«O Acordo Tortográfico» [Miguel Esteves Cardoso]

O Acordo Tortográfico

Como os filólogos da República da Guiné-Bissau não puderam estar presentes na recente reunião para o Novo Acordo Ortográfico, estamos todos à espera da sua ratificação para saber como é que nós, os Portugueses, vamos escrever a nossa própria língua. E esta? De qualquer modo, os grandes peritos de São Tomé e Princípe, de Angola, do Brasil, e dos outros países de «expressão oficial portuguesa» já se pronuciaram. A República da Guiné-Bissau, porém, também terá a sua palavra a dizer. Muito provavelmente, uma palavra escrita à maneira deles; mas não faz mal. Nas palavras de Fernando Cristovão, 1986 é o ano que marca a nascença da lusofonia. A grandiosa lusofonia está, obviamente, acima da mera língua portuguesa.

A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a a lusofonia funciona com mais de 100 milhões.” Para mais, os falantes da lusofonia têm a vantagem de ser feitos em África e na América do Sul, o que lhes confere uma sonoridade nova e exótica. Para instalar uma aparelhagem lusofónica devidamente apetrechada, são necessários complicados componentes tupis, quimhmoguenses, umbandinos e macuas, Enfim, coisas que não se fabricam na nossa terra. A partir de 1986, todos os povos a quem uma vez chegou a língua portuguesa podem contar com um lusofone em casa. Um lusofone é um aparelho que permite a qualquer indígena falar e escrever perfeitamente esta nova e
excitante língua, que passará a chamar-se o brutoguês.

Para haver lusofonia, nada pode ser como dantes. Os Lusíadas passarão a conhecer-se por Os Lusofoníadas. Se dantes havia língua portuguesa e a sua particular ortográfica, agora passa a haver a língua brotuguesa e a sua ainda mais particular tortografia. A tortografia, conforme se estabeleceu no Acordo Lusofónico de 1986, consiste em escrever tudo torto.

As bases da tortografia assentam numa visão bruta da fonética. Por outras palavras, se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficial brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito de cacografia”. Dantes cada país exercia o direito inalienável de escrever a língua portuguesa como queria. As variações ortográficas tinham graça e ajudavam a estabelecer a identidade cultural de cada país. Agora, com o Acordo Tortográfico, a diferença está em serem os Portugueses a escreverem como todos os outros países querem. Como todos os países passam a escrever como todos querem, nenhum país pode escrever como ele, sozinho, quer.

As ortografias tupis e crioulas, macumbenses e fanchôlas passarão a escrever-se direito por linhas tortas. O Prontuário passa a escrever-se «Prontuario», rimando com «desvario» e «Cuf-Rio». O Abecedário passa a escrever-se «Abecedario», em homenagem a dario, grande Imperador da Pérsia, que, por sua vez, se vai escrever «Persia» para rimar com «aprecia», já que qualquer persa aprecia uma homenagem, mesmo que seja só uma simples omenagem. Já dizia acentuadamente Fernando Pessoa que «a minha pátria é a língua portuguesa». Agora passa a dizer «a minha patria é a lingua portuguesa», em que «patria» deixa de ser anomalia e «lingua» assim, nua e crua.

Será possível imaginar os ilustres filólogos de Cabo Verde a discutir minúcias de etimologia grega com os seus congéneres de Moçambique? Imagine-se o seguinte texto, em que as palavras sublinhadas serão obrigatoriamente (para não falar nas grafias facultativas) escritas pelos portugueses, caso o acordo seja aprovado:”A adoção exata deste acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileira, com a ajuda entristorica dos diretores linguisticos sãotomenses e espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que não sabem distinguir uma reta de uma semirrecta, dizem que as bases adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo menos, extraumanas. No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos santo Antonio, mas sem mais maiúscula. A escrever »O mano, que é contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não é sobreumano«? O que é que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar)? A tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?”

Os portugueses no fundo assinaram um Pacto ortográfico que sabe a pato. Ninguém imagina os espanhóis, os Franceses, ou os Ingleses a lançarem-se em acordos tortográficos, a torto e a direito, como os Portugueses. Cada país – Seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio, Portugal já tem uma língua e uma ortografia próprias. Há já bastante tempo. O Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso. Os países africanos que foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho. Tentar «uniformizar» a ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam passar por cima de misteriosos mecanismos da língua, traduz um insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma subtracção totalitária.

A ortografia brasileira tem a sua razão de ser, e a sua identidade. Quando lemos um livro brasileiro, desde um «Pato Donald» ao Guimarães Rosa, essas variações são perfeitamente compreensíveis. Até achamos graça. Como os Brasileiros acham graça à nossa. Tentar «uniformizar» artificialmente a ortografia, para além das bases mínimas da Convenção de 1945, é da mesma ordem da estupidez que pretender que todos os que falam português falem com a pronúncia de Celorico ou de Salvador da Bahia. é ridículo, é anticultural, é humilhante para todos nós. Se não tivessem já gozado, era caso para mandá-los gozar com o Camões.

