«Ao Provedor do Telespetador [sic] da RTP» [FMV]

CARTA ABERTA AO PROVEDOR DO TELESPETADOR [sic] da RTP
by Francisco Miguel Valada on Friday, May 13, 2011 at 11:15pm
CARTA ABERTA AO PROVEDOR DO TELESPETADOR [sic] da RTP [Igualmente disponível nos comentários ao CV do Senhor Provedor: http://on.fb.me/iThpCX]

Bruxelas, 14 de Maio de 2011

Ex.mo Senhor
Dr. José Carlos Abrantes

Senhor Provedor do Telespetador [sic] da RTP,

Prometo a V. Ex.ª que tentarei evitar comentários demasiado técnicos, pedindo desculpa por eventuais imprecisões terminológicas, que se justificam (parece paradoxo, mas garanto que não é) por ser meu único objectivo explicar a leigos em fonologia e fonética (áreas diferentes do saber) e em grafemática e grafética (idem) o erro de se chamar “telespetador” a um telespectador. De antemão, portanto, as minhas sinceras desculpas.

Gostaria de chamar a atenção para o facto de a designação do cargo de V. Ex.ª violar as regras mais elementares quer dos compostos morfológicos da língua portuguesa (1), quer das regras do processo do vocalismo átono do português europeu (2), devendo V. Ex.ª rever com carácter de urgência a designação, pois existe solução para este problema (3).

(1) A palavra telespectador (com C) designa “Que ou aquele que assiste a um espectáculo de televisão”. Esta acepção (do dicionário em linha da Priberam) parece ser adepta da tese segundo a qual o elemento tele- é desconsiderado enquanto radical grego, preferindo afirmar-se que provém da palavra “televisão”. Não sou adepto desta tese, mas não é aqui o lugar para debater matérias do foro académico. Contudo, considerando o radical (espect), que sucede a um prefixo (tel) e precede uma vogal temática (a) e um sufixo (dor), peço a V. Ex.ª que se concentre no radical. ‘Espect’ explica-se pelo latim spectātor. Contudo, V. Ex.ª é “Provedor dos Telespetadores”. Teremos então um inexistente radical ‘espet’, que não se explica pelo latim spectātor, mas pelo germânico speuta, que deu palavras portuguesas como “espeto” (espet + o) e alemãs como Spieß .

(2) Direi a V. Ex.ª que, segundo o processo do vocalismo átono do português europeu, i.e., o processo que ocorre em português europeu, citando de cor palavras de Esperança Cardeira (poderei enviar mais tarde as referências a V. Ex.ª), “as vogais não acentuadas sofreram, na norma do português europeu, um acentuado processo de enfraquecimento”. Ou seja: perante “telespetador” é previsível que V. Ex.ª (ou qualquer outro falante de português europeu) pronuncie [tɛlɛʃpɨtɐ’doɾ] em vez de [tɛlɛʃpɛtɐ’doɾ].

(3) «telespectador/telespetador» são duas acepções aceites (princípio da facultatividade do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990) em português europeu, como verificará no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa de João Malaca Casteleiro (caso V. Ex.ª não saiba, co-autor e negociador do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990), publicado pela Porto Editora. Gostaria de perguntar a V. Ex.ª qual a razão de optar pela segunda e não pela primeira. A primeira é válida, conforme poderá verificar na página 555 da publicação que acabo de mencionar.

Tenho outros comentários sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, mas, para já, limito-me a esta matéria do “telespectador” vs. “telespetador”.

Para o esclarecimento de qualquer dúvida, encontro-me ao inteiro dispor de V. Ex.ª

Agradeço toda a atenção dispensada,
E envio os meus cordiais cumprimentos.

Francisco Miguel Valada

Intérprete de Conferência profissional junto das Instituições da União Europeia e autor do livro Demanda, Deriva, Desastre – os três dês do Acordo Ortográfico (Textiverso, 2009), do artigo “Os lemas em ‘-acção’ e a base IV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990”, Diacrítica – Série Ciências da Linguagem, n.º 24/1, pp. 97-108, Braga: Universidade do Minho, 2010 e de artigos na imprensa sobre a matéria em apreço.

[Transcrição integral, autorizada pelo autor, de texto de Francisco Miguel Valada enviado ao Provedor do Telespetador [sic] da RTP e publicado na página deste no Facebook.]

