicada no “Diário de Notícias” de hoje, 08.01.12.]

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    • Cláudia B. Marques on 8 Janeiro, 2012 at 16:34
    • Responder

    O Código de Processo Civil, estabelece, em relação às pessoas singulares, alguns bens absolutamente impenhoráveis, pela sua importância, designadamente, na dignidade das pessoas. Aplicando este principio à realidade de um país, diria que os seus bens mais importantes são a língua, a bandeira, o hino, a história, a cultura, as tradições…
    Ora, quando já vendemos a língua, não me espanta que, dentro em pouco se venda a história, e se descubra que foi o Brasil a descobrir Portugal. Enfim…

    • Claudio Vieira de Carvalho on 8 Janeiro, 2012 at 21:07
    • Responder

    Se Pessoa ressuscitasse hoje deploraria até mesmo a ortografia que Alberto Gonçalves defende. Ah, e as anteriores também pois, sabe-se que jamais abandonou “a ortografia sem ípsilon”.
    Cumpts!

  1. O senhor Casteleiro & Cª nunca aprenderam que “falar mal é pecado”! Vai daí toca de facilitar a vida aos “pecadores” e decretar que todos os portugueses passem a falar e a escrever mal. Comigo não contem: continuarei firme a escrever segundo as regras do meu professor da primária, o velho João Guilherme da Silva Leite que sabia mais português sózinho (não sozinho) que essa cambada toda que invadiu a horta para destruir a cultura. Agora mesmo a ouvir na TV que dúzia e “maia” de policias não conseguiram prender o “Táváres” antes do “por” do sol!
    Brincalhões pseudo científicos…borra do nosso melhor vinho!

    • Inspector Jaap on 18 Janeiro, 2012 at 16:10
    • Responder

    Texto notável, o seu, caro Alberto Gonçalves, pois pôs em letra de forma o que me vai na alma. Parabéns.
    Cumpts

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