Imaginem-se os biliões de cruzeiros, escudos, meticais, patacas e outras moedas que vai custar a revisão ortográfica de todos os livros já existentes. Imagine-se o distanciamento escusado que se vai causar junto das gerações futuras, quando tentarem ler escorreitamente os livros do nosso tempo. Sobretudo, imagine-se a desautorização e a relativização que o acordo implica. Amanhã, uma criança há-de escrever esperanssa e quando for chamada a atenção, dirá «tanto faz, que estão sempre a mudar, e qualquer dia desaparecem as cês cedilhados». Ou responderá, muito simplesmente: «Pai, mas é assim que se escreve em Cabo Verde!»

“A língua portuguesa nasceu do latim – toda a gente sabe. Um dia, a língua brasileira, e a língua são-tomense, e a língua angolana serão também línguas novas e fresquinhas que nasceram da língua portuguesa. Ninguém há-de respeitar menos a língua por causa disso. (Nós também não desrepeitamos o latim.) As línguas são indissociáveis das culturas e das histórias nacionais, e elas são diferentes em todos os países que hoje falam português à maneira deles. A maneira é a maneira deles, e a nossa é a nossa. A única diferença é que Portugal já há muito que achou a sua própria maneira, tanto mais que a pôde ensinar a outros povos, e é um ultraje e um desrespeito pretender que passemos a escrever como os Moçambicanos ou como os brasileiros. Eles são países novinhos. Nós somos velhinhos, e não faz sentido ensinar os velhinhos a dizer gugudadá, só para que possam «falar a mesma língua» que as criancinhas.

Sem império, Portugal tem ainda a dignidade de ter sido Império. Mas há um feitio mesquinho que se encontra em muitos portuguesinhos de meia-tijela, que consiste em ter medinho que as ex-colónias se esqueçam de nós. Estes acordos absurdos são sempre «ideia» dos Portugueses armados em donos da língua. A verdadeira dignidade não é essa – é soltar a língua portuguesa pelo mundo fora, já que a sua flexibilidade é uma das suas maiores riquezas. Aquilo que já aconteceu – haver um português brasileiro, um português angolano, um português indiano – é prova gloriosa disso. Mas quando os Portugueses desejam meter-se na vida linguística dos outros, é natural que os outros também se metam na nossa. Os próprios participantes deste último Acordo parecem ter perdido completamente a cabeça, aceitando normas ortográficas disparatadas para a língua portuguesa de Portugal. Sem ingerências da nossa parte, seriam inaceitáveis as ingerências dos outros. O Acordo agora proposto – que o Governo deveria ler muito cuidadosamente, antes de consigná-lo, entre saudáveis gargalhadas, ao caixote do lixo da história – é uma mistura diabólica e patética de extremo relaxamento ortográfico («tudo vale, seja na Guiné, seja em Loulé) e de inadmissível sobranceria cultural («tudo vale, mas nós é que temos o aval»). Faz lembrar aqueles miúdos que dizem «Eu faço o que vocês disserem, desde que eu possa ser o chefe»).

Dizem que é «mais conveniente». Mais conveniente ainda era falarmos todos inglês, que dá muito mais jeito. Ou esperanto. Dizem que a informática não tem acentos. É mentira. Basta um esforçozinho de nada, como já provaram os Franceses e já vão provando alguns programadores portugueses. Dizem que é mais racional. Mas não é racional andar a brincar com coisas sérias. A nossa língua e a nossa ortografia são das poucas coisas sérias que Portugal ainda tem. É irracional querer misturar política da língua com a língua da política.
O que vale é que, neste momento, muitos portugueses – escritores, jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para combater a inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em discordar é a verdadeira prova de civilização”.

Miguel Esteves Cardoso, “O Acordo Tortográfico”, in “Explicações de Português” (Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001)

[Transcrito de “post” publicado no blog Lili One em 10.03.08.
Imagem reproduzida do blog Portugal online, de autoria desconhecida.]

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41 comentários

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  1. Caramba!!! Subscrevo, aplaudo de pé e continuo a aplaudir até à exaustão!

    • Eduardo Guerra on 23 Setembro, 2011 at 19:27
    • Responder

    Enfim, o grande prazer de ver escrito o que nos vai na alma, de ver pôr o dedo nas feridas, que são inúmeras…; e de acreditar que, assim com esta força, se alerte a nação e o movimento impeça um verdadeiro suicídio cultural. Um grande obrigado ao M.E.Cardoso.

  2. Eu faço com o a Maria João. E aplaudo até as mãos me doerem…

  3. Ha’ um ce’rebro em Portugal!Amo-o Miguel

  4. Grande MEC. Assim é que se fala!

    • José Eduardo on 24 Setembro, 2011 at 4:16
    • Responder

    A mim parece-me um comentario racista e paternalista de quem nao vive neste mundo moderno.

    Entao os ingleses nao fizeram o mesmo.

    A isto chama-se evolucao.

  5. uma situação que tirou completamente toda a credibilidade do acordo ortográfico foi quando a presidente do Brasil, na ONU, pronunciou “ruptura” ao invés de “rutura”

    • Joaquim Rodriques on 24 Setembro, 2011 at 21:03
    • Responder

    Sim, no Brasil não existe rutura e nem receção mas ruPtura e recePção!

    Cumpts.