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8 comentários

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  1. *aplausos*
    Muito bem dito. Mas interrogo-me qual será a razão, no caso das opções facultativas, de optar pela versão não ‘tradicional’ da palavra, dado que todos a aprendemos a escrever com o ‘p’. Não faz qualquer sentido, mesmo tendo em conta a aplicação do acordo. (Será apego às ‘modernices’? Não entendo…)

  2. Excelente comentário Francisco Valada,

    o que talvez muitos portugueses não saibam é que no Brasil apesar de se escrever “espetáculo” pronuncia-se e escreve-se “espectador”, motivo pelo qual os portugueses adeptos de novas modas que retirem o C (não tão mudo assim) de “espectador”, de “aspecto”, ou de “infecção” (ente várias outras palavras) estão a contribuir para uma dupla grafia desnecessária e para o afastamento da pretensa unificação da língua que se insinuava passar a existir com a aplicação do AO90!

    Um abraço
    João

  3. Formidável! Agora são os portugueses que estão a contribuir para dupla grafia desnecessária. Isto vai longe. Há-de chegar a Angola e a Moçambique…
    Cumpts.

  4. Muito bem! Agora não se esqueçam é de depois publicarem aqui a resposta do senhor Senhor Provedor do Telespetador, se alguma!

    (realmente às vezes dava jeito espetar à distância…)

  5. Francisco Valada e todos os usuários da nossa língua, esqueci-me de fazer aqui mais um comentário. Porque será que nós portugueses caímos na tentação de usar a expressão “português europeu” quando a nossa língua nasceu em Portugal!? (Eu também já usei essa expressão, talvez por influência da Wikipédia). Se pensarmos bem a outra designação que se usa para definir o português que se rege por outras normas diferentes das nossas é “português brasileiro”.
    A verdade é que não existe um português brasileiro! atentemos no facto de no Sul, os gaúchos (habitantes do estado do Rio Grande do Sul, extensível também a habitantes de Santa Catrina) terem uma forma peculiar de falar, distinta do resto do Brasil. Cada estado usa, também, palavras que podem ser desconhecidas nos restantes, ou seja a diversidade é muito maior que a encontrada no português de Portugal. Então, porquê continuarmos a usar uma definição da nossa língua que a relaciona ao continente e não ao país onde ela nasceu, ao passo que os brasileiros não se referem ao “seu” português ligando-o ao continente mas sim ao seu país!?
    Será que em séculos vindouros o português possa vir a ser considerado como a língua falada no Brasil, vendo-se os portugueses forçados a alterarem a denominação do nosso idioma para lusitano ou outra designação qualquer imposta pelos outros, devido ao nosso “estranho” modo de falar!?

    Termino com o link para uma reportagem com vídeo: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/05/mec-defende-que-aluno-nao-precisa-seguir-algumas-regras-da-gramatica-para-falar-de-forma-correta.html

    Um abraço
    João

    • Maria José Abranches on 17 Maio, 2011 at 15:41
    • Responder

    A adopção intempestiva do novo Acordo Ortográfico pela RTP é paradigmática do modo como por cá os poderes instalados entendem a democracia e o serviço público. Uma vez eleitos, os políticos, como sabem tudo sobre tudo e nunca têm dúvidas, prescindem da participação crítica e activa dos cidadãos, mesmo dos mais esclarecidos, aplicando rigorosamente a conhecida expressão: “quero, posso e mando”! Mas o modo como pacificamente uma coisa destas acontece, sem que os portugueses se indignem, sentindo-se quotidianamente ultrajados e violentados no cerne da própria identidade, é também, infelizmente, tipicamente nacional. Somos um “país de brandos costumes”, dizem, o que significa, a meu ver e sem eufemismos: “um país onde os prepotentes de toda a espécie sabem que a cobardia dos demais lhes garante a impunidade”.
    Cumprimentos.

    • Maria Eugénia Soares on 23 Setembro, 2013 at 20:06
    • Responder

    Sr. Provedor, é a primeira vez que me dirijo a si e estou a fazê-lo no auge da indignação, hoje dia 23/09/2013, o programa da SIC à noite bombardeias-nos com 4 novelas seguidas!!!!!!
    Que cultura podemos tirar c/ esta programação????? É de facto preciso entreter o Povo nem que seja da pior maneira!
    Penso que o Sr. terá um trabalho a fazer, e este de cultivar e entreter um Povo parece-me muito interessante! Deixo ao seu critério M. Eugénia Soares

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