  6. Xenofobo(s).

    • Elvino Basilio on 25 Setembro, 2011 at 12:44
    • Responder

    O Miguel tem a possibilidade de escrever bem e publicar.Contudo penso que milhões de portugueses sensatos e anónimos partilham a mesma opinião. O que me surpreende é como foi possível imaginar e ímpor um acordo ortográfico desta natureza!? Quais foram os cérebros desta iluminação? O que os levou a tanta ousadia e submissão? Quais os argumentos e quais as vantagens para a língua portuguesa e para Portugal da implementação deste acordo? Aos portugueses já lhes é difícil escrever bem na sua própria língua que aprenderam na escola, quanto mais difícil não será escrever depois de implementada esta salada ortográfica!?
    Eu não sei se ainda poderá ser evitado este atropelo, pois que me parece inacreditável que seja coisa de pessoas sérias levarem este acordo por diante. Um tema de tão grande importãncia e relevância nacional deveria ser motivo de referendo e nunca poderia ser objecto de acordo entre meia dúzia de governantes paraquedistas. Os governantes são efémeros a língua é eterna.
    De uma coisa estou certo, eu irei sempre escrever com ou sem erros ortográficos, como sei e como aprendi nas escolas em Portugal. O acordo mando-o às urtígas:

    • Virgínia Pereira on 25 Setembro, 2011 at 15:58
    • Responder

    “A minha pátria é a língua portuguesa”… Pois se deixámos de ter língua, deixamos de ter pátria. Já não somos portugueses, somos qualquer outra coisa; “brutogueses”, gostei dessa Miguel! Perdemos a identidade. Um artigo destes só podia ser M. E. Cardoso!!! Se já o admirava… Obrigada por me fazer rir; sim, porque não se pode pensar muito para não chorar.
    Apoiado (e bem falado) Elvino!!! Concordo plenamente com essa do referendo, mas não creio que os “paraquedistas” estejam nada interessados com a sua, a minha, a nossa opinião. “Os governantes são efémeros, a língua é eterna” GOSTEI!!! Conte comigo para engrossar a fila, sou e serei portuguesa, não “brutoguesa”, e já jurei que vou escrever PORTUGUÊS até o fim!
    Obrigada M.E.C.! Quem “fala” assim não é gago 🙂

  7. Eu, como Maria João, também queria aplaudir de pé até á exaustão. Mas tcomo será que escrevo o meu texto de aplauso? 🙁

  8. Um texto excelentemente bem escrito, como é habitual nele, de alguém que diz:
    -…O Rei vai nú

    • Jose Lopes on 25 Setembro, 2011 at 21:49
    • Responder

    Para o José Eduardo: Não, meu caro, o meu amigo está equivocado. Os ingleses NUNCA fiizeram nenhum acordo semelhante porque, ao contrário de nós, não têm nenhum complexo de pequenez nem precisam de se baixarem aos outros falantes da Língua Inglesa até ficarem com o “derrière” ao léu. Esta peça a que Vasco Graça Moura chamou de “pateta” e a que outros ilustres linguistas têm dado uma variedade de nomes pouco lisongeiros, mostra apenas a real pequenez (não já o complexo) de algumas mentes em Portugal.
    MEC não está só. Qualquer cidadão português com dois dedos de inteligência e uma réstea de dignidade tem sobejas razões para se sentir envergonhado com semelhante aborto. Fique-se com esse seu mundo moderno para si, mas abstenha-se de o impor aos outros. Qual racismo ou qual paternalismo? Enxergue-se!

  9. José Eduardo; Mas que acordo fizeram os ingleses?

  10. Trata-se de mais uma incursão pretensiosa dos políticos portugueses em áreas que não dominam.Mas porque raio se metem eles no que não percebem nem sequer tentaram perceber?Cabe a nós atar-lhes as mãos, os pés e a cabecinha…! Miguel Esteves Cardoso já forneceu a corda…! Vamos!

  11. Ando há anos de protestar contra este acordo. No meu blogue há um selo provando isso, numa altura em que a blogosfera mostrou o seu desacordo contra este “acordo”.
    Creio ter sido “chique” para não dizer uma outra palavra forte uma certa camada de “intelectuais” da treta adoptarem, de imediato, os termos deste acordo.
    Jamais escreverei sob o seu designio! Prefiro parar de escrever, a escrever como não quero!

    1. A sua militância é louvável mas, infelizmente, aquela petição continua a recolher assinaturas que desde Maio de 2008 são completamente inúteis, já que uma mesma petição não pode ser entregue e discutida duas vezes.

      Obrigado pelo seu comentário.

      Cumprimentos.

  12. Quando é que os Ingleses fizeram algum acordo destes? Nós é que não damos pelas diferenças ortográficas entre o Inglês Britânico e o Inglês Norte-Americano, mas elas existem e remontam ao séc. xix. Basta ler e aprender: http://www.greyorgray.com/

    Apenas um país com uma mentalidade como a nossa se poderia prestar a algo assim. Como se já não estivéssemos a perder pouco… ainda oferecemos a língua de bandeja…

    • Mário on 27 Setembro, 2011 at 11:55
    • Responder

    E quando essa tipa se declarou “presidenta” do Brasil? O quê, também vamos ter de nos sujeitar aos vocábulos que ela inventar?

    • Bruno Fernandes on 28 Setembro, 2011 at 0:41
    • Responder

    Ri-me bastante da parte em que o Sr. cita Fernando Pessoa para vincar a sua posição. É que o senhor Fernando, originalmente escreveu “portugueza”, com “z”. Como se não bastasse, na frase logo a seguir vem “Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon (…)”. Terá fumado ópio a mais quando foi escrever? Pois é, ele era contra a RO de 1911! E então agora quem tem razão? Fernando Pessoa? Então vamos todos voltar à escrita etimológica!

    • cristina on 28 Setembro, 2011 at 7:49
    • Responder

    O que me faz confusão é o tom xenófobo usado contra o acordo. Nós sempre temos tido revisões ortográficas (eu já conheci várias), como acontece aliás em qualquer língua viva. Ninguém é capaz de ler os Lusíadas em português arcaico, como é óbvio.
    Deixámos de escrever “pharmácia” e “augmentar”, por exemplo. Continuamos nesse processo de deixar cair as consoantes mudas, o que me parece lógico porque as línguas evoluem no sentido da simplificação e não da complexificação.
    Falam aqui das variantes de “rutura” e “ruptura”: o acordo prevê as duas formas, precisamente porque no Brasil este “p” não é mudo como em Portugal.
    Não digo que o acordo seja à prova de bala, nem sequer o conheço na totalidade, mas tanta aversão visceral à mudança parece-me pouco interessante e sobretudo pouco eficaz. Porque é que não fazem propostas específicas de retificações? É que no meio de tanta virulência, eu nem percebo se são contra a revisão ou contra o acordo.

    • Gisela Pereira on 29 Setembro, 2011 at 2:31
    • Responder

    Cristina,
    Creio que confunde xenofobia com a defesa da língua – em última análise será patriotismo – , tanto que no Brasil e noutros países de língua oficial portuguesa existem opositores ao acordo, tendo por argumentos muitos dos aqui apresentados, em particular que este AO não simplifica nem unifica coisa alguma, pelo contrário, induz mais duplas grafias e erros. O que a senhora cita – “rutura” e “ruptura” – é exemplo disso, e como esse muito mais.
    Não existe aversão à mudança, existe contestação ao que não consideramos útil e eficaz.
    Talvez – juízos aparte, porque maleitas virosas são das mais diagnosticadas quando outra justificação não se sabe – , pudesse consultar todos os artigos deste site (há uns quantos que dissecam o AO e propõem revisões), ou quem sabe o AO propriamente dito.
    Sabe, às vezes as chapas 5 camuflam, só lá chegamos com ressonâncias, vendo-se o todo.

  13. Acredito piamente que quem conhece na totalidade o AO90 é contra o mesmo. Os perigos e atropelos ultrapassam grandemente quaisquer vantagens que dele se possam tirar.

    Falando por mim, eu sou contra esta particular revisão (embora ache a ideia de um acordo de unificação pouco realista). Tanto me dá que escrevam ‘pharmácia’ ou ‘farmácia’, ‘húmido’ ou ‘úmido’ (embora me soe estranho por razões óbvias, nomeadamente ter muito mais familiaridade com a primeira versão). E decerto ninguém morrerá por escrever meses com maiúscula ou minúscula.

    A questão que se põe é que a ortografia deve ajudar à compreensão da língua, e não dificultá-la. Algumas rectificações que eu consideraria insdispensáveis seriam, por exemplo, deixar de ‘inventar palavras’. Ora, se em todos os países de língua portuguesa se escreve ‘espectador’ e ‘recepção’, qual a lógica de criar disparidades onde não as há? Antes só havia uma maneira de escrever ‘recepção’. Agora há duas. Isto não é unidade.

    Segunto ponto: criação de palavras homógrafas ‘até dar com um pau’, como se costuma dizer. Peguemos outra vez no exemplo do ‘espectador’. ‘Espetador’ é, por definição, alguém que espeta algo. Nesse caso, cada vez que aparecer ‘espetador’, a qual nos referimos? Ao que espeta ou ao que presencia algo? E que dizer do verbo ‘parar’ e da preposição ‘pára’? Se ler “João, para o carro”, deve o João entrar no carro ou pará-lo? E temos aquela espinhosa planta que agora se chamará ‘cato’. E cato quem? Cato o cato? Ficamos sem distinguir a planta ‘cacto’ do verbo ‘catar’. E poderia estar aqui todo o dia, os exemplos de nova homografia são tantos que roça o ridículo.

    Terceiro, a pronúncia. Dizem por aí que o novo acordo só afecta a escrita, e não a pronúncia, continuaremos a ler da mesma maneira. Nós, talvez. As gerações daqui a 20 anos, duvido. Como decerto já deve ter ouvido, os portugueses precisam mesmo do ‘c’. Abre as vogais. Aos brasileiros não faz diferença, pois tendo eles uma fonética diferente da nossa, todo o ‘a’ é lido como ‘á’. Nós, introvertidos que somos, fechamos tudo. Gostamos do ‘â’ mais do que do ‘á’. E quando é um ‘e’, preferimos nem o ler. ‘Afectado’, é lido como ‘afétado’ em ambos os sítios, tire ou acrescente um ‘c’ a gosto. Mas ‘afetado’, o português lê como ‘afêtado’, e mesmo ‘aftado’ (de ‘aftas’ talvez?). E que dizer da famosa ‘correcção’? Se lemos ‘coreto’, também lemos ‘correto’ como ‘corrêto’. Se é para mudar, não seria melhor mudar tais palavras para ‘corréto’ e semelhantes?
    (Chamo também à atenção para o facto de já ter havido uma reforma ortográfica onde foram eliminadas todas as consoantes não pronunciadas que podiam ser removidas sem problemas. O que resta, é um campo de espinhos.)

    Também é de notar o facto de que toda esta nova revisão é baseada em premissas dúbias ou mesmo falsas. Este acordo nunca teve um ‘debate público prolongado’. As opiniões do estudiosos não foram tidas em conta, aliás, foram completamente ignoradas. Sugiro que veja os vários pareceres elaborados sobre esta revisão (aqueles não redigidos por pessoas envolvidas neste ‘acordo’, claro está). Por fim, a unificação da língua é uma coisa idílica, mas não realista. Os eventuais problemas de compreensão entre os vários falantes prendem-se mais com o diferente vocabulário e a pronúncia de cada um, e a ortografia unificada não alterará o entendimento (ou falta dele) entre os vários falantes da língua portuguesa.

    Sinceramente, o melhor teria sido simplemente dizer que todas as variantes do português eram aceites em todos os países. O caos seria bem menor.

    Espero que tenha compreendido o porquê desta oposição, e que não cometa o erro que tantos outros cometem ao dizer que todos os que são contra o AO são apenas xenófobos retrógados.
    Os melhores cumprimentos.

    • Isabel on 29 Setembro, 2011 at 14:37
    • Responder

    Muito bem, MEC! Com graça e acutilância disse muitas verdades e demonstrando respeito para com os países envolvidos. Obrigada!

    • Mila Soares on 2 Outubro, 2011 at 13:23
    • Responder

    Aplaudo de pé! Baterei palmas enquanto puder, e quando me, já doerem… tanto as mãos, continuarei a aplaudir… mesmo assim… (Partilhei)

  14. bph….estou plenamente de acordo com todas as razões que expôs sobre esta “ideia peregrina” que é o novo AO….por mim, vou continuar até morrer, e até que a voz e as mãos me doam, a escrever e a falar como sempre me ensinaram (e muito bem) e jamais admitirei que me atribuam erros quando a minha escrita não seguir as regras deste acordo. Entretanto, e neste preciso momento, já considero tarde para voltarmos ao passado, porque o novo acordo já está em prática. Tenho pena…..

    1. Nós não queremos “voltar ao passado” pela simples razão de que esse passado não existe. O que pretendemos é que o Presente, isto é, as duas normas de escrita actuais, tenham futuro. O futuro que merecem e não um outro inventado, torto, absurdo .

    • Antonieta on 5 Outubro, 2011 at 23:09
    • Responder

    Parabéns ao Miguel Esteves Cardoso. Escreveu tudo o que precisava ser escrito. Nestas linhas estão a revolta e a exposição do absurdo que é este acordo. Eu continuarei a escrever como sempre escrevi. E tenho pena das crianças que vão começar a aprender a ler e a escrever com base nesta palhaçada.

    • Luís Almeida on 12 Outubro, 2011 at 15:38
    • Responder

    Sempre que MEC fala ou escreve qualquer coisa penso que poderia ser eu a dizê-lo só que de uma forma muito menos brilhante.
    Neste caso ( o do “desacordo ), então, a minha concordância é total e a minha admiração pelo brilho do estilo, imensa. Adoro a sua ironia, por vezes a roçar o sarcasmo!
    Só diferimos na análise política ( das causas e efeitos … ) porque eu sou comunista, militante de base do PCP e tudo, e ele não.
    Mas, até nesse campo tenho de gabar-lhe a honestidade. Li há algum tempo um artigo seu sobre as impressões sobre a Festa do “Avante!” e os comunistas lhe deixaram que, para grande engulho meu, provou que ser-se de direita e ser honesto não são incompatíveis. E que “neutral” e “isento” não são sinónimos.

    • Acácio Rouxinol on 18 Janeiro, 2012 at 12:32
    • Responder

    Excelentíssimo Sr. Miguel Esteves Cardoso!
    Bem haja!
    Mais do que a legitima pertinência da sua dissertação sobre este tema (que de controverso tem, na realidade, a estupidez e a tacanhez dos cretinos que apadrinham este “Acordo Horto-gráfico”), quero felicitar a consistência dos seus argumentos e a excelente forma e saúde da sua bem ginasticada inteligência.
    Em jeito de desabafo, permita que lhe lembre que, afora o seu empenho e esforço… ainda não será (desta) “o fim da macacada”!
    Os meus cumprimentos.
    Acácio Rouxinol

    • António Ribeiro on 24 Janeiro, 2012 at 23:15
    • Responder

    Caro Miguel Esteves Cardoso,
    Saúdo o seu empenho em contrariar esta corrente de intelectuais desocupados que se dedicou a descaracterizar um dos nossos principais patrimónios.
    Preocupa-me que esse movimento de escritores e jornalistas não esteja tão empenhado em anular o AO como eu gostaria.

    Melhores cumprimentos

    António Ribeiro

  15. OBRIGADA Miguel! faz-nos bem estas intervenções acutilantes e interessantes. obrigada por me ajudar a compreender a minha inflexibilidade e recusa em escrever o brutoguês. sinto que não foi em vão que a minha professora da escola primária me corrigiu os erros com a régua… hoje,com 55 anos, a minha referência continua a ser a minha professora que nos corrigia os erros com as explicações da etimologia da palavra. OBRIGADA Miguel

  16. Miguel, quero aplaudi-lo! Se possível no cimo de uma montanha!
    Acabo de tomar conhecimento desta magnífica intervenção! Parabéns! Sou uma leitora assídua das suas crónicas e esta tinha-me passado….
    Há por aí quem coloque, de novo(?), este valioso documento a circular em todas
    as estradas virtuais, começando pelo e-mail? Eu ainda não me movimento muito bem nestas técnicas. Pergunto-me se ontem, dia de Camões, terá sido referido, por algum orador, o estado caótico a que a Língua Portuguesa está a chegar. Cito um exemplo: num dos canais generalistas, uma locutora diz que no Oceanário de Lisboa há 4 “fémeas”…. Os acentos andam tão à deriva que, ao serem expropriados da sua própria casa, saem desnorteados e entram na fala da 1ª ignorância que passar.
    Por favor, Miguel, escreva mais e publique em jornais. É o seu estilo e inteligência que nos faz falta. Obrigada em nome do Português.

    • Xavier Freitas on 22 Novembro, 2012 at 19:41
    • Responder

    Caro MEC,
    Sou um leitor assíduo da sua coluna no Público e admirador confesso da sua prosa, simultaneamente irreverente e eloquente.
    Discordo totalmente da sua opinião sobre o tão incompreendido Acordo Ortográfico de 1990 (AO), embora tenha de confessar que a sua posição não me surpreende. Grande parte dos intelectuais que vociferam conta esta reforma ortográfica (já tivemos muitas!) são conservadores. Ora, o que eu sei sobre os conservadores (não sendo eu conservador), é que pretendem conservar o que existe e mudar apenas o estritamente necessário. E é neste ponto, precisamente, que eu confesso a minha perplexidade perante a incompreensão de que o Acordo é vítima. Esta reforma, acordada entre todos os países que falam e escrevem em português, permite conservar a ortografia tal como a conhecemos, mudando apenas o estritamente necessário para que possamos escrever todos de uma forma mais aproximada. O AO não pretende anular todas as discrepâncias entre as variantes da língua – em Portugal continuaremos a escrever ‘facto’, porque é assim que pronunciamos e no Brasil continuarão a escrever ‘fato’, porque é assim que por lá se pronuncia. As particularidades das variantes do português subsistirão, mas em muito menor quantidade. Corrigiremos a maioria das divergências eliminando sequências consonânticas anacrónicas que não pronunciamos e acentos que não são essenciais.
    Há uma diferença clara entre ter duas ortografias oficiais (que nos obriga a escrever duas vezes a mesma língua em tratados com o Brasil e no âmbito da CPLP!) e uma única ortografia com um número de divergências diminuto, semelhante às diferenças entre o inglês britânico e o inglês americano.
    Como vê, meu caro MEC, é possível manter algumas particularidades do português europeu sem perder a unidade essencial da língua escrita que permite facilitar a comunicação e a divulgação da terceira língua mais falada do Ocidente. Será esta uma ideia assim tão nefasta que congregue o ódio visceral de tantos intelectuais?
    A simplificação da ortografia, é disso que trata o AO é a verdadeira tradição ortográfica portuguesa. Desde 1910 a nossa língua conheceu muitas reformas, algumas delas acordadas com o Brasil. Algumas destas reformas foram criticadas por muita gente e, no entanto, hoje ninguém escreve ‘prompto’ em vez de ‘pronto’.
    Lamentavelmente, há muita desinformação sobre esta reforma e isso em nada contribui para a sua compreensão e aceitação. Parte das palavras do seu comentário não estão escritas segundo as normas do AO. As regras do AO não prescrevem ‘contraalmirantes’, ‘malumorados’, ou ‘antiistóricos’. Há, muitas vezes, da parte daqueles que estão contra o AO uma falta de seriedade que os desautoriza e confunde as pessoas menos informadas. Sempre acreditei que os intelectuais tinham responsabilidades importantes na formação de uma opinião pública esclarecida através de um debate sério e elevado. Infelizmente, nem toda a gente está para isso.
    PS: Este texto está escrito segundo a nova ortografia. Como poderão verificar há muitas diferenças em relação à ortografia anterior…

    1. AHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

    • Luís Ferreira on 23 Novembro, 2012 at 1:10
    • Responder

    Sr. Xavier Freitas,

    peço-lhe que escreva de novo o seu texto, desta vez com a gentileza de provar cada afirmação que faz. Se o fizer, afianço-lhe que ganhará um admirador pela sua capacidade de fazer o que até agora ainda ninguém conseguiu fazer. Dou-lhe alguns exemplos.

    (Prove, sem recorrer aos argumentos de autoridade o seguinte:)
    “o que eu sei sobre os conservadores (não sendo eu conservador), é que pretendem conservar o que existe e mudar apenas o estritamente necessário.”

    (Prove, sem recorrer aos argumentos de autoridade o seguinte:)
    “Esta reforma, acordada entre todos os países que falam e escrevem em português, permite conservar a ortografia tal como a conhecemos, mudando apenas o estritamente necessário para que possamos escrever todos de uma forma mais aproximada. ”

    (a conseqüência é que já se escreve fato, por facto; pesquise na rede)
    “continuaremos a escrever ‘facto’, porque é assim que pronunciamos e no Brasil continuarão a escrever ‘fato’, porque é assim que por lá se pronuncia.”

    (defina anacronismo lingüístico e prove porque é que há acentos não essênciais)
    “Corrigiremos a maioria das divergências eliminando sequências consonânticas anacrónicas que não pronunciamos e acentos que não são essenciais.”

    (quantifique com referência a bibliografia da especialidade o seguinte:)
    “Há uma diferença clara entre ter duas ortografias oficiais (que nos obriga a escrever duas vezes a mesma língua em tratados com o Brasil e no âmbito da CPLP!) e uma única ortografia com um número de divergências diminuto, semelhante às diferenças entre o inglês britânico e o inglês americano.”

    (Prove, sem recorrer aos argumentos de autoridade o seguinte:)
    “é possível manter algumas particularidades do português europeu sem perder a unidade essencial da língua escrita que permite facilitar a comunicação e a divulgação da terceira língua mais falada do Ocidente.”

    (Indique em que fontes do seguinte:)
    “Desde 1910 a nossa língua conheceu muitas reformas, algumas delas acordadas com o Brasil. Algumas destas reformas foram criticadas por muita gente e, no entanto, hoje ninguém escreve ‘prompto’ em vez de ‘pronto’.”

    (não precisa de esclarecer o seguinte:)
    “Este texto está escrito segundo a nova ortografia. Como poderão verificar há muitas diferenças em relação à ortografia anterior…”

    • Xavier Freitas on 23 Novembro, 2012 at 23:24
    • Responder

    Caro Sr. Luís Ferreira,
    Tenho o maior gosto em provar tudo o que disse.
    (1) Conservadorismo. O que eu escrevi sobre conservadorismo é a definição mais básica sobre essa corrente de pensamento. Parafraseei Churchill e Paulo Portas. ‘’Devemos precaver-nos contra qualquer inovação desnecessária, sobretudo quando é ditada pela lógica’’, W. Churchill. Qualquer fonte de conhecimento lhe dirá sobre o conservadorismo aquilo que eu escrevi. É notório que os conservadores pretendem conservar tudo como está, mudando apenas o essencial; atribuindo aos liberais (uso aqui a acepção anglo-saxónica) o desejo de mudar tudo só porque lhes apetece. Creio que o que escrevi sobre o conservadorismo é do senso comum.
    (2) O AO conserva a ortografia tal como a conhecemos. O ILTEC estimou que as alterações ortográficas atingem 1.6% do total dos vocábulos do nosso português. Dizer que num universo de 100% apenas 1.6% muda é dizer que se mantém a esmagadora maioria das palavras sem alteração. Mesmo que se alterasse 3%, a percentagem continuaria a ser baixíssima. Tome como exemplo o meu comentário de ontem: o texto está escrito integralmente na nova ortografia, mas também podemos afirmar que está escrito segundo a antiga ortografia. Confuso? Dentre 478 palavras nenhuma delas é atingida pelas novas regras ortográficas. Eu escrevi um texto com 478 palavras sobre o Acordo Ortográfico e, apesar de eu afirmar que o escrevi segundo a nova ortografia, a verdade é que ninguém pode distingui-lo da antiga.
    (3) Facto. Esta palavra é fonte constante de desinformação sobre o AO. Como muitos portugueses sabem que no Brasil se pronuncia e escreve ‘fato’ em vez de ‘facto’, os que estão conta o AO envenenaram a opinião pública, fazendo-nos crer que iríamos deixar de escrever ‘facto’ e passar a escrever ‘fato’. Ainda hoje explico a pessoas que isso não é verdade. Se assim fosse, então, o acordo não seria só ortográfico porque nos obrigaria a mudar a pronúncia; e o acordo é, de facto, apenas ortográfico como o seu nome indica. O facto de ver ‘fato’ em vez de ‘facto’ na rede pode bem dever-se à campanha de desinformação e ridicularização ostensiva levada a cabo por muitos dos seus correligionários. Dito isto, importa ressalvar que diferentes variantes ortográficas da mesma língua se interpenetram e influenciam mutuamente independentemente de acordos ortográficos. Veja-se o caso de ‘estória’ em vez de ‘história’ muito em voga há alguns anos e muito antes de o acordo ser implementado. Algumas influências até podem ser positivas! Não me importava que passássemos a dizer e escrever ‘palestinos’ como no Brasil, em lugar do anglicismo ‘palestiniano’, usado correntemente em Portugal.
    (4) Eu escrevi ‘sequências consonânticas anacrónicas’ e não anacronismo linguístico. Quanto muito poderia atribuir-me ‘anacronismo ortográfico’. Gonçalves Viana, mentor da primeira grande reforma ortográfica da língua portuguesa, dizia isto sobre a ‘ortographia monarchica’ (anterior a 1911): ‘’A ortografia pseudoetimológica é uma superstição herdada, um erro científico, filho de pedantismo e da renascença’’ A grande reforma de 1911 diminuiu a componente pseudoetimológica (mas não a eliminou) e privilegiou a componente fonética, muito embora não tenha ido tão longe quanto outras reformas levadas a cabo para a simplificação ortográfica do castelhano e do italiano. Assim, temos como resultado, após a reforma de 1911, que hoje ninguém contesta (embora tenha sido muitíssimo contestada no seu tempo), uma ortografia pseudoetimológica simplificada com uma forte componente fonética. Essa reforma eliminou sequências consonânticas consideradas na altura anacrónicas (por não ser pronunciadas), tais como: ‘contracto’, que hoje escrevemos ‘contrato’, mas manteve algumas como ‘acto’, argumentando que a sua supressão poderia influir na pronúncia. Ora, o que hoje sabemos sobre a influência da ortografia na pronúncia, leva-nos a afirmar que Gonçalves Viana estava errado quando deixou uns resquícios de pseudoetimologia anacrónica em vocábulos como ‘director’, ‘objectivo’, etc. O que sabemos hoje, pelo tempo de experiência que tivemos desde que a reforma de Gonçalo Viana foi implementada é que: A manutenção de ‘consoante muda’ em palavras como ‘actriz’, ‘actuar’, ‘actual’, ‘característica’, ‘exactidão’, ‘tactear’, etc, não serviram para impedir que, na pronúncia erudita e popular portuguesa a vogal anterior à consoante muda emudecesse. Em contrapartida em palavras que perderam a consoante muda com a reforma de 1911, tais como ‘official’, ‘occidente’, ‘occurrência’, ‘occulto’, ‘opposto’, etc (hoje grafadas sem dupla consoante) a vogal ‘o’ não emudeceu. Se juntarmos a isto o facto de existirem na língua portuguesa inúmeras palavras que ‘escapam’ à regra geral do emudecimento de vogais átonas, tais como: ‘invàsão’, ‘ vàdio’, ‘sàdio’, ‘àmanhã’, ‘rèpública’, ‘rètórica’, ‘gèração’, ‘espècular’, ‘espècado’, ‘pègada’, ‘obstètrícia’, etc (o acento é ilustrativo da pronúncia); podemos concluir que a presença de consoantes mudas na nossa ortografia é, afinal, irrelevante para manter a pronúncia. Digamos que a pronúncia escolhe caminhos que a ortografia desconhece. Se quisermos manter uma pronúncia erudita temos de ensiná-la na escola (como um professor que me ensinou que se pronuncia ´gèração’ e não geração com o ‘e’ emudecido como tanta gente diz, hoje em dia). As ‘consoantes mudas’ como se percebe pelo emudecimento do ‘a’ a que acima aludi, não são garante de boa pronúncia. A fonética da nossa variante da língua portuguesa é demasiado complexa para podermos identifica-la através da ortografia. Em conclusão, as ‘consoantes mudas’ não têm utilidade e devem ser eliminadas.
    (5) Sobre os acentos essenciais. Na nossa ortografia, desde 1911 que usamos os acentos gráficos essencialmente para marcar a sílaba tónica como em ‘polícia’, diferente de ‘policia’, (do verbo policiar). Todos os outros acentos, que não servem para marcar a sílaba tónica, são auxiliares de pronúncia, mas não são essenciais. ‘Jóia’ , ‘jibóia’ perdem o acento com o AO porque também já não acentuávamos ‘comboio’. Se não precisamos de acento em ‘comboio’ para sabermos como pronunciar a palavra, o mesmo podemos aplicar a outros exemplos com o ditongo aberto ‘oi’. Os sinais e acentos gráficos têm com eles uma coisa curiosa: só precisamos deles quando os perdemos. Alguns brasileiros revoltam-se contra a eliminação do trema (que já não usávamos em Portugal) em palavras como ‘linguiça’ e asseveram que sem o trema ninguém saberá como pronunciar a palavra. E, no entanto, em Portugal, não precisamos do trema para sabermos que aquele ‘u’ se pronuncia.
    Em relação aos outros pontos creio que fui já suficientemente exaustivo para provar a minha argumentação. Sobre as fontes que me pediu, pode consultar qualquer fonte básica de conhecimento na rede como o wikipedia. Nada do que eu escrevi foi consultado em obras de especialidade. É apenas a minha opinião e bom senso.
    Em conclusão, nem os brasileiros precisam de trema nem nós precisamos de ‘consoantes mudas’ e, se as eliminarmos, temos uma única ortografia para a mesma língua (hoje temos duas). Há algum mal nisto? Ou será que a natural predisposição nacional para o atavismo não suporta umas pequenas mudanças ortográficas que não fazem mal a ninguém?
    PS: Se contar o número de palavras constantes neste texto que mudam com o AO verificará que talvez eu tenha razão no ponto 2.

  17. As pessoas são livres de acreditar no que quiserem. Acreditar que AO90 unifica a língua ou que serve para alguma coisa, acreditar que não faz diferença mudar aleatoriamente 1,6% das palavras, acreditar que as mudanças ortográficas não alteram a pronúncia, acreditar que uma alteração incongruente e sem qualquer fundamento é uma coisa boa, acreditar que aumentar a ambiguidade dos textos não tem importância, acreditar no Pai Natal, na Fada dos Dentes, em duendes, no que quiserem… Que sejam felizes, é o que lhes desejo 🙂

    1. Sim, claro, cada maluco com sua mania, é certo, qualquer um é livre de dizer as parvoíces que entender, isso até se pode tornar divertido para nós outros, em sendo coisa esporádica e a título de excepcional condescendência. Já tentar usar recorrentemente este fórum anti-acordista para debitar umas larachas acordistas não é de todo admissível. Qualquer acordista sabe perfeitamente disso, não é preciso sequer voltar a avisar.

    • Seu Mané on 18 Junho, 2013 at 19:30
    • Responder

    O MEC está feito um balão meteorológico, ou sou eu que ando a ver mal?!

  1. […] «O Acordo Tortográfico» [Miguel Esteves Cardoso] – ILC contra o Acordo Ortográfico. Share this:EmailGostar disto:GostoBe the first to like this post. Deixe um […]

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